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segunda-feira, 4 de abril de 2011

O teclado e a caneta

Eis um debate interessante e actualíssimo, com a proliferação avassaladora das TIC na vida quotidiana do ser humano: será que ainda tem algum valor pedagógico continuar a ensinar caligrafia? Se escrevemos cada vez mais num teclado de computador e de forma mais rápida e comunicacionalmente mais eficaz, fará algum sentido continuar a ensinar as crianças a desenhar adequadamente as letras para que as suas palavras possam vir a ser eficazmente lidas por outros? Desenvolverá, ainda assim, outras competências indispensáveis, que o salvífico computador não desenvolve? E a importância e valor da estética? Discute-se nos EUA. (Via Profblog)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Boas razões para esperar um bom modelo

Santana Castilho esclareceu ontem no Público a conturbada e arriscada, mas corajosa, iniciativa parlamentar do PSD, BE, PCP e PEV para suspenderem o actual modelo de avaliação de desempenho docente, bem como clarifica os princípios orienadores da proposta do PSD para o futuro modelo, bem mais consistente e substancialmente bem mais próximo de um bom modelo, sejamos francos, do que o modelo (até me apetecia escrever "rasca") de pseudo-avaliação do PS!

quarta-feira, 30 de março de 2011

É mandá-los todos embora!

No último Quadratura do Círculo, na SIC Notícias, a propósito da suspensão da avaliação docente, António Costa, indignado com tal medida supostamente eleitoralista, profere uma declaração admirável (do tipo “vale tudo”): “até a minha mulher [que é professora] está toda contente”, por ter sido suspensa a avaliação!
Para além da possibilidade do “rolo da massa em acção”, não se percebe muito bem como é que um putativo candidato a secretário-geral de um partido tão moralmente responsável, como o PS, de um putativo candidato a PM de Portugal, possa ter invocado um argumento falacioso e tão popularucho!
A falácia é simples: trata-se de uma generalização precipitada – pressupõe-se, errada e maliciosamente, que nenhum professor deseja ser avaliado, quando talvez a esmagadora maioria não admite ser avaliado por este modelo, tão ineficaz e, ainda por cima, tão negativamente perturbador de um sector crucial da vida sócio-cultural de qualquer país civilizado.
A demagogia é clara: ardilosamente inventado por José Sócrates, o argumento de que os professores são todos os mandriões, incompetentes e irresponsáveis, tem um forte poder persuasivo e elevado grau de adesão junto de uma população que valoriza pouco o saber e a aprendizagem, dá-se muito mal com o esforço e o empenho para aprender e, de forma ressentida, abomina, justamente, ser avaliado (quem gosta de professores, que nos dizem que ainda não fizemos bem e que devemos fazer mais isto e aquilo para realmente virmos a saber?)!
Com professores destes (como a mulher de António Costa?!) a solução é mesmo mandá-los embora, despedi-los – com justa causa, pois então, já que não querem fazer nada! – e colocar nas escolas portuguesas esta nova geração de licenciados ao Domingo, das Novas Oportunidades, em suma, de quem está cada vez mais habituado à ilusão do mundo virtual pseudo-socialista!

sexta-feira, 25 de março de 2011

Melhoria da avaliação docente... finalmente!

Um dos principais problemas do actual modelo de avaliação docente (supostamente "aperfeiçoado"), consiste no facto de esta ser uma avaliação interpares: num grupo de professores, por exemplo, de Matemática de uma escola, um deles avalia os outros; o problema é o de saber se existem as condições para haver a imparcialidade e objectividade necessárias a um processo verdadeiramente eficaz de avaliação. É bem fácil de ver que não (ou são amigos e é difícil avaliar negativamente, ou são inimigos e é difícil avaliar positivamente -- e juntem-se mais prerrogativas, que as há...).

A proposta de suspensão do actual modelo de avaliação, do PSD, vai, pois, neste sentido: acabar com o regime actual de avaliação interpares e substituí-lo por um regime em que seja uma comissão independente a avaliar os professores. Acertado: é preciso aumentar a objectividade e eficácia avaliativa. (Aguardamos pela forma de que se revistirá tal comissão.)

Porquê agora? Não será irresponsável interromper o processo a meio do ano lectivo, em pleno decurso do processo de avaliação? Embora tal seja usado como se o PSD se estivesse a aproveitar para fazer a vontade aos professores, pressupondo-se sempre, erradamente, que os professores não querem ser avaliados (por muito que alguns assim o desejassem), o argumento do PSD é, no entanto, bastante aceitável: a medida é neste momento oportuna, pois o objectivo é que o novo modelo de avaliação de desempenho de professores tenha efeitos a partir do próximo ano. Acertado: é preciso, finalmente, ganhar tempo.

Espero que se tenha começado a arrumar a casa.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ainda há ideias sobre Educação. Faltam as acções!

Eis um artigo de opinião sobre o sistema de ensino que defende uma tese aparentemente controversa.

Controversa por duas ordens de razões.

1. A primeira, porque se baseia numa análise fundada em estudos empíricos, com garantia científica. Paradoxalmente, estas análises chocam, em geral, com o destinatário desta opinião , que, em geral, não valoriza este tipo de argumentação, porque não possui cultura científica suficiente para reflectir nestes termos, o que nos arreda para os confins de um caótico lodaçal educativo, político, cívico.

2. Depois, controversa, agora com uma base mais discutível, por se basear numa comparação com países com melhores resultados, como a Finlândia e alguns "tigres da Ásia" (Singapura, Coreia do Sul), cujas culturas estão alicerçadas numa valorização do saber e do ensino bem mais forte do que aquela que somos capazes, devido a influências histórico-culturais decisivas (a primeira, fortemente influenciada pela cultura protestante, que privilegia o esforço, o empenho, o dever rigoroso e valoriza o saber; os segundos, influenciados pelo confucionismo, que valoriza a sabedoria do idoso, abrindo-se o neófito religiosa e empenhadamente à veneração dessa sabedoria).

A tese central, concreta, seria turmas maiores e muito bons professores, com remuneração elevada para atrair os melhores. Elementar. Mas: turmas maiores com estes alunos, com esta forma de estar da sociedade perante a disciplina, o rigor, o esforço? Melhores professores implicaria regular novamente a acreditação das universidades para a formação de professores, instituir provas de acesso à profissão e implementar modelos rigorosos, objectivos de avaliação de desempenho! E coragem e competência (política e técnica) para isto?

Não deixa de ser, no entanto, uma análise corajosa e um bom rumo possível a seguir, no meio de tanta superficialidade e falta de ideias e princípios orientadores de uma política verdadeiramente educativa e salvadora das próximas gerações, que podem estar perdidas.

Mas, o que é necessário é pensar o que na cultura histórica portuguesa existe (se existe!) no qual se possa ancorar tal atitude positiva, pro-activa, da sociedade, em geral (políticos, pais, empresários, professores), para com a educação. O principal problema da educação em Portugal é, como há muito referem estudos sociológicos, a fraca valorização que a sociedade portuguesa faz do saber e da educação. Só depois vêm: a completa irresponsabilidade e ignorante perspectiva que os políticos têm tido, nas últimas décadas e apesar de melhorias pontuais (nunca de fundo), de tão fulcral base político-social (por muito que estes tenham sempre a responsabilidade de orientar politicamente e de dar o exemplo!); o papel sectarista e pobre de perspectiva dos sindicatos; e a, alguma (pelo menos a espaços), mediocridade cultural e política de muitos professores, que após o 25 de Abril se pavonearam na sociedade como aqueles que ganhavam algum dinheirito sem trabalhar e hoje (muitos deles bons profissionais -- onde é que estaríamos se assim não fossem?!) se sentem num campo de batalha de uma guerra sem móbiles nem comandantes.

Muito há a fazer, pois. Não será fácil. As mentalidades sempre foram o mais difícil de mudar.

terça-feira, 15 de março de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[3]

«Em terceiro lugar, a predisposição à inovação. Se há competências que têm vindo a ser valorizadas nas últimas décadas, são aquelas que sustentam atitudes favoráveis à inovação em contextos culturais de gestão de mudança. Trata-se de uma consequência das alterações profundas operadas nos sistemas de produção e de criação cultural, especialmente na busca incessante de novas soluções, quer de carácter tecnológico, quer organizacional, quer mesmo na concepção do produto.

(…) A pressão sobre a inovação tende a ser cada vez mais intensa, contínua e necessariamente planeada.

Inovar para competir, desde a escala local à escala global, parece ser o sentido do desenvolvimento das sociedades modernas.

Como nos preparamos para estes desafios?

A educação tem um contributo a dar, mas não através de uma pseudocultura de inovação educacional que dominou a reflexão pedagógica nas últimas décadas. O entusiasmo acrítico pela inovação educacional, porque não reflectido em função dos problemas de base e não processada pelo conhecimento, conduziu ao mimetismo de experiências estranhas, à adopção voluntarista de experiências não avaliadas e à replicação no ensino de práticas e lógicas de inovação tecnológica e organizacional que pouco ou nada tinham que ver com a educação.

O experimentalismo voluntarista, mas descontrolado, generalizou-se a muitas escolas portuguesas, sem que se avaliassem os efeitos directos sobre as crianças – que não são “produtos” – e sem que se monitorizassem os resultados e os efeitos. Desde a distribuição dos lugares na sala de aula, ao “aprender, brincando”, tudo eram “boas práticas” e confesso que nunca tive a oportunidade de ver alguém dizer, por exemplo, que esta experiência falhou, que foi um erro, ou seja, que foi uma “má prática”. É mais útil difundir uma má prática como forma de alertar e dissuadir a sua replicação do que banalizar a inovação e as boas práticas. Por isso começo a defender, sem grande sucesso, diga-se, e realização de “seminários de más práticas”.

(…) A inovação educativa é algo de enorme delicadeza porque estamos a trabalhar com crianças, requer reflexão aturada e não a adesão entusiástica, a monitorização dos processos e a avaliação comparada dos resultados. Sem isso, o risco de ficar tudo na mesma é bem menor que o insucesso.

O que precisamos de desenvolver nas novas gerações são as atitudes favoráveis à inovação e à capacidade empreendedora associadas à afirmação da autonomia reflexiva e responsável. Isso requer recentrar as aprendizagens na capacidade de formular e resolver problemas, sem prejuízo do domínio prévio, por exemplo na Matemática, dos algoritmos e dos conceitos fundamentais. Essa particular maneira de pensar não pode ficar confinada à Matemática, vai muito para além dela para estar presente nos mais variados domínios, desde o ambiente à história, da literatura às ciências.

Muitos educadores dão uma especial ênfase ao desenvolvimento da capacidade criativa junto dos seus alunos, nomeadamente nos primeiros anos de escolaridade. Esse é um bom exemplo do que não se deve fazer. Ninguém cria a partir da ignorância, ninguém inova sem conhecimento adquirido. Tal como o ensinar, criar e inovar dá muito trabalho e requer muito conhecimento. Por isso falamos em desenvolver atitudes favoráveis à criação e à inovação e não da pretensa prática precoce de o fazer.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 97-9.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[2]

«Em segundo lugar, a abundância de informação. Hoje há mais informação disponível, mas provavelmente vivemos numa fase que eu classificaria de imatura ao que se projecta para daqui a quinze ou vinte anos. O ritmo de produção de informação tenderá a acelerar-se, a globalização do acesso vai acentuar-se e a acumulação dessa informação atingirá escalas inimagináveis.

De há muito se fala de excesso de informação e dois problemas que apresenta, mas para além dessa abundância coloca-se também o problema da obsolescência, informação que “mata” ou desvaloriza a informação, a um ritmo crescente, tornando o “mercado” uma amálgama de ofertas perante procuras potencialmente insuficientes.

Neste contexto, surge a necessidade premente de avaliação da sua utilidade e da sua validade. Ora, essa avaliação exige capacidades cognitivas redobradas: saber definir muito bem a utilidade e a finalidade da busca de informação, saber questionar e analisar criticamente, ter capacidade de a apropriar com vista a tomar uma decisão ou a produzir nova informação.
É previsível um melhoramento das tecnologias de informação, desde os motores de pesquisa à gestão de bases de dados, mas esse avanço não irá dispensar a boa utilização das ferramentas, a capacidade análise, de reflexão e síntese por parte do utilizador. Ora estas capacidades exigem formação prolongada e sistemática, integrando o que atrás designámos por “saber pensar”. Não bastará o domínio dos operadores lógicos, é necessário saber questionar, formular bem os problemas, construir hipóteses e identificar com rigor o objecto da pesquisa.

Mas há um outro desafio, o da passagem da perspectiva do utilizador para a do criador, do produtor de nova informação. Só assim poderá haver utilidade social e valor acrescentado. A informação, por isso só, não passa de uma matéria-prima. Acrescentar-lhe valor implica processá-la e torná-la socialmente reconhecida.

Como lá chegar através da educação? Começando, desde os primeiros anos de escolaridade, com as coisas mais simples: a leitura, análise e interpretação de textos, por exemplo, ou da prática de análise de fontes históricas, das operações mais simples de raciocínio lógico associados aos primeiros exercícios de estatística ou ao hábito de medida, registo, leitura e interpretação de observações de fenómenos quotidianos (temperatura do ar, humidade, tensão arterial, entre tantos outros exemplos possíveis).»
David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 96-7.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[1]

«Que tipo de sociedade vamos ter em 2025? Não será fácil responder de forma objectiva e suficientemente ampla a esta questão. Mas conhecemos algumas tendências.

Em primeiro lugar, a incerteza. Os últimos vinte anos da história mundial recolocaram o problema da reduzida visibilidade prospectiva, dificuldade característica dos períodos de obsolescência e aceleração dos processos de mudança. Fenómenos como a globalização, a inovação tecnológica contínua, as novas formas de competitividade nos mercados internacionais, o aumento de mobilidade das diferentes formas de capital, especialmente de capital humano, estão a transformar as bases da organização social, das economias e dos Estados.
(…)
É necessário preparar e educar as novas gerações para a incerteza. Como? Centrando o ensino e as aprendizagens no adquirido fundamental, a saber: diversificada formação cultural (as línguas, as literaturas, a historia, a filosofia, as artes) combinada com uma sólida cultura científica (a matemática e as ciências).
(…)
A incerteza exige, antes de mais, solidez de conhecimentos e capacidade de os mobilizar para situações novas. Essa solidez adquire-se com esforço – nomeadamente de memorização –, treino, trabalho sistemático e disciplina. A capacidade de mobilizar o conhecimento desenvolve-se através da prática de resolução de problemas, do incentivo à reflexão, do raciocínio demonstrativo, do confronto as soluções. Os dois requisitos completam-se e tornam-se indispensáveis principalmente quando sustentados em atitudes favoráveis aos processos de mudança e adaptação, nomeadamente de carácter organizacional.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 94-5.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O génio maligno

«(…) Há sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida.»
(Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma)

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre educação e equidade social]

[3]

«Curiosamente, terá sido nos períodos áureos de afirmação do romantismo educativo, sintetizado na expressão corrente de “eduquês”, que as taxas de reprovação atingiram os níveis mais elevados. Talvez se explique esse facto pela forma como se gerem as expectativas educacionais: se forem baixas, ajustando-se à baixa auto-estima do aluno, decerto se produzirão resultados fracos; se forem altas, aumenta-se a probabilidade de sucesso educativo. É reconhecido o facto de o esforço e as expectativas das crianças e dos jovens se ajustarem facilmente aos objectivos que lhes são colocados. Se lhes pedimos pouco, eles naturalmente darão pouco, se, pelo contrário, lhes pedimos muito, darão muito mais. (…)
É evidente que as taxas de retenção e desistência têm vindo a baixar desde o princípio da década, facto que contradiz algumas das visões mais pessimistas aquando da introdução dos exames nacionais do 12.º ano (1997) e do 9.º ano de escolaridade (2005) que previam, de acordo com a lógica de que os exames só servem para aumentar o insucesso, um aumento da retenção e da desistência. Afinal o que se passou foi exactamente o contrário. Podemos facilmente concluir que os exames são perfeitamente compatíveis com o sucesso escolar.

Um bom professor, tal como uma boa escola, é aquele que consegue contrariar o determinismo sociológico do estatuto socioeconómico familiar pela qualidade do seu ensino, pela forma como potencia as aprendizagens, pelas expectativas que consegue criar e pelas capacidades que consegue desenvolver nos alunos. Por isso dá tanto trabalho ser professor!

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 90-92.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre educação e equidade social]

[2]

«Há inquestionavelmente um processo de democratização do ensino que se expressou timidamente ainda durante o Estado Novo e que explode de forma quase incontrolável nas duas primeiras décadas do regime democrático. Nesta perspectiva, não tem comparação a dimensão desse acesso nos dois regimes.

Porém, se o regime autoritário seleccionava na passagem do ensino primário para o liceal, o sistema de ensino “democrático” não deixa de o fazer de forma mais imperceptível: selecciona ao longo do trajecto escolar do aluno através das reprovações e das desistências, bem expressas pelas mais elevadas taxas de reprovação e de abandono escolar que são registadas no conjunto dos países europeus. Ou seja, cria-se a ilusão de um fácil acesso, mas depois enfrenta-se um sistema de ensino que não está concebido para ter sucesso.

Só existem duas formas extremas de responder a este efeito de discriminação: fazer baixar os níveis de exigência em nome da equidade social ou, mantendo os níveis de exigência, melhorar os métodos de ensino e mobilizar todos os recursos para prevenir essa discriminação. Como é evidente, o primeiro tipo de solução é o mais fácil de concretizar, mas a prazo rapidamente se conclui que não passa de uma perigosa e irrecuperável ilusão.

É no contexto desta tensão entre equidade social e qualidade de ensino que se criam as condições para a afirmação das visões “românticas” que tendem a confundir a consequência com a causa ou a desvalorizar os meios em função de um fim superior. Esquecem que a melhor forma de atingir esse fim não será “descer” ao aluno, mas fazê-lo “subir” a um nível superior de capacidade intelectual. As deficiências culturais só se superam com mais trabalho, maior capacitação e não iludindo a sua existência. Por isso, na maior parte dos casos, a preocupação de discriminar positivamente os mais fracos traduz-se num reforço dessa mesma fragilidade.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 89-90.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O que não interessou divulgar do PISA

Leia-se este artigo de opinião sobre alguns resultados do PISA, que os nossos opinion makers e a comunicação social irresponsavelmente ignoraram. Ou não se deram ao trabalho de procurar? É que, afinal, Sócrates não terá, decididamente, razão quando afirma que os bons resultados a leitura se deveram, não aos professores (que interessa contiunar a denegrir junto da opinião pública ilusionisticamente paralisada e ainda muito pouco crítica), mas às suas políticas extraordinárias. É claramente falso!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre educação e equidade social]

[1]

«Nas últimas décadas e um pouco por todo o mundo reconhece-se que as desigualdades educativas tendem a reproduzir as desigualdades sociais. O problema nem se deverá colocar entre os alunos das famílias com maiores rendimentos e património face aos alunos provenientes de famílias pobres. Coloca-se sim entre os alunos cujas famílias têm um elevado nível de escolaridade e de “capital cultural” e aquelas que o não têm.

Para muitos não é a escola que faz a diferença, é o nível de escolaridade dos pais dos alunos qe sustenta a diferença entre a maior ou menor probabilidade de sucesso educativo. Se assim fosse, a escola e a educação como instrumentos de ascensão social não passariam de uma ilusão rapidamente desfeita pelo grilhão cultural da família de origem. Seríamos um mero produto do sucesso ou insucesso dos nossos pais, sem direito a sonhar ou a lutar por um estatuto social mais elevado.

Mas não será bem assim. O que hoje sabemos da investigação científica neste articular domínio é que, para além do papel preponderante do capital familiar no sucesso dos alunos, há outros factores que fazem a diferença, desde a escola à qualidade e competência dos seus professores, a organização do sistema de ensino, o papel da comunidade e das relações sociais de proximidade e, não menos importante, a capacidade de todos poderem gerar expectativas elevadas e oportunidades sociais que as realizem.

O determinismo que faz do futuro de uma criança um produto do seu estatuto económico-social teremos de o confrontar com a capacidade que algumas sociedades revelam de contrariar essa dependência e abrir caminhos de equidade e de promoção social e cultural. Quanto mais o conseguirem, mais desenvolvidas se tornam.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 87-8.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Dar a pensar...

[Sobre avaliação]

«Se a qualidade da educação fosse plenamente assumida como um desígnio colectivo, de há muito estaria interiorizada uma cultura de avaliação dos desempenhos: dos alunos, dos professores, das escolas, mas também das políticas educativas. A avaliação é um requisito da qualidade.

Sempre houve a avaliação dos alunos feita pelos professores durante o processo de ensino e aprendizagem. Trata-se do que muitos designam por “avaliação formativa”, tendo por objectivo monitorizar o que se aprende de forma a identificar deficiências e a permitir reorientar o esforço de aprendizagem para a sua superação. É uma avaliação de carácter interno e da responsabilidade exclusiva do professor, que de forma contínua compara os desempenhos do aluno com os objectivos previamente definidos. Utiliza para o efeito diferentes instrumentos de avaliação directa ou indirecta: observação diária, exercícios, trabalhos escritos ou exposições orais, testes regulares, etc.

O facto de se tratar de uma avaliação extremamente personalizada na relação professor-aluno e susceptível de grande subjectividade relativamente às exigências e aos objectivos da aprendizagem conduziu à introdução das chamadas “avaliações externas”, visando aferir os níveis de desempenho, não só entre vários alunos, mas também entre várias escolas. Estas avaliações externas são por natureza sumativas e restritivas, ou seja, realizam-se num determinado momento do trajecto educativo e cobrem apenas uma parte dos conhecimentos e competências adquiridos, de forma a avaliar se o nível de desempenho está de acordo com os objectivos da aprendizagem, podendo então ser ou não certificadas.
(…)
Porém, para além de aferir, as avaliações externas assumem outros efeitos. Em primeiro lugar, expressam um referencial a atingir que poderá funcionar como elemento adicional de motivação. Em segundo lugar, são um instrumento de regulação, especialmente quando estamos perante sistemas de ensino massificados que visam impor determinados padrões de qualidade de ensino.

Quando, após a Revolução do 25 de Abril de 1974, se suspenderam os exames nacionais, poucos pensaram de acordo com o que é um sistema de avaliação educacional em qualquer país do mundo. Os exames nacionais eram, aos olhos de muitos portugueses, um símbolo e um instrumento repressivo e selectivo do regime totalitário que acabara de ser derrubado. Tudo o que era avaliação externa ou de carácter sumativo foi sacrificado ao primado da “avaliação contínua”. Este foi um erro de consequências dramáticas para o sistema de ensino em Portugal, só equiparável à extinção dos cursos técnico-profissionais, porque pretensamente discriminavam socialmente os alunos.

Mas o mais grave foi ter-se prolongado o erro por quase duas décadas, mantendo-se ainda no presente algumas marcas desse erro. (…)

Trinta e cinco anos de indecisões e de debates ideológicos em torno de aspectos tão decisivos para a educação é tempo perdido em excesso.

Como é compreensível, os exames e testes não estão desprovidos de inconvenientes: a excessiva orientação das aprendizagens para “passar” no exame, o facto de incidirem apenas sobre uma parte das matérias e das competências ensinadas e desenvolvidas, a forma como são elaborados os testes não ser a mais adequada são argumentos atendíveis. Mas qualquer instrumento de avaliação não está isento de limitações que apenas se superam se tivermos uma visão integrada do processo de avaliação. Esses vários instrumentos completam-se e esclarecem-se mutuamente. Haja quem os queira utilizar de forma ponderada e sistemática.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 84-6.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Dar a pensar...

[Novas tecnologias e qualidade do ensino]

«De há muito que o fascínio pelas tecnologias influenciou as políticas educativas e as práticas pedagógicas. Basta lembrar o papel que a televisão teve no ensino à distância, a importância do vídeo no alargamento dos conteúdos didácticos, a máquina de calcular para a matemática e mais recentemente a importância do ensino assistido por computador, os projectores de imagem, os quadros interactivos ou a Internet para a diversificação dos instrumentos de trabalho e para o acesso a uma informação abundante susceptível de enriquecer qualquer aula em qualquer domínio do saber.

Esse fascínio, porém, raramente correspondeu aos resultados alcançados, especialmente no domínio da qualidade do ensino.

A investigação científica neste domínio não tem sido conclusiva relativamente aos ganhos de qualidade expressos em resultados de testes de avaliação. Reconhece-se que os alunos aprendem mais em menos tempo, demonstram atitudes mais favoráveis à aprendizagem, em especial nas experiências que exigem um elevado nível de raciocínio e de resolução de problemas, tendem a desenvolver práticas mais cooperativas, mas em todas estas situações verificou-se ser decisivo o papel do professor, especialmente o que beneficiou de formação ajustada ao tipo de ensino que praticava.

Há um ganho evidente na familiarização dessas novas tecnologias com as quais vai ter de lidar na sua vida futura. Contudo, as tecnologias não passam de instrumentos, sofisticados e atraentes, sem dúvida, mas tão-só instrumentos. Se o aluno não sabe estruturar um texto argumentativo, não há nenhum processador de texto que o ajude. Se não sabe interpretar o enunciado de um problema, não será a folha de cálculo que o fará. Se não sabe formular um problema, nenhum programa o ajudará a encontrar a melhor solução.

Quer isto dizer que o fascínio pela tecnologia pode rapidamente transformar-se numa ilusão, esta sim extremamente negativa para o processo educativo, se conduzir à desvalorização do que é fundamental, ou seja, o desenvolvimento de competências cognitivas, capacidade de raciocínio lógico, domínio das maneiras de pensar cientificamente conduzidas. Em síntese, saber pensar.
(…)
De pouco vale a tecnologia se ela não for utilizada para o desenvolvimento de processos educativos cada vez mais complexos. É pela educação que se chega à tecnologia e não o contrário. Por isso, torna-se decisivo pensar primeiro naquela e só depois nesta, sob risco de estarmos a criar novas ilusões, tão frustrantes quanto tantas que a antecederam.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 83-4.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dar a pensar...

[Sobre o lúdico no ensino]

«Hacerles creer que el trabajo es un juego es tan grave como hablarles de la cigüeña cuando preguntan de dónde vienen los niños. Si toda persona de sentido común sostiene que hay que informar sinceramente a un niño cuando se interesa por el sexo, o por el problema del alcohol, o por el de las drogas, no se entiende por qué se les ha de mentir cuando se les habla del trabajo, del estudio y del esfuerzo. Si es importante que sean conscientes lo más tempranamente posible de que son buenos los hábitos de hacer ejercicio cotidianamente, de tomar alimentos saludables, de prescindir del tabaco y de disfrutar moderadamente del alcohol, también es importante que sepan que el estudiar regularmente, estén o no motivados, es un hábito imprescindible. Un profesor que hurta a los alumnos esta información y que les habla de aprendizaje lúdico es tan irresponsable como si les dijera que el vino y el tabaco son buenos para el desarrollo de un adolescente. Unos harán caso a las buenas recomendaciones y otros no, del mismo modo que unos fumarán y otros no, pero es indispensable que quien se deteriora la salud fumando no pueda después quejarse de que no estaba informado. Todo el mundo tiene derecho a jugar con la salud propia, si quiere, y también con su propio futuro, pero los jóvenes han de saber a lo que están jugando y lo que se están jugando.

Es cierto que las materias se les pueden presentar a los alumnos de forma más o menos amena, pero esto es hacerles la disciplina más llevadera, no eximirles de la disciplina. Por otra parte, no hay más remedio que resignarse a que hay conocimientos indispensables, cuya utilidad es difícil de entender y cuyo atractivo es casi nulo. Es imposible que un niño comprenda la necesidad de comer verduras cuando existen los caramelos y las chocolatinas. Si le dejamos comer lo que quiera y a la hora que quiera, y esperamos a que entienda lo importante de una alimentación sana y regular para que coma saludable y regularmente, ya se habrá estropeado el estómago irreversiblemente. La comparación es pertinente: la inteligencia para aprender es muy temprana, pero la madurez necesaria para comprender lo importante que es aprender es muy tardía. Si esperamos a que tenga esta madurez para enseñarle, los mecanismos de aprendizaje se habrán deteriorado tanto como el estómago de un niño a quien se ha dejado comer lo que le apetecía cuando le apetecía. Por eso siempre es difícil enseñar. Si los alumnos son adultos quieren aprender (digamos, en la jerga a la moda, que están motivados), porque son maduros, pero les cuesta mucho hacerlo porque su capacidad de aprender ya no es lo que era. Si son niños, pueden aprender, pero no quieren porque su inmadurez les impide entender la necesidad de hacerlo.»

Ricardo Moreno Castillo, Panfleto Antipedagógico, pp. 10-11 in:
http://www.lsi.upc.edu/~conrado/docencia/panfleto-antipedagogico.pdf

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Os bons resultados do PISA

Os resultados do PISA 2009 foram ontem divulgados. Portugal subiu a prestação dos seus alunos na leitura, o principal item avaliado, relativamente a 2000. Isso é bom. Já não foi tão boa a reacção política do governo. A ME, Isabel Alçada, ainda procurou o politicamente correcto elogio aos professores, procurando cumprir a, agora impossível, missão de recuperação das boas relações entre governo e professores. José Sócrates não gosta de professores. É natural: os bons professores ensinam e fazem aprender, isto é, mobilizam para o esforço de verdadeira apreensão do saber e desenvolvimento de competências necessárias a usá-lo; os bons professores julgam, para avaliar, e avaliam para melhorar e aumentar o saber adquirido. (Não será por acaso que algumas das medidas educativas dos governos de Sócrates vão no sentido de desvalorizar o saber, a avaliação e a autoridade benigna dos professores e de promover a obtenção de diplomas obviando ao esforço de verdadeiramente saber!)

Para Sócrates, os factores que verdadeiramente terão determinado aqueles “excepcionais” resultados são as políticas educativas.

O cúmulo é colocar pelo meio do discurso a ideia tão contestada dos agrupamentos de escolas, como exemplo de uma medida que tenha contribuído para aquele sucesso. Impossível: os testes do PISA foram realizados em 2009 e a esmagadora maioria dos agrupamentos realizaram-se em Agosto/Setembro de 2010!

Depois, Sócrates comete um erro lógico-argumentativo mais subtil: como foram tomadas algumas medidas de política educativa antes da realização dos testes, então essas medidas são a causa dos bons resultados. Trata-se de um argumento que parece bom, mas não é. Os lógicos medievais chamaram-lhe argumento post hoc, ergo propter hoc, “depois disto, logo por causa disto”: já que isto aconteceu antes, então é a causa para o que aconteceu depois. Mas isto é uma falácia: pode ter acontecido antes, mas não ter necessariamente determinado o que aconteceu depois; uma sequência temporal não é necessariamente uma sequência causal.

É claro que foram tomadas medidas educativas positivas, designadamente o plano nacional de leitura, que podem estar por detrás destes bons resultados. Mas não podemos saber se foi esta, necessariamente, a medida determinante ou o único factor determinante; é mais plausível pensar num conjunto de factores que contribuíram e noutros (outras medidas educativas) que poderiam ter contribuído para resultados efectivamente bons. No próprio programa PISA se chama a atenção para os cuidados a ter quando se retiram conclusões: de facto, a partir dos dados fornecidos pelo PISA podem analisar-se as «potenciais influências» nas performances dos estudantes nos vários países. Mas, o próprio memorando afirma textualmente que o PISA «não pode delinear o trajecto individual de um estudante e não pode, portanto, estabelecer relações causais»; o que pode é comparar o grau de associação de vários factores em diferentes países com os sucessos educacionais (PISA brochure, p. 9, sublinhados meus).

Além das políticas educativas, outros factores podem ter sido determinantes ou até mais determinantes. O que de facto acontece é que, houve uma catadupa de medidas educativas pseudo-reformistas, nada enquadradas com um rumo, necessário, e muito menos explicadas e devidamente fundamentadas junto dos professores. Estes, tantas vezes, trabalham apesar do ME e do desnorte evidenciado nas medidas avulsas e a la carte, que ora vão num sentido ora noutro, ora avançam ora recuam. Os bons professores têm feito, nos últimos anos, entre outros, um esforço para continuarem a utilizar estratégias de ensino motivadoras, mas eficazes, para continuarem a fazer aprender uma população escolar que, no entanto, vive sob uma sociedade que reconhece muito pouco a determinante mais-valia da educação e que, portanto, actua de forma muito pouco eficaz para que os esforços de aprendizagem dêem resultados.

Por isso, o esforço dos professores (muito pouco articulado por políticas educativas produzidas de forma autista, pouco coerentes e pouco eficazes) é um factor a ter em conta, como sublinhou Isabel Alçada, na explicação destes bons resultados dos alunos portugueses em literacia da leitura, factor que não deveria ser menosprezado, como fez o PM, sob pena de se continuar a cavar o fosso entre o governo e os professores, principais actores no processo educativo.

Mas, mais. Se analisarmos os dados do PISA acerca da literacia da leitura (item principal avaliado), mais aprofundada e atentamente (o que nem sempre é feito), podemos encontrar pequenas subtilezas, mas importantes para uma análise mais rigorosa e que nos conduz a conclusões mais sustentadas.

Numa escala de 1 a 698 pontos, Portugal obteve uma classificação de 489, mais 19 pontos do que em 2000 (470), ano com o qual se deve estabelecer a comparação. Outros sete países tiveram bons resultados: Chile, Israel e Polónia e os parceiros Peru, Albânia, Indonésia e Lituânia (todos, mais 20 pontos). Os melhores continuam a ser:

Xangai (China) – 556 (parceiro)
Coreia – 539
Finlândia – 536 (2000-546; 2003-543; 2006-547 – quebra de 10 pontos)
Hong-Kong (China) – 533
Singapura – 526
Canadá – 524
Nova Zelândia – 521
Japão – 520
Austrália – 515
Holanda – 508
Bélgica – 506
Noruega – 503
Estónia e Suíça – 501
Polónia e Islândia – 500

(Apenas países acima dos 499)

A média da OCDE é agora de 493. Conclusão: embora perto, estamos ainda aquém da média da OCDE e, naturalmente, há ainda muitos países (e não apenas do norte da Europa!) bem melhores do que nós.

Depois, parece bom termo-nos aproximado de países como a Suécia (é sempre bom compararmo-nos com os grandes do norte da Europa!). Mas, na realidade, aproximamo-nos da Suécia, não tanto pelo nosso resultado ter sido excepcional, mas porque a Suécia também viu decrescer significativamente o seu resultado (menos 19 pontos), tal como a Irlanda (menos 31), a Austrália e República Checa (menos 13), todos eles, excepto a República Checa, à nossa frente! Conclusão: o nosso resultado não é ainda tão “excepcional” quanto isso.

Há, pois, que prosseguir, de preferência definindo e estabilizando políticas educativas a longo prazo e para além das várias legislaturas, recuperando a comunicação entre ME e professores, apostando numa formação inicial de professores de qualidade certificada, promovendo o reconhecimento social da educação e preparando-nos para uma verdadeira descentralização, com aumento responsável da autonomia das escolas e envolvimento responsável das autarquias e consequente diminuição do centralismo (financeira e mesmo, muitas vezes, pedagogicamente) nefasto do ME.

Fontes:

Dar a pensar...

[Sobre o verdadeiro ensino para a igualdade]

«También se dirige este panfleto a todos los preocupados por lo políticamente correcto, a los que piensan que defender una enseñanza rigurosa, exigente y disciplinada no es de izquierdas. Las cosas son exactamente al revés. Una enseñanza presuntamente lúdica, donde no se inculca el hábito de estudio, se convierte en un aparcamiento para pobres, donde están entretenidos hasta que les llegue la hora de convertirse en mano de obra barata. Para que la igualdad de oportunidades sea efectiva, ha de haber una enseñanza en la que cada uno pueda demostrar su valía, su inteligencia y su capacidad de trabajo. Quien defienda lo contrario, está hurtando a los muchachos de origen modesto la única oportunidad que tienen de estudiar en serio y de competir en parecidas condiciones con los que proceden de familias más favorecidas.»

Ricardo Moreno Castillo, Panfleto Antipedagógico, pp. 2-3 in: http://www.lsi.upc.edu/~conrado/docencia/panfleto-antipedagogico.pdf

domingo, 5 de dezembro de 2010

Dar a pensar...

[Sobre uma refutação mais conservadora da “Educação Nova”]

«La llamada de atención se dirige a todos, pero en especial a los forjadores y entusiastas de una reforma educativa que, en un tiempo record, ha conseguido que la cultura de los alumnos baje hasta niveles alarmantes, que la mala educación en la vida cotidiana de los centros suba hasta cotas vergonzosas, y que los profesores estén más hartos, deprimidos y desesperados que nunca. Sus defensores dicen que, con todos sus defectos, gracias a ella se ha conseguido la educación para todos. Esto es rigurosamente falso. En una clase en la que cada uno hace lo que quiere, porque la administración no respalda la autoridad del profesor y al mismo tiempo protege al alumno que conculca el derecho de aprender de los demás, no se está impartiendo educación, se esta repartiendo basura. [Se] dice (…) que se han de fomentar los comportamientos democráticos. ¿Qué clase de comportamiento democrático es éste, en el que una minoría de alborotadores puede imponer impunemente su ley a los demás? Tampoco ha conseguido, como suele decirse, una educación igualitaria, porque cuando la enseñanza pública se degrada hasta tales extremos, salen ganando los que pueden pagarse un colegio privado. Mucho menos es cierto que los nuevos problemas que se plantean al educador son debidos a una evolución social que ha gestado una juventud más conflictiva. No, si los jóvenes son más díscolos y apáticos que nunca, no es debido a ningún cambio social, es el resultado de una educación equivocada. Se argumenta que hoy los hijos lo tienen todo, y por ello no valoran el trabajo que cuestan las cosas. Es posible que esto sea así, pero la prosperidad no ha suprimido la palabra “no” del idioma, de modo que si los hijos lo tienen todo es debido a la desorientación de los padres, que no se han enterado de lo sano que es decir “no” de cuando en cuando. También se dice que las familias separadas crean problemas que no existían antes. Es cierto, pero los padres que se separan lo hacen porque dejan de quererse, o porque la convivencia es imposible. En cualquiera de ambos casos, no es seguro que el hijo salga perdiendo con la separación. Otra novedad es que los padres están mucho tiempo ausentes. Pues razón de más para aprovechar el poco tiempo que pasan con los hijos para inculcarles algunos modales. Enseñarles a pedir las cosas por favor y a dar las gracias, a llamar a una puerta antes de entrar, a sonarse los mocos en lugar de sorberlos, y a ceder el asiento a las personas mayores en los lugares públicos, no requiere tantas horas de dedicación.»

Ricardo Moreno Castillo, Panfleto Antipedagógico, pp. 1-2 in: http://www.lsi.upc.edu/~conrado/docencia/panfleto-antipedagogico.pdf

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Dar a pensar...

[Sobre formação, recrutamento e desempenho de professores]

«Os professores têm um papel central nos processos de aprendizagem: são eles que ensinam e terão de ser eles a fazer aprender. Quando minimizam este papel, dificilmente poderão assumir-se como professores. Por isso, uma parte significativa da qualidade do ensino está dependente da qualidade do seu desempenho e da sua competência.

Até há bem pouco tempo não havia nenhum sistema que nos permitisse avaliar o desempenho dos docentes, a sua qualidade profissional, o valor do seu contributo para a concretização da missão central da escola. Duvido que tal sistema já exista e que permita reconhecer o mérito dos melhores, valorizar o trabalho dos que são apenas bons e afastar aqueles que, por razões objectivas, não podem continuar a exercer a profissão de professor.

O défice de avaliação de desempenho docente e claramente uma das causas do défice da qualidade da educação em Portugal.

O Estado de há muito prescindiu do direito de seleccionar os candidatos à docência. O argumento que é correntemente aduzido para justificar a situação baseia-se no facto de ser o próprio Estado o responsável pela formação inicial dos professores, o que desde logo os certifica. Estamos perante uma meia-verdade. O facto de uma grande parte dos candidatos a professores provir de estabelecimentos públicos do ensino superior não apaga o facto de esses estabelecimentos possuírem autonomia científica e pedagógica, o mesmo se aplicando aos estabelecimentos de ensino privado que também formam professores. A qualidade dos seus formandos nunca foi certificada.

Nos finais da década de 90, lançou-se o sistema de acreditação dos cursos de formação de professores e educadores, mas o resultado deste esforço meritório foi uma acreditação generalizada de todos os cursos. A competição desenfreada entre estabelecimentos de ensino superior, visando captar mais e mais alunos, resultou na redução dos níveis de exigência e da qualidade da formação, bem como na mais que esperada inflação das classificações de curso de forma a beneficiar os seus alunos em detrimento dos da “concorrência”. Se o único critério de admissão à docência era a classificação de curso, não será de estranhar os estratagemas a que recorreram para que fossem beneficiados os “seus” candidatos.

Mais eficaz tem sido o sistema de certificação profissional adoptado por vários países, assente em provas individuais de acesso e em processos extremamente rigorosos de avaliação de estágios profissionalizantes.

O processo de recrutamento dos professores, bem como de progressão na carreira docente, é claramente uma pedra de toque de um dos mais importantes pilares da qualificação do ensino em Portugal. As tensões corporativas que marcaram as lutas dos professores nos últimos anos poderão ter como consequência ficar tudo na mesma sem que alguém se atreva a “mexer” no assunto, sob risco de fazer desmoronar o pouco que ainda ficou de pé.

Felizmente, ainda há um vasto grupo de professores que sustenta as escolas e o sistema de ensino através do seu profissionalismo, dedicação e brio. A não ser isso, difícil seria imaginar o estado a que estaríamos condenados.

Objectivamente, nada nos ajuda a responder à questão: qual o valor de um bom professor no sucesso de um aluno? E qual o contributo de um mau professor para o insucesso? As escolas e os alunos sabem, caso a caso, quem são os melhores. Impossível será estimar, de forma rigorosa e objectiva, quanto é que eles representam no conjunto do corpo docente e qual o potencial de qualificação que poderiam representar para o ensino em Portugal.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 81-2.