terça-feira, 1 de junho de 2010

Apraxia -- à espera do messias

A existência é pesada, por vezes (tantas), dura. Os tentáculos das circunstâncias e o assalto do determinismo social, económico, político e cultural justificam a inacção, a preguiça, a resignação. Apraxia é o termo utilizado em filosofia (além de Psicologia e Neurologia) para compreender uma característica da acção humana (ou então "acédia", como sugere Pacheco Pereira neste texto inconformista do Público) -- aquele estado em que se não é capaz de agir, em que o dissenso encantatório da acção nos inactiva. O país, os portugueses em geral, vivem num estado de letargia onírica, por enquanto de sorriso mole nos lábios, pouco cépticos ainda que mais ou menos críticos, embora em geral com pouca profundidade.
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Não é do clima. Não é da latinidade. É da inércia do hábito, do alimento político irresistível do populismo e da demagogia; da garantia da solidariedade tornada injusto comodismo; do vazio da facilidade e da gloriosa, pseudo-libertadora, fuga ao esforço. Não se trata já sequer de utopia. É mesmo pura e oportunista falsidade manipulatória. De qualquer modo, vamos habituando-nos a não procurar pensar mais profundamente, nem tão-pouco a procurar agir mais consequente e eficazmente. É mais fácil esperar o messias, que por nós pensará e agora também por nós agirá!

2 comentários:

Edgar disse...

É o tal sebastianismo incutido no espírito dos portugueses que se traduz nesta inércia que nos mantém na actual situação..
Como já um génio dizia:
"Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!"

E também a propósito, do mesmo:
"Ó Portugal, hoje és nevoeiro...
É a hora!"

Bem, já há uns tempos que não vinha aqui.. está tudo stor?
Abraço!

Miguel Portugal disse...

Benvindo sejas, caro Edgar! Este espaço melhora realmente com contributos inteligentes, acutilantes e atentos de jovens como tu!

Até breve!