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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Americanização da cultura?

Um dos argumentos mais fortemente críticos do fenómeno da globalização, entrados que estamos numa fase altamente acelerada no último meio século, é o do perigo da homogeneização cultural – uma cultura (a ocidental, em particular a americana) disseminar-se-ia de tal modo, que se tornaria dominante, acabando por elidir toda a diversidade cultural, antropologicamente tão rica.

Mas antes de considerações axiológicas (ser bom ou mau), devemos atender a questões de facto – essa homogeneização parece não estar a acontecer, pelo menos nos moldes algo simplistas como os seus críticos inicialmente denunciavam.

Joel Waldfogel e Fernando Ferreira, da Wharton School (escola de gestão da Universidade da Pensilvânia), examinaram as canções que estiveram nas tabelas de música pop mais vendidas de 22 países, entre 1960 e 2007, e depois compararam a quota de cada país no mercado da música pop com a dimensão da sua economia.

Claro que os sucessos americanos dominavam, representando 51% dos discos vendidos durante este período. Mas ajustado ao PIB, a Suécia (quem não se lembra dos bem sucedidos ABBA?) lidera, seguida da Grã-Bretanha. Ao contrário da crítica que alerta para uma americanização da cultural, o que está a acontecer é que há mais pessoas em todo o mundo a ouvir música dos seus países de origem – os artistas estrangeiros representam agora, segundo o estudo, apenas 30% do top de cada país, bem menos do que os 50% registados nos anos 80.

É certo que os artistas mais populares em todo o mundo fazem música rock e hip hop com uma sonoridade tipicamente americana e ainda há uma nítida vantagem em cantar em inglês. Mas o referido estudo mostra que, no lugar de uma monocultura americanizada, os países mais pequenos estão a tornar-se intervenientes significativos no mercado mundial da música.

Fonte:
Joshua Keating, “O poder do soft rock. Terá o domínio cultural americano encontrado a sua Waterloo?”, Foreign Policy - Edição FP Portugal, n.º 18 (Outubro/Novembro 2010) 16.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Serralves em festa... para um museu vivo e aberto!

O Museu de Serralves levou a cabo, nos últimos dois dias, a iniciativa "Serralves em festa". O museu abriu os portões do seu esplendoroso jardim ao grande público, numa inicitiva inédita, durante "40 horas non-stop", com um leque alargado e multifacetado de iniciativas culturais direccionados a um público mais diversificado: música, dança, teatro, marionetas... (Destaque-se as iniciativas direccionadas a crianças, aposta clara na formação de novos futuros públicos.) Exemplarmente organizado, com iniciativas programadas hora a hora (a festa até contou inclusive com honras de chefe de estado!), parece ter sido um sucesso, dada a quantidade de pessoas que respiraram o ar verdejante daquele imenso espaço ajardinado.
Pode sempre levantar-se a questão de saber até que ponto todo aquele público voltará, com mais disponibilidade, para, noutras circunstâncias, contemplar efectivamente as obras de arte que ali estão e por ali vão passando. O poeta mítico da Trácia, Museu, tinha um papel na mitologia grega de guia iniciático aos mistérios; é claro que nem todos estariam em condições de serem iniciados aos mistérios e à seita órfica! Mas é certo também que esta inspiração onomástica nos pode fazer repensar o papel dos museus, no que toca à relação com o grande público: até que ponto não poderão/deverão ter um papel iniciático, agora mais democrático, à arte e à cultura. Entre um museu fechado de uma elite, natural mas não necessária, e um museu aberto a múltiplos possíveis públicos, é inteligente optar por este último, gerido com abertura, embora sem perder a contida qualidade do espaço de cultura viva, como é o caso de Serralves.