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domingo, 11 de dezembro de 2011

Leituras…

...de Murcho, D. (2011). 7 Ideias Filosóficas Que Toda a Gente Deveria Conhecer. Lisboa: Bizâncio. Trata-se de uma introdução à filosofia através de sete das mais visíveis teorias filosóficas da história, algumas delas que andam até na boca de muitas pessoas, como slogans elegantes e “profundos”, sinais exteriores de erudição, mas tantas vezes incompreendidas e mal usadas – a ser assim, de nada servem. O A. dá-nos a oportunidade de com ele pensar o significado mais exato dessas ideias, a sua importância histórica, mas, sobretudo, intemporal, e proporcionando uma compreensão bastante acessível ao neófito (ou a quem estiver suficientemente maduro para perceber que, afinal, necessita dessa compreensão!).

“Penso, logo existo”, “só sei que nada sei”, “no meio é que está a virtude”, “a guerra de todos contra todos”, “o despertar do sono dogmático”, “uma rosa com outro nome” e “maior do que o qual nada pode ser pensado” são as sete ideias que D. Murcho escolheu como indispensáveis para dar a conhecer ao grande público. Iniciando cada capítulo com uma breve, mas muito útil, contextualização histórica, o autor discute os aspetos centrais de teorias de Descartes, Sócrates, Aristóteles, Hobbes, Kant, Frege, S. Anselmo, entre outros, procedendo a uma facilitadora e esclarecedora abordagem da área da filosofia em que se enquadram, aproveitando assim para mostrar um leque de temas-problemas nodais da filosofia.

Este opúsculo acessível a qualquer pessoa que se predisponha a gastar menos de uma centena de minutos a lê-lo (nos transportes públicos, na fila de espera, antes de adormecer…) termina com uma defesa de uma das teses favoritas do autor – qual leitmotiv para a sua divulgação – acerca da filosofia: a filosofia é uma área do saber com características próprias, com problemas próprios e com um modo de acesso próprio e, por isso, com uma abordagem histórica (via tantas vezes percorrido) não se acede à filosofia, apenas à sua história; para se aceder à filosofia é preciso discutir os seus problemas, analisar as suas teorias e avaliar criticamente os seus argumentos. Exige de nós “algum” esforço intelectual, mas é um esforço benfazejo e aprazível, se pensarmos, senão em certezas (inacessíveis), ao menos (o que já é muito) no esclarecimento que nos proporciona diante das nossas mais assombrosas perplexidades.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Leituras...

... de Maria do Carmo Vieira, O Ensino do Português (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010), na qual a autora coloca a nu as fragilidades pedagógicas das últimas reformas no sistema de ensino e as suas nefastas consequências para todos os alunos.

Reformas que começaram por - mal, na opinião da autora - destruir, de forma acrítica, tudo o que se relacionasse com a ditadura, se prolongaram com «a entrada em cena de teorias pedagógicas, decorrentes das Ciências da Educação, já contestadas e analisadas nos seus efeitos nefastos, nos anos 50 e 60 nos EUA» (p. 104), se fortaleceram com o programa "Educação e Formação 2010" elaborado pela Direcção-Geral de Educação e Cultura da Comissão Europeia e que o nosso sapiente ME facilmente abraçou.

Tais reformas introduziram no ensino do Português uma desvalorização crescente da literatura e cultura da língua em favor de aprendizagens superficiais: como ridigir um email, preencher um documento impresso e analisar textos jornalísticos. Acresce a banalização e quase supressão da avaliação e concomitante florescimento de procedimentos avaliativos infantis e infantilizantes. E para rematar, um profundo desvalorizar da formação científica de todos os professores, apostando o nosso ME em formação exclusivamente pedagógica, minada esta que está por aquelas "novas" pedagogias, embora já "envelhecidas" pela análisa crítica, objectiva, designadamente nos EUA.

A autora aponta como solução uma sólida e necessariamente mais exigente formação científica inicial e contínua, principalmente no (tão fulcral para todo o sistema) ensino básico, programas adequados às exigências crescentes de cada nivel de ensino e que valorizem os conteúdos para assim «devolver à escola a sua função historica de espaço de conhecimento, de cultura e de formação, fruto de um trabalho contínuo e empenhado de múltiplas gerações que a inércia não pode interromper» (p. 105).

Útil não só para professores de Português e outros professores, mas também para o público em geral, que queira começar a perceber exactamente o que se passa com o ensino dos seus filhos, que futuro lhes proporcionará efectivamente esta "escola" e que alternativas benfazejas existem.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

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Leituras…

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… de Pedro González Calero, A Filosofia com Humor. Um percurso pela história do pensamento nos ditos dos grandes filósofos, trad. port. de Pedro Vidal (Lisboa: Planeta Manuscrito, 2009), uma fresca resenha de pequenas histórias humorísticas dos e sobre os filósofos ao longo da história, em que o autor nos mostra como a filosofia não é necessariamente entediante e pode até ser o humor dos filósofos uma oportunidade de pensar os temas mais sérios.
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O livro, desafiador das convenções académicas em torno da seriedade da filosofia, conduz-nos desde a Antiguidade clássica, em que, por exemplo, se conta «que Antístenes, no final dos seus dias, doente e com dores, lamentava-se em voz alta da sua situação ao seu discípulo Diógenes. – Ai, quem me livrará destes males – bramava o velho Antístenes. Ao que diógenes, apresentando um punhal, replicou: – Este livrar-te-á, mestre. – Dos males, estúpido, não da vida – retorquiu Antístenes» (p. 39), até às enigmáticas deduções lógicas de Bertrnad Russell, de que ele e o Papa são a mesma pessoa (!) (p. 148-150), passando pela altamente sarcástica crítica que Schopenhauer faz da “suposta” profundidade do pensamento hegeliano:

«Sobre a suposta sabedoria de Hegel disse Schopenhauer que não passava de uma palhaçada filosófica, um palrar repugnante, um obscuro encadeamento de insensatezes e disparates que muitas vezes recordam os delírios dos alienados. No seu Parega e Paralipomena, escreveu: “Se se quiser embrutecer desde cedo um jovem e torná-lo incapaz de qualquer ideia, não há meio mais eficaz do que o assíduo estudo das obras originais de Hegel; porque essa monstruosa acumulação de palavras que se chocam e contradizem de modo a que o espírito se atormenta inutilmente tentando pensar alguma coisa enquanto as lê, até ficar cansado e murchar, aniquila nele paulatinamente a faculdade de pensar de modo tão radical que, a partir daí, passam a ter valor de pensamentos as flores retóricas insípidas e vazias de sentido (…). Se alguma vez um preceptor temer que o pupilo se torne demasiado sagaz para os seus planos, poderá evitar essa desgraça com o estudo assíduo da filosofia de Hegel.”» (p. 125)
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Uma nota final para as óptimas ilustrações dos principais filósofos, que preenchem o livro e de que é exemplo a de Nietszche, usada na capa, da autoria de Anthony Garner.

Em tempo de crises várias, há leituras esclarecedoras, mas também benfazejamente espirituosas, como esta, que nos ajudam a sobreviver.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Semana da leitura

Repito o que aqui escrevi há um ano: o Plano Nacional da Leitura é uma das boas medidas deste governo, como combate à iliteracia da leitura em Portugal. Que o gosto da leitura se dissemine e frutifique na sapiência de se ir sendo humano. Que se leia, pois. Como há um ano, também agora assinalarei a Semana da Leitura fazendo o mais que há a fazer -- dar a ler:

«Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
Aquele que agradece que haja música na terra.
Aquele que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um xadrez silencioso.
O tipógrafo que compõe tão bem esta página que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
Aquele que acaricia um animal adormecido.
Aquele que justifica ou quer justificar o mal que lhe fizeram.
Aquele que agradece a presença na terra de Stevenson.
Aquele que prefere que sejam os outros a ter razão.
Essas pessoas, que se ignoram, vão salvando o mundo.»

(Jorge Luis Borges, Os Justos)

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

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Leituras...

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...de Robert Henson, Rough Guides - Alterações Climáticas, trad. port. de "Palavras Soltas" (Porto: Dorling Kindersley - Civilização, 2009) para ter sempre à mão, num mundo em agonia de atitudes e consequências. Integrado na shortlist de 2007 de prémios para livros científicos da Royal Society, trata-se de um excelente guia para a consciencialização e entendimento da problemática das alterações climáticas.
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O autor, que trabalha no Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas do Colorado, apresenta-nos um quadro rigoroso e documentado dos aspectos fundamentais das alterações climáticas, descrevendo as suas causas (emissões de CO2, mas também a desflorestação e novas formas de utilização da terra) e os seus efeitos (elevadas temperaturas atmosféricas, secas e inundações, furacões e tempestades, instabilidades oceânicas). Não é esquecida a forma como se alcançaram os conhecimentos que hoje detemos sobre o tema, num capítulo em que Henson faz uma resenha histórica do desenvolvimento do estudo sobre as alterações climáticas. O livro termina com duas importantes partes: numa apresentam-se as possíveis soluções políticas e técnicas para o problema; na outra, mostra-se como todos nós podemos reduzir a nossa "pegada de carbono", com um conjunto muito útil e clarividente de conselhos para novas práticas ecologicamente enquadradas, da energia doméstica às compras, passando pelos transportes e viagens.
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Quando as preocupações ecológicas teimam em afundar-se num "tema da moda", eis um guia científico acessível, esclarecedor e muito útil para... sobreviventes.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009


Leituras…


…de História da Guerra (Lisboa: Esfera dos Livros, 2006), um excelente atlas da História Militar, originalmente publicado pela Times Books em 2000, que nos faz percorrer a história do tipo de acção humana mais indesejada quanto talvez necessariamente inevitável. Como na introdução referem os autores – Richard Berg, Mark Herman, Jan Willem Honing, Richard Brooks e David Isby –, trata-se talvez da mais complexa disciplina da História, já que «factores políticos, económicos, sociais, religiosos, culturais, tecnológicos, agrícolas e até mesmo meteorológicos moldaram a forma como as nações lutam.» (p. 6) Desde os primeiros impérios militares (c. 2000 a.C.-400 d.C.) até à “guerra do futuro”, dominada pelo terrorismo, cruzando a Idade Média, Renascimento e Idade Moderna, pretende esta obra mostrar, através de uma boa síntese e excelentes mapas e fotografias, como evoluiu a guerra entre os Estados-Nação ao longo da História.

Não restam dúvidas de que «permanece uma desagradável verdade, o facto de as forças armadas continuarem a ser o derradeiro árbitro das políticas nacionais e internacionais. Mesmo na actual “aldeia global” parece prudente caminhar com cuidado – e transportar um pau grande.» (p. 7)

Em tempo de paz improvável – ideal sempre por vir –, a necessidade prudencial de compreender a acção humana, mesmo no seu pior.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Literatura fantástica e perda de referências literárias

A literatura do fantástico tem aumentado as suas edições a nível mundial. As editoras têm apostado em fortes campanhas de lançamento, com o Partenon ou a Catedral do Sacré Coeur como pano de fundo de lançamento de novos títulos. Também as muralhas do Castelo de São Jorge serviram recentemente de palco ao lançamento da tradução de “Brisingr”, do jovem autor Christopher Paolini. Portugal não fica, pois, atrás deste movimento comercial, que tem permitido a muitas editoras uma sobrevivência económica atractiva, mesmo que, todavia, nem todos os bons títulos deste género literário estejam ainda disponíveis em português.
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Séries de sucesso como “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, e “Harry Potter”, de J. K. Rowling, deram o mote para que tivesse florescido um género literário, que de menor consideração, se elevou ao sucesso comercial, contando hoje com um amplo mercado mundial e nacional. (Não é despicienda a projecção de algumas obras no grande ecrán!). O público-alvo é, sem dúvida, a camada jovem, que vai devorando títulos, sem que muitos tenham, contudo, a possibilidade de detectar, em grande parte dessas obras, quase-plágios, tornando-as obras derivativas, mas que, por muito iletradas que sejam, com imitações claras dos mais conhecidos tropos do género, vão deliciando a juventude.
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Apesar de género literário com obras de proa bastante respeitáveis, a sua proliferação comercialmente abrangente traz alguns problemas. Antes de mais, inundou o mercado, das livrarias aos hipermercados, levando à extinção das principais colecções de “ficção científica” das principais editoras portuguesas. Não é, pois, nada fácil encontrar hoje os grandes autores canónicos, como Philip K. Dick, Robert A. Heinlein, Stanislaw Lem, Robert Silverberg ou mesmo Asimov.
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Depois, açambarcou o tempo de leitura dos mais jovens. Diríamos: por que não?! Afinal, os mais jovens lêem pouco, em geral e particularmente em Portugal, e a leitura deve ser uma actividade livre. Com certeza. Mas estes jovens, apesar de estarem a ler mais, não estão a ler o melhor. Corremos o risco das novas gerações de leitores crescerem num castrante vazio de referências literárias.
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E o que é isto de referências literárias? São as melhores obras de arte literária que jamais alguém conseguiu escrever, desde os clássicos gregos à actualidade, na sua magnânima intemporalidade. São incontornáveis – apenas no género da ficção científica ou da literatura fantástica – H. G. Wells (“Guerra dos Mundos”, de 1898, problemática da existência de extraterrestres e conflito com os terráquios, obra recentemente honrada com um filme), Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”, de 1932, problemática, actualíssima, do controlo do comportamento humano através de manipulação genética), George Orwell (“1984”, de 1949, problemática do controlo político do indivíduo pelo Big Brother Estado) ou mesmo Humberto Eco (sobretudo, no fascinantemente hermético “O Pêndulo de Foucault”, de 1988, sapiencial incursão no ocultismo das sociedades secretas medievais).
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Por que é importante ler estas obras de proa? O tempo disponível para ler não é infinito – não se pode ler tudo! Por isso, seria muito mais proveitoso, sobretudo para o neófito, que lhe fosse proporcionada leitura (pelo menos, também) dos autores que melhor dominam a linguagem escrita ou determinada língua em particular, que mais criativos são na forma como escrevem, na forma como nos transmitem sentimentos, emoções, ideias, na forma como nos transportam para novos mundos possíveis, que mais corajosos, informados e inteligentes são na forma como abordam os temas-problemas mais fundamentais, que entretecem a nossa existência, e, no fundo, pela mestria com que nos permitem o acesso à compreensão do mundo e de nós mesmos.
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Assim, na questão da literacia da leitura em geral, urge uma política educativa séria, corajosa e libertadora, que fugisse à tentação populista da novela fácil ou do perigo, eminente, do pragmatismo instrumentalizador da língua, que pode transformar a sua aprendizagem simplesmente num empobrecedor aprender a ler um contrato ou a escrever uma mensagem de correio electrónico! “Planos de leitura” sim (uma das poucas boas medidas educativas deste governo); mas com graus de evolução para patamares mais elevados, com estimuladoras consequências para a avaliação dos alunos e com concertada participação e envolvimento de todos (pais, professores e sociedade civil).
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(In: Terra Quente, 15-01-2009)

sábado, 29 de novembro de 2008

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Leituras…
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Quando grupos extremistas religiosos perpetraram mais um ataque terrorista cruel contra civis, na Índia, é frutuoso reflectir sobre a tese defendida por Louis Pojman no seu já clássico Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial, trad. port. Célia Teixeira (Lisboa: Bizâncio, 2007).

Louis Pojman (1935-2005), filósofo americano, defende que o globalismo, com todos os seus problemas e promessas, coadjuvado por um cosmopolitismo moderado e moralmente justificado, estão a obrigar-nos a instituir uma maior cooperação internacional, baseada numa lei internacional, de facto, executória. E a melhor forma, argumenta Pojman, de alcançar este globalismo e os seus objectivos morais é através da instituição de um governo mundial.

Para sustentar esta tese, Pojman descreve os efeitos nefastos – que têm um infeliz lugar de destaque na história da guerra – do terrorismo, designadamente através do trágico 11 de Setembro. Depois, faz uma defesa do cosmopolitismo moralmente justificado, que assente num nacionalismo moderado, em que os Estados detenham uma soberania limitada mas não total, compatível com um governo mundial limitado, já que vários aspectos do globalismo estão a juntar a humanidade e há já instituições, que, embora necessitem de reformas, se encontram em direcção a uma administração centralizada dos problemas globais. Pojman faz depender toda esta nova ordem mundial em direitos humanos fundados nos deveres universais; depois de responder às objecções à tese universal de direitos/deveres, o mais famoso apologista de um governo mundial, baseado num cosmopolitismo moderado, defende que «os direitos humanos universais serão o cimento que cola a humanidade, protegendo as pessoas da opressão e permitindo-lhes viver vidas condignas.» (p. 14)

Em suma, a reflexão bem argumentada de Pojman, apesar de controversa e sempre discutível, permite alertar-nos para o facto de uma grande adversidade poder constituir, se inteligentemente aproveitada, uma oportunidade única para desenhar um futuro melhor.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Mais Platão, menos Prozac!"

Numa altura em que se sabe que o consumo de barbitúricos e anti-depressivos aumentou em Portugal, parece-me oportuno lembrar que talvez fosse mais vantajoso para curar as dores da existência se se lesse um pouco mais sobre como compreender uma série de coisas assustadoras e perturbantes, mas, apesar de tudo, compreensíveis, desde que sejamos adequadamente orientados para as perceber.

De facto, prolifera há muito um género literário muito divulgado nos países anglo-saxónicos, sobretudo nos E.U.A., que poderíamos apelidar de "divulgação filosófica", em que se pretende partilhar com os não-filósofos o que de mais importante e até útil esta aventura milenar do saber crítico pode ter para o ser humano. E dentro deste género, há muitos bons livros, alguns deles traduzidos para português. Um deles é precisamente Mais Platão, menos Prozac!, de Lou Marinoff, em que o autor procura defender a tese de que possuir "umas tintas de filosofia" (para usar a célebre expressão de Russell) pode ajudar a compreender muitas perplexidades e problemas da vida quotidiana do homem e da mulher que vive nas sociedades modernas contemporâneas e que têm, nos países mais desenvolvidos, atafulhado os consultórios de psicologia e psiquiatria.

Virtual ou real, a (boa) leitura, bem como a reflexão racional e crítica são sempre o caminho da libertação!

terça-feira, 17 de junho de 2008


Leituras…


…muito úteis e proveitosas podem ser as de António José Fernandes, Introdução à Ciência Política – teorias, métodos e temáticas (Porto: Porto Editora, 2008). Trata-se de uma introdução equilibrada e acessível à Ciência Política, em que o autor, natural de Múrias, Mirandela, Professor Catedrático da Universidade do Minho (aposentado) e em exercício na Universidade Lusófona do Porto (onde ocupa, desde 2005, o cargo de Reitor), especialista nesta área do saber, que consiste na «observação, análise, comparação, sistematização e explicação dos factos e acontecimentos políticos» (p. 12), propõe uma explanação, com sentido pedagógico, dos principais problemas da ciência política, esclarecendo os seus conceitos nucleares e apresentando as suas principais teorias.

Com o intuito de ser lido por estudiosos que procuram uma abordagem sistemática das temáticas da ciência política, o seu cariz pedagógico coloca-o, no entanto, também à disposição de qualquer leitor interessado em enriquecer a sua cultura de cidadania.

O seu carácter de manual (de “trazer à mão”) permite, assim, consultas fáceis e introduções eficazes a temas como: o conceito, formação e evolução do Estado; os elementos do Estado (povo, nação, território, aparelho do poder); categorias de Estados (não soberanos, semi-soberanos e soberanos); fins e funções dos Estados; os órgãos da direcção do Estado; regimes políticos; grupos de interesse e grupos de pressão; sistemas de partidos; sistemas eleitorais; terminando com uma abordagem sobre as concepções ideológicas de poder.

Há mais vida para além da política; o que quer dizer, porém, que também a há para aquém – e talvez seja mesmo esta, para o bem e para o mal, uma parte da vida mais fundacional, a partir da qual se pode erigir, melhor ou pior, uma vida verdadeiramente humana, livre e justa. Não há como estar consciente, atento e esclarecido acerca desse alicerce.

terça-feira, 10 de junho de 2008



Dar a pensar...


«(...) Na Antiguidade, a participação de cada indivíduo na soberania nacional não era, como nos nossos dias, uma hipótese abstracta. A vontade de cada um tinha uma influência real; o exercício dessa vontade era uma satisfação viva e repetida. Como tal, os antigos estavam dispostos a fazer grandes sacrifícios para conservarem os seus direitos políticos e a sua participação na administração do Estado. Cada qual, ao sentir com orgulho o valor do seu sufrágio, encontrava na consciência da sua importância pessoal uma profunda recompensa.

Actualmente, tal recompensa já não existe para nós. Perdido na multidão, o indivíduo quase nunca se apercebe da influência que possui: a sua vontade nunca deixa marcas sobre o conjunto, nem vê com os próprios olhos o resultado da sua cooperação. O exercício dos direitos políticos não nos oferece mais do que uma pequena parcela da satisfação que dele retiravam os antigos; ao mesmo tempo, os progressos da civilização, a tendência comercial da nossa época, a comunicação recíproca dos povos, multiplicam até ao infinito os meios de satisfação particular.

Daqui resulta que devemos ligar-nos, mais do que os antigos, à nossa independência pessoal; de facto, os antigos, ao sacrificarem essa independência aos direitos políticos, sacrificavam menos para obter mais; ao passo que, se fizéssemos um sacrifício idêntico, estaríamos a sacrificar mais para obter menos.

O objectivo dos antigos era a partilha do poder social entre todos os cidadãos da mesma pátria; era a isso que chamavam liberdade. O objectivo dos modernos é a segurança do seu bem-estar privado; e chamam liberdade às garantias que as instituições concedem a esse bem-estar.»

Benjamin Constant, La Liberté des Anciens Comparée à celles des Modernes, trad. port. de António de Araújo, A Liberdade dos Antigos Comparada à Liberdade dos Modernos (Coimbra: Edções Tenacitas, 2001) 16-17.

domingo, 8 de junho de 2008

Livros em saldo

Envolta pelo bucolismo dos jardins românticos em redor do Pavilhão Rosa Mota, com o Douro ao fundo, cruzado pelos velhos rabelos carregados com a última colheita de turistas, a 78.ª Feira do Livro do Porto é uma das mais bem ambientadas do país.

Ao contrário, por exemplo, da Feira do Livro de Coimbra, que escolheu um figurino que envolveu espectáculos musicais dentro do pavilhão – coisa que, certamente, pouco beneficiava a consulta e leitura dos livros expostos –, a Feira do Livro do Porto manteve um ambiente sóbrio, propício ao que se espera de uma mostra de livros a preços mais acessíveis – a sua consulta criteriosa com vista a uma selecção de compras. Depois da polémica, os livros são sempre os livros!

Apesar dos preços não serem assim tão mais baixos quanto seria desejável para o “devorador” de livros, é sempre uma actividade agradável percorrer os escaparates em busca de proveitosas e deleitosas leituras. Últimos dias – a decorrer até terça-feira.

sexta-feira, 16 de maio de 2008


Leituras…



…de esperança, com Olivier Reboul, A Filosofia da Educação, trad. port. de António Rocha e Artur Morão (Lisboa: Edições 70, 2000). Olivier Reboul (1925-1992), um dos mais importantes filósofos da educação do séc. XX, apresenta-nos, numa pequena obra editada em 1971 na conhecida colecção das P.U.F. "Que sais je?", uma estimulante síntese introdutória à Filosofia da Educação, na qual percorre, num estilo mais questionador do que resolutivo, as principais questões e aporias da educação: desde a definição da própria educação e das antinomias da pedagogia (constrangimento e desejo, transmissão e espontaneidade, incerteza e tecnicidade, ruptura e continuidade), passando pelas questões centrais da autoridade e do rigor e desembocando no húmus problemático essencial da filosofia da educação, que é a questão da relação entre educação e valores, analisando as tentações do positivismo, do relativismo e da indiferença e interpelando-se/nos sobre o que vale a pena ensinar.

A resposta de Reboul, para suscitar o interesse:

«Podemos então propor esta dupla resposta: vale a pena ensinar o que une e o que liberta.
O que une: sim, o que vale a pena ensinar é o que integra cada indivíduo, de um modo duradouro, numa comunidade tão vasta quanto possível. E é por isso que se ensina uma língua em vez de um dialecto, as ciências em vez do ocultismo, o autor seleccionado pela história em lugar de um romance que está na moda.
(…)
O que liberta, tal é o segundo critério. Ao fim e ao cabo o que há de comum entre as diversas disciplinas, entre a educação física, técnica, artística, intelectual e até entre os diversos ramos desta, o científico e literário? Justamente isso. A ginástica, a dança, o desporto libertam-nos das nossas durezas, faltas de jeito, crispações, desperdícios de energia. O ensino artístico: tem por objectivo formar imitadores ou criadores? Na nossa opinião, a oposição é fictícia, e o verdadeiro objectivo do ensino artístico é permitir a cada um fazer o que quer, pintar o que quer pintar e como quer pintar. O ensino intelectual, ao libertar dos chavões e dos preconceitos, permite expressar-se e pensar por si mesmo. Quanto à educação moral, ela não consiste em tornar as pessoas “conformes”, mas em libertá-las daquilo que as domina e as cega.» (pp.81-82)

A Filosofia da Educação é uma das áreas da reflexão filosófica que detém uma particular importância para educadores e professores, sobremaneira num tempo de crises e reformas educacionais em Portugal. (Como seria bom se estivesse integrada no curriculum de formação de professores!) A esperança renascerá para quantos tiverem acesso a este pequeno opúsculo de estilo problematológico e inquietante, mas profundamente esclarecedor da teia que entretece uma das mais nobres quão exigentes e complexas actividades humanas, que é a alimentação inacabada da liberdade com outros!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Acontecimento editorial

A revista norte-americana Foreign Policy começou a ser editada em português. Trata-se de uma revista bi-mensal de Relações Internacionais, que tem a colaboração de filósofos, economistas, cientistas políticos e outros especialistas académicos de gabarito. É daquelas revistas que se lêem com grande interesse do primeiro ao último artigo. Um excelente acontecimento editorial e um excelente instrumento de formação e informação política de qualidade indispensável para compreender o nosso mundo.

O seu terceiro número em português traz, como tema de capa, um artigo sobre o Islão, da autoria do especialista em Médio Oriente Graham E. Fuller, que foi vice-presidente do National Intelligence Council na CIA e é actualmente professor-adjunto de História na Simon Fraser University de Vancouver. Fuller defende a inteligente, informada e despreconceituosa tese de que o mundo não só não seria melhor sem o Islão (outras estruturas ideológico-religiosas fariam o contraponto conflituoso com o Ocidente), como se trata de uma religião, cuja força unificadora, talvez possa permitir um patamar mais seguro para um melhor entendimento no futuro com o Ocidente. Obrigatório.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

sexta-feira, 14 de março de 2008


Leituras…


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…de Jonathan Wolff, Porquê Ler Marx hoje? (Lisboa: Cotovia, 2002).

Karl Marx (5-5-1818—14-3-1883) morreu há 125 anos. (Links para Marx aqui e aqui). Vale a pena ler Marx hoje? A melhor homenagem que se pode fazer a um filósofo do passado é justamente perguntar pela actualidade filosófica do seu pensamento. Se valer a pena ler Marx, hoje, é porque Marx nos fará ainda pensar sobre questões centrais para a nossa existência como seres com outros. J.W. pretende mostrar nesta obra – fruto das suas lições no University College de Londres sobre a Filosofia Política de Marx – que é esse o caso: apesar do falhanço das soluções comunistas e das dificuldades do pensamento político e social marxista, as suas objecções essenciais ao liberalismo e capitalismo não deixam de continuar a fazer-nos pensar e a alimentar alternativas teóricas plausíveis de compreensão de questões centrais de justiça e organização social, económica e política da sociedade.

Contra a ideia pressuposta da inutilidade da leitura, hoje, de Marx, J. W. argumenta que podemos separar o Marx crítico da actual sociedade, do Marx profeta da futura sociedade, fazendo sobressair o primeiro.

Claro que o encontro autenticamente filosófico com Marx deve ser igualmente crítico e desapaixonado!

sexta-feira, 7 de março de 2008

Dar a ler...

«I

Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta -- sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais. Tu, e a vida que em ti foi acontecendo. E a que foi acontecendo aos outros -- é a História que se diz? abro a porta do quintal. É um portão desconjuntado, as dobradiças a despegarem-se. Há muito tempo já que aqui não vinhas. Sandra era da cidade, gostava da capital, detestava a vida da aldeia. Lá ficou.

(...)

(...) O dia acaba devagar. Assume-o e aceita-o. É a palavra final, a da aceitação. Só os loucos e os iludidos a não sabem. Não sou louco. Não são horas da ilusão. Vou fechar a varanda. Tenho de ir avisar a Deolinda. É uma tarde quente de Agosto, ainda não arrefeceu. Pensa com a grandeza que pode haver na humildade. Pensa. Profundamente, serenamente. Aqui estou. Na casa grande e deserta. Para sempre.

Fontanelas, 5 de Maio de 1982.»

Vergílio Ferreira, Para Sempre (Bertrand: Lisboa, 1987), p. 9 (primeira) e p. 306 (última).

segunda-feira, 9 de julho de 2007


Leituras...




...de Jonathan Wolff, Introdução à Filosofia Política, trad. port. de Maria de Fátima St. Aubyn (Lisboa, Gradiva, 2004), em que o autor, professor em Oxford, proporciona, mesmo aos menos familiarizados com a linguagem filosófica, uma estimulante introdução aos principais problemas filosóficos inerentes à organização política das sociedades: como seria e se seria possível a vida humana sem estado; o que legitima o estado e, portanto, o que justifica a obediência política; como deve estar organizado o estado e, caso seja de forma democrática, o que é isso de democracia; qual deverá ser o grau de liberdade que deverá gozar o cidadão face aos outros e ao estado; qual deverá ser a distribuição justa da riqueza.

O livro termina com um capítulo em que o autor coloca frente a frente uma abordagem da filosofia política característica do individualismo liberal, orientada pelo ideal de justiça, com uma abordagem feminista, orientada pela atenção ao caso concreto e por uma ética do afecto, concluindo que

«as críticas feministas exigem, não que substituamos a ética da justiça pela ética da atenção no centro da filosofia política, mas que apliquemos a ideia de justiça com uma sensibilidade enriquecida às formas através das quais as nossas instituições podem dar corpo e reproduzir a injustiça. (...)
Assim, a teoria feminista não exige o abandono das nossas ideias de justiça mais fundamentais, mas a sua aplicação consistente.» (p.286)

Na abordagem dos temas seleccionados, o autor percorre a rica tradição de pensamento político ocidental, de mais de 2500 anos, de Platão a Rawls, de uma forma acessível ao leitor não iniciado, mas simultaneamente sem perder o rigor e a profundidade de análise características da filosofia.

Trata-se de uma obra, por exemplo, de base num curso de Introdução à Filosofia Política, orientado pelo autor, em Oxford, e, de qualquer modo, imperdível para quem deseja aumentar a sua consciência do mundo da organização política da sociedade e apetrechar-se com os elementos teóricos fundamentais para poder pensar mais criticamente sobre o tema.

terça-feira, 5 de junho de 2007


Leituras...



...com mais de uma década, mas que comemoram exemplarmente o dia Mundial do Ambiente. Entre a já abundante bibliografia na área da filosofia do ambiente, será justo destacar uma obra que merecidamente pode muito bem ser apresentada como um clássico, pelo menos nos títulos disponíveis na língua de Camões: Luc Ferry, A Nova Ordem Ecológica, Edições Asa (Lisboa 1993).
O ex-Ministro da Educação Francês, Luc Ferry, eminente filósofo e ensaísta francês, defensor do humanismo secular, apresenta uma excelente síntese do que está em jogo na forma como o homem se foi relacionando com a natureza e do que subjaz às concepções dessa relação:

«A primeira – sem dúvida a mais banal, mas também a menos dogmática, porque menos doutrinária – parte da ideia de que, através da natureza, é ainda e sempre o homem que se trata de proteger, ainda que seja dele próprio como quando representa o aprendiz de feiticeiro. O ambiente, neste caso, não é dotado de um valor intrínseco.» (...)
«A segunda figura dá um passo no sentido da atribuição de uma significação moral a certos seres não humanos. Consiste em tomar a sério o princípio “utilitarista” segundo o qual é preciso não somente descobrir o interesse próprio dos homens, mas, de um modo mais geral, tender a reduzir ao mínimo o total dos sofrimentos no mundo, assim como a aumentar tanto quanto possível a quantidade de bem-estar. (...) todos os entes susceptíveis de prazer e de dor devem ser tidos por sujeitos de direito e tratados como tal.»
«A terceira forma é a que [se encontra] na reivindicação de um direito das árvores, ou seja, da natureza enquanto tal, designadamente das suas formas vegetal e mineral. (...) já não é o homem, considerado como centro do mundo, que se deve, prioritariamente, proteger de si próprio, mas sim o cosmos enquanto tal que deve ser defendido contra os homens. O ecossistema – a “biosfera” – é, desde logo, investido de um valor intrínseco bem superior ao dessa espécie, afinal de contas razoavelmente prejudicial, que é a espécie humana.» (pp. 25-7)

A crítica filosófica ecologista erigiu-se, pois, contra o humanismo e antropocentrismo da modernidade, arreigando-se em poderosos pensamentos de Heidegger e Hans Jonas e recuperando um certo Espinosa contra Descartes; daí sulcando um caminho, em que, quase “lado a lado”, conservadores e esquerdistas, desde a ecologia nazi (as primeiras leis ecológicas do mundo!) à deep ecology ("ecologia profunda") e ao ecofeminismo, não conseguiram, porém, escapar aos excessos de fé do fundamentalismo verde. A solução passa, segundo argumenta Ferry, por uma shallow ecology (“ecologia superficial” ou “ambientalista”), uma ecologia democrática, que não perca a modernidade humanista, mas antes sulque o caminho da sua perfectibilidade.

segunda-feira, 14 de maio de 2007


Leituras...


A Índia no Século XXI, do diplomata de carreira, mas também escritor e historiador, Pavan K. Varma, membro da Royal Society of Literature e da Royal Asiatic Society, publicado recentemente em português pela editorial Presença, procura dilucidar, através da História, Religião e de esclarecedores exemplos concretos, o que significa ser indiano no início do século XXI. (Aclamado pela crítica como um dos mais bem conseguidos ensaios sobre a identidade desse grande “dragão” do Oriente em mudança e clara ascensão no mundo.)
As grandes virtualidades desta obra de leitura fácil e agradável consistem na rara capacidade de mostrar, muito simplesmente, que a organização liberal do estado, por um lado, e o esforço individual, por outro, se apresentam como dois factores fulcrais da mudança para o sucesso.

Por um lado, o ascendente sucesso económico da Índia deve-se, ao contrário, por exemplo, da “vizinha” China, à forma liberal como a sua sociedade e estado estão a ser organizados («o povo indiano tem liberdade política para escolher o que mais gosta e o que melhor faz, enquanto o povo chinês não tem», p. 226). Apesar de uma sociedade estratificada pela velha divisão social em castas, o desenvolvimento económico passa também por um desenvolvimento social, visível na crescente igualdade de oportunidades de acesso ao ensino superior, por exemplo com quotas de diferenciação positiva para as castas mais baixas.
Por outro lado, ler esta obra faz-nos pensar como a motivação para a aprendizagem efectiva de conhecimentos e competências pode depender, em larga medida, de circunstâncias sócio-económicas iniciais de alguma adversidade, dada a vital necessidade de aprender, com esforço, para ascender, quando não para sobreviver. Se algumas universidades são autênticos hotéis de luxo (chegam a ostentar campos de golfe!), o esforço aí despendido para obter sucesso através do conhecimento e competência é o mesmo que se pode encontrar também nas inúmeras escolas de piso térreo, sem mesas nem cadeiras, a que as crianças acedem depois de percorrerem alguns quilómetros de bicicleta, cenário disseminado pelo vasto continente indiano.
Talvez o nosso país, na fase de desenvolvimento em que se encontra, tivesse muito a aprender com a atitude altamente positiva dos indianos, cujas crianças parecem estar minimamente bem orientadas e motivadas para lutar efectivamente por uma vida melhor. Isto, claro está, se muitos de entre nós se dessem ao trabalho de procurar aprender verdadeiramente alguma coisa!
(Ah, sim, claro: quem não quer ser como os finlandeses – que coisa horrorosa! – muito menos se quererá assemelhar a esses indianos!!)

P.S. (duas curiosidades):
1. Num estudo internacional recente, a Índia “colocava” duas Universidades nas cem melhores Universidades de Ciências Sociais do Mundo, enquanto que Portugal... nenhuma!
2. A indústria cinematográfica indiana (já com uma longa tradição) já produz mais filmes do que... Hollywood!