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domingo, 15 de novembro de 2009

Ignorância, Tua! Interesses... deles!

O belíssimo documentário de Jorge Pelicano, “Pare, escute, olhe”, sobre a linha do Tua, ontem visto por uma sala cheia, em Mirandela, mostra, magistralmente, algumas das questões centrais que estão em jogo na apressada e monológica construção da barragem do Foz-Tua:

1. A beleza da paisagem que se poderia desfrutar do comboio que serpenteava aquele vale magnífico é, de facto, uma experiência humana plena de sentido e única (apenas quem teve a fortuna de ter feito tal viagem o poderá, efectivamente, compreender);

2. A potencialidade turística da linha muito bem contrastada com o que se faz, por exemplo, nos Alpes suíços (que envergonha os mais conscientes), que traria uma mais valia económica para o país (mais turistas a entrar em Portugal) e, sobretudo, para o interior transmontano há muito perfidamente esquecido pelo poder central, dinamizando a economia local a vários níveis (se juntarmos a isto a ligação de Mirandela a Bragança e o facto de, assim, se ficar a 30 kms. de uma linha de alta velocidade espanhola…!);

3. Trata-se de uma decisão política que, apesar de, naturalmente, parecer ter em conta o interesse público, o bem comum, faz, no entanto, tábua rasa de um conjunto de pessoas que, de facto, viviam as suas vidas empobrecidas em torno daquela linha férrea, o que, eticamente, é, no mínimo, discutível;

4. Os acidentes trágicos sucederam-se apenas no último dos 120 anos da sua existência, o que levanta fortes suspeitas de grave crime por negligência;

5. A construção da barragem é de supremo interesse para a EDP e para as grandes empresas de construção civil e servirá ao país, quando muito, para contribuir para um aumento de apenas 3% de produção de energia e para as populações locais irem à pesca (a irrigação de uma agricultura em agonia, abandonada, não será vantagem de monta);

6. As grandes contradições que assombram o pensamento da generalidade dos nossos políticos, que, nos últimos anos, se têm pronunciado acerca da linha do Tua.

O documentário é uma excelente introdução aos problemas sociais, políticos e culturais que teimam em marcar o Portugal contemporâneo. A opção estética algo hiperbolizada de “filme negro” acaba por mostrar a inevitabilidade da decisão política e a inoperância e falta de poder efectivo das populações num regime democrático mal interpretado pelos seus protagonistas de uma forma autoritarista, falsamente elitista e que remete, em última análise, para o facto dos eleitores terem a responsabilidade última -- afinal, talvez fosse bom não votar, abstermo-nos, e requerer uma transformação em mandatos (de cadeira vazia) na Assembleia da República dessa intenção de voto!
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São, pois, os interesses económicos das grandes empresas, os interesses eleitoralistas dos decisores políticos que lideram o país e, obviamente também, a sua ignorância acerca de uma estratégia de médio e longo prazo para o país (porque não lêem, não se informam e, qual tique totalitarista e autoritarista de outros tempos, não ouvem quem sabe) que estão na base da decisão política de pensamento unilateral, pobre e de vistas curtas da construção desta, como doutras, barragens.

Até o grande único bom argumento para construir a barragem – que obviaria ao problema de escassez de água, por não termos em Portugal grandes nascentes de rios, ao contrário de Espanha –, está a ser impugnado pela Comissão Europeia, por o plano português de barragens não estar a salvaguardar a futuramente vital qualidade da água com a construção das barragens projectadas!

É incompetência, é ignorância, Tua! São interesses… que não, efectivamente, os nossos!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"Curtas" sobre a água, em Mirandela

Decorrerá, de amanhã a domingo, no Centro Cultural de Mirandela o “Cine H2O”, o I Festival Ibérico de Imagens. Oportunidade para visionar curtas metragens sobre tema actualíssimo, já que o problema das limitações dos recursos hídricos, em articulação com as exigentes condições ambientais e ecológicas, assomará, ao lado dos problemas energéticos, como um dos grandes problemas (senão o principal) de sobrevivência da espécie humana.
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Destaque, naturalmente, para o galardoado "Pare, escute, olhe", de Jorge Pelicano, no Sábado às 17:00, seguido de debate com Jorge Pelicano, Rosa Silva, Pedro Couteiro (COAGRET), Daniel Conde e convidados. (Repete às 21:30).
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(Para o programa completo, veja-se aqui).

domingo, 25 de outubro de 2009

"Pare, escute, olhe"

A longa metragem "Pare, escute, olhe", de Jorge Pelicano, um documentáriuo sobre a linha do Tua, ganhou ontem seis prémios, três num festival em Seia e outros três no DocLisboa. Mais uma oportunidade para quem ainda não se apercebeu do que está em jogo na construção de uma barragem no rio Tua, de se abrir à reflexão crítica sobre uma obra destruidora de uma das linhas ferroviárias de montanha mais belas do mundo.
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No site do DocLisboa pode ler-se esta descrição do documentário:
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Seria bom que, no que toca a decisões políticas, ao invés de se deixarem conduzir pelo ímpeto da modernização irreflectida e a todo o custo, os nossos representantes decisores poíticos parassem, escutassem e olhassem um pouco à sua volta.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A linha do Tua e outras estreitezas de visão política

(daqui)
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Como mostra a boa reportagem especial "Fim de linha", há pouco exibida no "Jornal da Noite" da SIC, o abandono a que foram votadas as linhas ferroviárias estreitas em Portugal contrasta em muito com a inteligente atitude moderna dos nossos vizinhos espanhóis, que viram nos percursos ferroviários de montanha as virtudes inquestionáveis que detêm: servem populações e ligam pessoas, sem as quais ficariam isoladas, bem como são uma forte e bem conseguida aposta no turismo de qualidade, que estimula as economias regionais e locais. E não têm eles uma das mais belas (e com mais potencial turístico) linhas de montanha do mundo! Coisa de espanhóis... ou, como quem diz, clara estreiteza de visão dos políticos portugueses!

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Afinal, estava (quase) tudo mal!

O relatório da Comissão de Inquérito ao último acidente na linha do Tua conclui, finalmente, que «defeitos grosseiros» na via e automotoras desadequadas estiveram, com certeza, na origem do acidente. E isto com base num número tão significativo de causas, que é, ao mesmo tempo, desesperante e vergonhoso que tal possa estar a acontecer neste país europeu, que o nosso actual timoneiro quer que siga o exemplo dos países nórdicos! Senão, veja-se:

- «A via no local do acidente apresenta defeitos grosseiros e facilmente identificáveis e suficientes para justificar a ocorrência do descarrilamento»

- Uma curva com medidas desadequadas, defeitos de alinhamento, de empeno, travessas que «necessitam de substituição imediata» (há 18 anos que não são substituídas e algumas têm já 40 anos, já que, segundo o documento, «a sua idade varia entre 1968 e 1990»).

- Falhas nas automotoras («desadequadas características do material circulante») – problemas nas rodas, falta de lubrificação e pouco amortecimento.


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Mais tranquilos ficamos com a conclusão de que não foi apurado qualquer «indício de actos de intervenção dolosa ou negligente produzidos por intervenção humana», segundo concluiu a Policia Judiciária que participou nas investigações, o que já não é nada mau!
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O ministro Mário Lino deu um prazo de 15 dias ao IMTT para apresentar um cronograma e deu 30 dias à Refer e CP para realizarem averiguações internas para apuramento das causas que conduziram às anomalias identificadas, o que, como assim veremos, é apenas para inglês ver!
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É, no entanto, curioso notar como em outros países mais evoluídos cívica e politicamente, perante uma situação tão clara de incumprimento das obrigações do Estado perante a salvaguarda da segurança dos cidadãos, se teriam apurado as respectivas responsabilidades políticas desta bárbara incúria e se teria procedido à respectiva demissão do responsável da tutela, que seria proposta pelo próprio, claro. O mais parecido que temos com tal, foi no trágico caso da ponte de Entre-os-Rios…, mas aí houve mais vítimas mortais! Em Portugal é tudo uma questão de vítimas mortais – “4” é ainda um número abaixo da responsabilização política!!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O que se joga na construção de uma barragem

(Cahora Bassa, Moçambique)
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Dois dos maiores problemas do mundo actual são a falta de recursos hídricos e a crise energética. Com o crescimento da população, o aumento da poluição de rios e lagos, entre outros, a crise da água é um facto que deve preocupar os decisores políticos, mas igualmente a sociedade em geral. Também devido ao aumento populacional e ao desenvolvimento das sociedades aumentou a procura e o consumo de energia em todo o mundo, de que a crise do petróleo é um exemplo paradigmático. A construção de barragens tem sido uma solução clássica atraente para resolver os dois problemas: aumenta as reservas de água e propicia a produção de energia.
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Contudo, com a construção de barragens jogam-se, irremediavelmente, possibilidades que nem sempre são consciente nem amplamente debatidas. A destruição de habitats naturais, de flora e fauna, colocam em causa o equilíbrio ecológico, que, em última análise, terá efeitos nefastos na cadeia alimentar humana, no ambiente (contribuindo, por exemplo, para as alterações climáticas) e na investigação científica (a biodiversidade é, por exemplo, um amplo reservatório de soluções medicinais ainda por conhecer, que cada vez se encontra mais reduzido – ao desaparecer uma espécie viva, animal ou vegetal, podem estar a perder-se, irremediavelmente, substâncias químicas que poderiam vir a ser fundamentais na produção de medicamentos, bem como possibilidades de conhecimento, de maior compreensão do mundo em que vivemos).
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Mas com a construção de uma barragem joga-se também uma alteração morfológica profunda da geografia dos locais, irrecuperável no futuro. Quando se constrói uma barragem está a alterar-se para sempre (note-se o peso deste PARA SEMPRE!) a paisagem natural de um vale, que o ser humano futuro jamais poderá recuperar. Caso se venham a encontrar, no futuro, outras soluções para os problemas que as barragens, hoje, pretendem resolver, os vindouros muito dificilmente (para não dizer que será completamente impossível!) poderão desconstruir as barragens e recolocar no seu lugar os vales e montanhas com fauna e flora primitiva e, assim, poderem vir a beneficiar da sua vital importância!
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E para além daquele impacto ecológico referido, a construção de uma barragem poderá colocar igualmente em causa coisas de grande valor, como uma paisagem única e esteticamente valiosa e ou um potencial investimento turístico e consequente mais-valia para o desenvolvimento económico de uma região, como é o caso do vale do Tua, serpenteado pela bela linha férrea. (Não podemos esquecer que o nosso país tem condições naturais excepcionais para atrair turismo; no caso, a linha do Tua é um claro exemplo de potencial turístico de elevada qualidade, bem diferente daquele potenciado por uma artificial albufeira!)
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Ora, escolher simplesmente (demasiado simplesmente) uma barragem em detrimento de uma paisagem e infra-estrutura ferroviária patrimonial – com potencial turístico de futuro, com amplo espectro no mercado turístico europeu e mundial e com consequentes mais-valias económicas evidentes para a região –, com base no argumento da necessidade de construir mais um reservatório aquífero e uma central de produção energética tem um grave e profundo significado. Significa que se está, inconscientemente, a reduzir o ser humano a um animal consumidor de energia e de água, como se ser humano consistisse apenas em consumir água e energia. Trata-se de uma desumanização do homem e da sua consequente animalização.
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Por um lado, é claro que a água é condição necessária de sobrevivência do ser humano no mundo (sem água não há vida, incluindo vida humana). Mas a água não é uma condição suficiente – é preciso algo mais do que água para se viver como ser humano; são igualmente necessários, designadamente, locais que proporcionem experiências estéticas significativas, como belas paisagens miradas através de uma janela de um calmo comboio, bem como fontes de rendimento para as populações. Por outro lado, há outras fontes de produção de energia e, de qualquer modo, talvez se pudesse, neste caso, construir a barragem noutro local da bacia do Tua ou mesmo noutra bacia e, assim, conciliar as duas coisas.
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Sendo a experiência estética uma das mais gratificantes e profundamente constitutivas da nossa humanidade, de que somos capazes, e tratando-se a linha do Tua de um dos mais belos percursos ferroviários da Europa, então, além de valor patrimonial, pode, caso seja alvo de uma exploração profissional e sustentada, vir a ter um valor turístico ainda maior e vir a transformar-se, de facto, numa mais-valia para o desenvolvimento económico da região.
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Ficar sem o único rio selvagem português (com a construção da barragem do Baixo Sabor) e sem a sui generis linha ferroviária do Tua (com a construção da Barragem do Tua) é talvez perder demasiado em troca de ganhos bem menos valiosos e inevitáveis do que se faz crer!Seria, pois, bom que, ao invés de se pretender realizar dogmaticamente programas de governo, de modo completamente descontextualizado e linear, se compreendesse profundamente o que se joga na construção de uma barragem – particularmente nesta – e que se fizesse da decisão política uma decisão verdadeiramente ponderada, sustentada e partilhada!
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(Publicado in Terra Quente, 15-08-2008)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Aproxima-se um “JAMAIS!”?

O relatório de apuramento de causas do descarrilamento da passada sexta-feira na linha do Tua é… inconclusivo! Afinal, «na prática, as entidades envolvidas, limitaram-se a assegurar que estava tudo bem na parte que dizia respeito a cada uma delas». Quando há tantas cabeças responsabilizáveis por um acidente deste espectro vergonhoso é, paradoxalmente (já que a primeira função do Estado é zelar pela segurança de pessoas e bens!), bastante fácil fugir às responsabilidades. Principalmente quando, no fundo, isto não é um assunto de interesse nacional, nem prioritário e ainda é, pelo contrário, um daqueles temas incómodos que interessa esconder, protelar e fazer diluir no atoleiro do cadinho terceiro-mundista tão querido dos nossos competentes e corajosos governantes.

De qualquer modo, algo se está a fazer, estejamos descansados: quatro acidentes com quatro vítimas mortais depois… agora sim, o Ministro da tutela considera que vale a pena recorrer a uma equipa especializada independente para proceder à averiguação do estado da linha, das condições de segurança e adequação do material circulante à famigerada linha do Tua! Até porque há por aí, com certeza, muita gente ansiosa pela reabertura da linha, para mais um excitante passeio ferroviário num verdadeiro ambiente de terceiro mundo!

Estará para breve um “JAMAIS!”?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

C’est la vie…! Ou a vergonha de um terceiro-mundismo persistente

Mirandela. Agosto de 2008, era moderna (!?). Um grupo de turistas, depois de se deleitar com a frugalidade dos espaços verdes, de lazer e desporto e do património arquitectónico da Princesa do Tua, de ter degostado os seus típicos fumeiro, queijaria e uma nova cozinha sustentada no melhor azeite virgem extra do mundo, resolve fruir os prazeres de uma serena viagem de comboio por uma das mais belas linhas férreas do mundo. Azar! Descarrilou!

Num lapso de tempo de cerca de um ano e meio, mais um (o quarto!) descarrilamento de uma composição do metro de superfície de Mirandela ao serviço da CP na linha ferroviária do Tua. Mais uma vítima mortal. E mais displicência nas declarações oficiais, designadamente do director de comunicação da CP, que, no meio de profícua verborreia politicamente correcta, comunica a profunda ideia de que a vida é um risco constante e que este descarrilamento faz parte das coisas que podem acontecer numa linha férrea… da CP!

Em lugar de comunicar a ideia de que tudo se fará para apurar as causas e as responsabilidades de mais um misterioso acidente ferroviário numa linha em vias de extinção devido à construção da barragem do Tua, e, portanto, transmitindo aos utentes da CP a ideia de que esta empresa tudo fará para assegurar as condições de segurança necessárias à circulação ferroviária em “todas” as linhas do país, comunica, ao invés, a trágica ideia romântica de que é, naturalmente, arriscado viajar em composições ferroviárias da CP ou ao serviço da CP!

Descarrilou mais um comboio na pequena, remota e insignificante linha transmontana do Tua?! Bom… “c’est la vie!” Mas, bom, também é mais uma prova do terceiro-mundismo que teima em caracterizar a forma como o nosso estado (e a nossa sociedade) está (des)organizado. E, ao que tudo indica, é mais uma estranha coincidência na novela dos interesses obscuros em torno da construção compulsiva de uma barragem que, de forma demasiado simplista (para não dizer simplória!), inviabilizará uma linha ferroviária de enorme valia histórico-patrimonial e paisagística e, portanto, de valor acrescentado em termos turísticos para uma região em que o turismo é demasiado importante.

Mas talvez ainda venha a suar um “jamais!” da parte da tutela, relativamente a acidentes completamente injustificados numa linha que teve mais acidentes neste ano e meio que talvez em todo a sua história de mais de um século! Mas, por favor, que ninguém se demita, que isso é característico de países desenvolvidos!

Quem inteligente, com espírito crítico e cultura política (que os há por estas bandas!) fica a aguardar (sentado, claro, para se não cansar!) pelo resultado atempado de mais um inquérito de apuramento de factos e de responsabilidades (ainda faltam dois, dos três acidentes anteriores!). Ou ninguém – como nos países do terceiro mundo – é responsável pelo que aconteceu? Mas também pessoas com aquelas características definidoras de uma cidadania consciente de mundo (que os há muitos por esse Portugal fora), sempre poderão pensar (e agir nesse sentido!) que uma empresa ferroviária que permite mais um estranho descarrilamento ferroviário nesta linha e cujo director de comunicação é capaz de comunicar aquela ideia justificativa completamente medíocre, irresponsável e desrespeitadora dos seus destinatários, merecerá um boicote aos seus serviços por esse país fora… Tal acto não seria apenas uma questão de prudência; seria, sobretudo, uma afirmação de cidadania digna.

Seja crítico – não viaje na CP!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Reacção do MCLT

O Movimento Cívico pela Linha do Tua (MCLT) já reagiu ao último descarrilamento de uma automotora, ocorrido na passada sexta-feira de manhã, na famigerada (e mal-amada por muitos, que parece nunca a terem percorrido!) linha do Tua, acusando o governo de ocultar partes dos relatórios sobre os acidentes e estudos realizados na linha. Veja-se aqui.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O descarrilamento da política do medo

É absolutamente impressionante como a incúria, incompetência e aberrante (para não dizer simiesca) desresponsabilização da empresa responsável (?!) pela manutenção da linha, terá provocado mais um descarrilamento de uma composição na linha ferroviária do Tua.

Parece óbvio que, num país com uma organização ético-política terceiro-mundista, uma linha ferroviária que está condenada a desaparecer não tenha uma manutenção cuidada e exigente (já que vai encerrar...!).

Pior só mesmo o Governador Civil de Bragança aproveitar a ocasião para mostrar que, uma vez que a linha está a dar tantos problemas e, afinal, não é assim tão necessária nem tão-pouco importante, o melhor é mesmo fechá-la! Trata-se de uma grotesca falácia, já que este tipo de acidentes não são propriamente uma inevitabilidade trágica, que obrigasse o homem responsável e tecnologicamente dotado do início do terceiro milénio a desistir de tal empreendimento face às forças da natureza!! Trata-se, pois, de puro terrorismo político, uma vez que gera medo nas pessoas que utilizam ou venham a utilizar aquela linha, procurando levá-las a aceitar a decisão de encerramento como algo absoluta e inquestionavelmente necessário.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Movimento pela linha do Tua

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Sendo a experiência estética uma das mais gratificantes e profundamente constitutivas da nossa humanidade, de que somos capazes, e tratando-se a linha do Tua de um dos mais belos percursos ferroviários da Europa, então, além de valor patrimonial, pode, caso seja alvo de uma exploração profissional e sustentada, vir a ter um valor turístico ainda maior e vir a transformar-se, de facto, numa mais valia para o desenvolvimento económico da região.

No entanto, tal património regional, nacional e mundialmente valioso está a beira da destruição, devido à construção de mais uma barragem. Claro é, para todos, a importância vital futura de reservas aquíferas, tal como importante são as fontes geradoras de energia eléctrica. Nem uma nem outra das (únicas) razões para construir a barragem é, efectivamente, boa: aquela reserva de água não tem necessariamente que ser ali localizada, nem a produção de energia justifica o investimento!

Seria bom que se compreendesse profundamente o que se joga na construção de uma barragem, particularmente nesta!

Para conhecer e, sobretudo, sentir as razões do protesto contra a construção apressada e ilusória -- contra tudo e contra todos -- da barragem do Tua, não há, aliás, como serpentear as encostas do Tua, desde a sua foz, no Douro, até Mirandela (actual fim de linha)! Ou então, visite-se o site do movimento cívico pela linha do Tua VIVA.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

"Jarbas... manda ligar a água!"

"In memoriam"
(Linha do Tua, Agosto de 1997)
© Miguel Portugal

A febre das barragens, aduçada com uma calda de populismo para incautos e regada com uma já velha colheita de pseudo-dever cumprido na obra feita erguerá mais uma barragem. No caso, a da Foz do Tua. Mais uma vez, um conflito de valores em questão. Mais uma vez, a mesma teimosa incapacidade de ponderação. Em causa está, talvez sobretudo, um dos mais belos percursos ferroviários do mundo! (Para mais sobre o tema, neste blog, veja-se aqui.) Em causa está apenas uma das fontes de receitas mais limpa, de baixos custos e importantíssima para a região -- o turismo! Do outro lado dos argumentos, mais produção energética, cujo aumento, todavia, não parece ser suficientemente significativo para ombrear com o que se perde com a construção da barragem.

O curioso nesta história é que na margem direita do rio irrompeu já um estradão para a EDP e a Construtora Teixeira Duarte fazerem estudos geológicos para a implantação do paredão da barragem; e na margem esquerda, a Refer continua a investir nas obras de reabilitação da linha ferroviária do Tua, que, a ser construída a barragem (ainda não há decisão!), vai ficar parcialmente submersa! Sim, é no mesmo rio! E sim, é em Portugal. (Será que eles não se falam?!) O próprio Ministro do Ambiente já dá como certa a obra, curiosamente, mesmo antes de tomada a decisão quanto ao seu impacto ambiental! E tudo isto... com uma leviandade confrangedora!
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Compreende-se, pois, a indignação do autarca de Mirandela, o social-democrata Dr. José Silvano, que, tirante os membros das organizações ambientalistas, tem sido uma das poucas vozes criticamente lúcidas nesta matéria. Não se compreende é o silêncio, a este propósito, dos dirigentes do seu partido!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

A propósito do TUA e do T.G.V. – uma curiosidade!!

© Miguel Portugal
«O esquecimento do mundo da vida está hoje patente no crescimento imparável da velocidade, que fascina a nossa idade técnica e tem sido investigada nos nossos dias pela Dromologia. Para P. Virilio, só quem foi veloz, pôde controlar o território, dominar e possuir. O nómada fez conquistas mas o cavaleiro veloz dominou-o e fez dos lavradores vassalos. Por isso, o binómio senhor-escravo está historicamente ligado à velocidade. A história do mundo é a eliminação sucessiva das forças mais fracas pelas mais velozes e, na sequência lógica desta interpretação, hoje a velocidade vencedora não é a dos automóveis ou a dos aviões mas a velocidade absoluta da luz, que subordinará totalmente o homem, preso de uma imobilidade mortal directamente proporcional à velocidade, que não possui (...).


© Miguel Portugal
(...)
Ao destino da inércia, da paralisia, da imobilidade está condenado o homem pela velocidade da luz, que mudará a essência da guerra, tornando-a pura, total, com velocidade ondulatória absoluta, sem vítimas, porque imobilizará o inimigo absolutamente incapaz de reacção. “Tudo tende para a paralisação, para a inércia” (M. Jakob / P. Virilio). É ilusório nos nossos dias o discurso sobre o novo nomadismo, porque é irresistível a tendência profunda para a imobilidade, a estática, a inércia, a deficiência: “O deficiente, que hoje passeia no seu carro – uma obra tecnológica admirável – é um pioneiro, pois o nosso futuro é sermos inválidos equipados com próteses” (M. Jakob / P. Virilio).

© Miguel Portugal
(...)
Quanto mais rápidos forem os meios de transporte, menos nos movemos e, por isso, o limite, para o qual hoje contribui o tacto e o olfacto à distância, é a paralisação, o estado patológico da imobilidade absoluta. Por isso, perdemos a experiência de caminho e de viagem, essencial à busca de sentido. Outrora a viagem constava de partida, de viagem propriamente dita e de chegada. Com o comboio e, sobretudo, o avião, a viagem foi progressivamente dominada pelo sentimento de chegada e tende a coincidir com esta, enquanto o tempo intercalar é tempo perdido, por vezes aproveitado para dormir ou ver um filme. No tempo da imobilidade gerada pela velocidade-limite, não nos movemos apenas fisicamente como na idade do automóvel, mas nem sequer teremos necessidade de sair de casa, pois toda a realidade nos será trazida ao domicílio e nós pagaremos, com a perda de mundo na sua extensão e duração, com o cárcere doméstico, a factura da imobilidade universal.»

Miguel Baptista Pereira, “A crise do mundo da vida no universo mediático contemporâneo” in Revista Filosófica de Coimbra, 8 (1995) 273-6.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Da serenidade do Tua à velocidade do TGV

O milagroso T.G.V. a preparar-se apressadamente para passar e os comboios no belo Tua calmamente a caírem!
Num país de P.G.V. (politique à grand vitesse) são esquecidos os problemas profundos, estruturais do interior, por força da megalomania da rapidez litoral e, no fundo, periférica! É claro que o centro da sociedade portuguesa deve passar também por ser o espaço interior, as pequenas e médias cidades do Alentejo, Beiras, Trás-os-Montes, que deveriam já ter tido o mesmo interesse estratégico por parte do poder político, como tiveram as suas congéneres europeias! Já se sabe, hoje, que os problemas das grandes cidades se resolvem com investimentos estruturais nas pequenas e médias cidades disseminadas pelo restante território. A periferia, essa deveria ser apenas um conceito geográfico, mas não humano, social, económico, nem cultural.
É claro que tal não significa um desinvestimento sistemático nas zonas do litoral e nas grandes cidades. Mas se há justificação económica e política para o T.G.V -- na perspectiva do desenvolvimento económico e até com repercussões, ainda que indirectas, para o desenvolvimento económico do interior -- a relação custo-benefício não parece, por outro lado, justificar a Ota. No lugar desta megalomania insensata para as finanças públicas, outras necessidades há -- agora -- para suprir, designadamente na tentativa de esbater as assimetrias litoral-interior, como já aconteceu noutros países da Europa. Porque não -- depois -- interiorizar (ou, pelo menos, descentrar um pouco mais) o novo aeroporto internacional?