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terça-feira, 1 de junho de 2010

Apraxia -- à espera do messias

A existência é pesada, por vezes (tantas), dura. Os tentáculos das circunstâncias e o assalto do determinismo social, económico, político e cultural justificam a inacção, a preguiça, a resignação. Apraxia é o termo utilizado em filosofia (além de Psicologia e Neurologia) para compreender uma característica da acção humana (ou então "acédia", como sugere Pacheco Pereira neste texto inconformista do Público) -- aquele estado em que se não é capaz de agir, em que o dissenso encantatório da acção nos inactiva. O país, os portugueses em geral, vivem num estado de letargia onírica, por enquanto de sorriso mole nos lábios, pouco cépticos ainda que mais ou menos críticos, embora em geral com pouca profundidade.
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Não é do clima. Não é da latinidade. É da inércia do hábito, do alimento político irresistível do populismo e da demagogia; da garantia da solidariedade tornada injusto comodismo; do vazio da facilidade e da gloriosa, pseudo-libertadora, fuga ao esforço. Não se trata já sequer de utopia. É mesmo pura e oportunista falsidade manipulatória. De qualquer modo, vamos habituando-nos a não procurar pensar mais profundamente, nem tão-pouco a procurar agir mais consequente e eficazmente. É mais fácil esperar o messias, que por nós pensará e agora também por nós agirá!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Homossexualidade. 4. Uma ameaça para a sociedade?

Uma das críticas mais radicais utilizadas por algumas pessoas para negar o tratamento igual aos homossexuais é a ideia de que podem ser uma ameaça para a sociedade.

Pessoas como o televangelista americano Jerry Falwell – fundamentalista cristão, de orientação baptista, com forte presença nos media –, vêm transmitindo, desde os anos 80 do séc. XX, a ideia, com uma ampla receptividade, de que de facto os homossexuais representam uma ameaça para a restante sociedade, por um conjunto, muitas vezes pouco definido, de males que podem causar aos outros.
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Mas, tal como em outros casos, também aqui, ao examinarmos esta ideia de forma imparcial e em busca de princípios universais racionalmente justificados, rapidamente se verifica que ela não tem qualquer fundamento. Além das diferenças de orientação sexual entre heterossexuais e homossexuais, não parece haver quaisquer outras diferenças de carácter moral ou ao nível da participação na sociedade. Do ponto de vista psicológico, não há dúvidas entre os especialistas de que não há qualquer relação entre o equilíbrio psicológico e a orientação sexual; heterossexuais e homossexuais possuem o mesmo grau de saúde física e mental. Ou seja, a ideia de que os homossexuais possam ser, de alguma forma (quase nunca bem definida pelos críticos), perniciosos para a restante sociedade é tanto ou mais mítica e preconceituosa como a ideia de que os judeus são avarentos ou os negros são preguiçosos.

A ideia de que os homossexuais possam ser uma ameaça para a sociedade é muitas vezes avançada como razão para discriminar os homossexuais. Não passa, contudo, de um preconceito, ainda que amplamente propagandeado ou mesmo acriticamente aceite. Por isso, não podemos basear nela qualquer justificação ética (racional, imparcial e universalista) para defender que a homossexualidade é moralmente incorrecta.

(Continua)

quarta-feira, 26 de março de 2008

Estilos parentais e comportamento social das crianças

Desde os anos setenta do séc. xx (Diana Baumrind 1971, 1980) que em Psicologia se fala em três estilos parentais, três formas de educar – pais autoritários, pais permissivos e pais autoritativos (ou de estilo democrático):

1. Os pais autoritários são rígidos e punitivos e valorizam a obediência não questionada por parte dos filhos; têm padrões inflexíveis e desencorajam expressões de discordância.

2. pais permissivos dão aos filhos pouca orientação ou orientação inconsistente e, apesar de carinhosos, exigem pouco deles.

3. Os pais autoritativos são firmes, estabelecendo limites para os filhos; à medida que as crianças crescem tentam, utilizando um discurso racional, explicar as coisas às crianças; ambém estabelecem objectivos claros e encorajam a independência das crianças.

Apesar de existirem muitas excepções, foi verificada uma correlação entre estes três estilos de educação e três tipos de comportamentos diferentes nas crianças:

1.1. Os filhos de pais autoritários são normalmente pouco sociáveis, pouco amigáveis e relativamente retraídos.

2.1. Os filhos de pais permissivos são imaturos, de humor inconstante, dependentes e com pouco autocontrolo.

3.1. Os filhos de pais autoritativos estabelecem boas relações sociais, são fáceis de se gostar, são autoconfiantes, independentes e colaborantes.

É claro que as crianças nascem com uma disposição básica e inata para se comportarem de um certo modo, o que se chama temperamento: algumas crianças são naturalmente mais descontraídas e bem-dispostas, enquanto outras são mais conflituosas e irritáveis. O tipo de temperamento com que um bebé nasce pode, até certo ponto, provocar, inclusivamente, certos estilos de educação nos pais (Goldsmith et al, 1987; Goldsmith e Harman, 1994; Kendler, 1996).

De qualquer modo, a educação da criança é o resultado da filosofia da educação em que os pais acreditam, as suas práticas específicas e as características da sua personalidade e personalidade dos seus filhos. Ou seja, o comportamento social das crianças, como acontece em outros aspectos do desenvolvimento, é o resultado de uma interacção complexa entre factores genéticos e ambientais. (Maccoby, 1992; Gottlieb, 1996; Kagan, 1997)

Apesar de não haver determinismo, a correlação entre estilos parentais e comportamento social das crianças é claro. Uma das causas do problema da indisciplina nas nossas escolas está, pois, identificado (a outra é o clima geral de permissividade e consequente falta de autoridade dos professores). Há, portanto, fortes e seguras razões científicas para se apostar numa solução política para a indisciplina nas escolas, que passe por uma intervenção informativa e dissuasora junto dos pais (que poderia começar com uma campanha de sensibilização), para que os seus filhos tenham, efectivamente, um futuro melhor. E são sempre os mais desfavorecidos que mais necessitam de ajuda em termos de uma equilibrada, mas presente, autoridade.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Privacidade na internet

Um recente estudo revela que os jovens ingleses não gostam da ideia dos seus dados pessoais, que disponibilizam na rede, virem a ser acedidos por universidades ou futuras empresas empregadoras.
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O estudo revela dados empíricos que verificam aquilo que, quem tem umas luzes de Psicologia humana e conhece e contacta diariamente com jovens, já suponha, ainda que de forma intuitiva ou com base em poucos dados. De facto, muitos jovens adolescentes, em busca da sua identidade e numa grande abertura ao outro que lhes é própria, revelam, despudoradamente e, muitas vezes, sem qualquer cuidado, os seus dados pessoais, a sua vida privada, quando não mesmo íntima, expondo-se assim em demasia à voracidade de alguns outros e a situações embaraçosas, diante das quais estão muitas vezes sozinhos para as enfrentar e resolver.
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Numa era de proliferação do liberalismo como forma de organizar os estados, mas também a sociedade civil e a vida individual, há ainda muito a fazer na educação para a liberdade e a individualidade, designadamente num mundo em rede. (Mais uma tarefa para a escola!) Ser verdadeiramente livre implica salvaguardar o nosso último reduto de invasões estranhas, para que possamos estar mais preparados -- fortalecidos e seguros em nós mesmos -- para o verdadeiro e são contacto partilhado com o outro.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A vida não é um jogo!

A sociedade de livre iniciativa e consumo é uma sociedade onde impera a liberdade como valor fundamental, que organiza essa mesma sociedade e a ordena do ponto de vista da justiça. Mas a liberdade justa é uma liberdade igual para todos, em que a liberdade deve naturalmente ser limitada, embora apenas pela própria liberdade!

Os jogos electrónicos, a par de outros produtos para jovens, são cada vez mais atraentes. A finalidade da maioria não é ajudar o jovem a crescer, mas é sim vender a maior quantidade possível de unidades. Isso, à partida, não encerra qualquer mal: aumentando as vendas, aumenta o emprego; aumentando o emprego, diminui a precaridade económica e social. No entanto, não parece haver dúvidas que as crianças e os jovens adolescentes devem ser preservados nas suas especificidades desenvolvimentais (conhecimento científico e tratados internacionais já bastam!) e não tratados pura e simplesmente como alvos a manipular, no sentido de comprarem os jogos.

A mais recente polémica (veja-se mais detalhes aqui) -- embora, mesmo apesar do conflito de valores, não se veja muito bem qual a dúvida -- é com um jogo de telemóvel para raparigas, em que a protagonista se apresenta com um role de vícios (ou invirtudes, como se queira!), como por exemplo consumir drogas, enganar professores, práticas sexuais estranhas... com o intuito de ganhar popularidade! Eis a imagem estereotipada de mulher profissional, social e sexualmente popular, a continuar a fazer vítimas junto das jovens a aguardar por modelos a imitar!
O incrível desta triste história, é que a empresa responsável pelo belo produto travestiu o engodo comercial -- altamente atractivo para as jovens presas fáceis da sua naturalmente insegura e curiosa adolescência --, com uma justificação fantástica: o jogo deve causar uma reflexão por parte das jovens, já que todas as acções desviantes praticadas pela protagonista são para serem compreendidas de forma irónica!! Fantástica (galardoável), a ousadia pedagógica!! Mas, lamentável, a falácia, e triste, a ignorância!

No entanto, quiçá não será esta uma fatal prenda no sapato desapertado de tantas pobres e abandonadas jovens por este melhor mundo fora! A vida não é, decididamente, um jogo.