Foi entregue ao filósofo Desidério Murcho, professor na Universidade Federal de Ouro Preto, no Brasil, a tarefa de trazer ao grande público o essencial sobre a filosofia. A ideia é «fazer o leitor assistir em directo, pela força do exemplo e sem mediações históricas nem academismos, ao raciocínio filosófico intenso» (p.12). Consequentemente, trata-se de convencer as pessoas de que ter “umas tintas de filosofia”, na expressão do britânico Bertrand Russell, é importantíssimo para uma vida verdadeiramente humana e até mesmo útil para uma vida bem sucedida numa era cada vez mais exigente: «Ter uma formação elementar em filosofia é importante porque nos ensina a pensar melhor sobre problemas de tal modo complexos que a tentação é desistir de tentar resolvê-los» (p.11). Estilo fácil e atraente, embora sem perder o rigor e a contundência do pensamento filosófico, Filosofia em Directo promete ser uma deliciosa introdução à filosofia e ao filosofar, percorrendo, entre outros, tópicos como democracia, liberdade, valor, sentido, realidade, raciocínio e verdade.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Filosofia em directo
Foi entregue ao filósofo Desidério Murcho, professor na Universidade Federal de Ouro Preto, no Brasil, a tarefa de trazer ao grande público o essencial sobre a filosofia. A ideia é «fazer o leitor assistir em directo, pela força do exemplo e sem mediações históricas nem academismos, ao raciocínio filosófico intenso» (p.12). Consequentemente, trata-se de convencer as pessoas de que ter “umas tintas de filosofia”, na expressão do britânico Bertrand Russell, é importantíssimo para uma vida verdadeiramente humana e até mesmo útil para uma vida bem sucedida numa era cada vez mais exigente: «Ter uma formação elementar em filosofia é importante porque nos ensina a pensar melhor sobre problemas de tal modo complexos que a tentação é desistir de tentar resolvê-los» (p.11). Estilo fácil e atraente, embora sem perder o rigor e a contundência do pensamento filosófico, Filosofia em Directo promete ser uma deliciosa introdução à filosofia e ao filosofar, percorrendo, entre outros, tópicos como democracia, liberdade, valor, sentido, realidade, raciocínio e verdade.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
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… de Pedro González Calero, A Filosofia com Humor. Um percurso pela história do pensamento nos ditos dos grandes filósofos, trad. port. de Pedro Vidal (Lisboa: Planeta Manuscrito, 2009), uma fresca resenha de pequenas histórias humorísticas dos e sobre os filósofos ao longo da história, em que o autor nos mostra como a filosofia não é necessariamente entediante e pode até ser o humor dos filósofos uma oportunidade de pensar os temas mais sérios..
O livro, desafiador das convenções académicas em torno da seriedade da filosofia, conduz-nos desde a Antiguidade clássica, em que, por exemplo, se conta «que Antístenes, no final dos seus dias, doente e com dores, lamentava-se em voz alta da sua situação ao seu discípulo Diógenes. – Ai, quem me livrará destes males – bramava o velho Antístenes. Ao que diógenes, apresentando um punhal, replicou: – Este livrar-te-á, mestre. – Dos males, estúpido, não da vida – retorquiu Antístenes» (p. 39), até às enigmáticas deduções lógicas de Bertrnad Russell, de que ele e o Papa são a mesma pessoa (!) (p. 148-150), passando pela altamente sarcástica crítica que Schopenhauer faz da “suposta” profundidade do pensamento hegeliano:
«Sobre a suposta sabedoria de Hegel disse Schopenhauer que não passava de uma palhaçada filosófica, um palrar repugnante, um obscuro encadeamento de insensatezes e disparates que muitas vezes recordam os delírios dos alienados. No seu Parega e Paralipomena, escreveu: “Se se quiser embrutecer desde cedo um jovem e torná-lo incapaz de qualquer ideia, não há meio mais eficaz do que o assíduo estudo das obras originais de Hegel; porque essa monstruosa acumulação de palavras que se chocam e contradizem de modo a que o espírito se atormenta inutilmente tentando pensar alguma coisa enquanto as lê, até ficar cansado e murchar, aniquila nele paulatinamente a faculdade de pensar de modo tão radical que, a partir daí, passam a ter valor de pensamentos as flores retóricas insípidas e vazias de sentido (…). Se alguma vez um preceptor temer que o pupilo se torne demasiado sagaz para os seus planos, poderá evitar essa desgraça com o estudo assíduo da filosofia de Hegel.”» (p. 125)
Em tempo de crises várias, há leituras esclarecedoras, mas também benfazejamente espirituosas, como esta, que nos ajudam a sobreviver.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Liberdade de expressão
Quando, há algum tempo atrás, se elevou a bandeira da liberdade de expressão para legitimar as famosas “caricaturas de Maomé” contra a rebelião dogmática e “atrasada” dos fundamentalistas islâmicos, tudo pareceu demasiado simples: o caricaturista tinha o direito fundado na liberdade de expressão de caricaturar o profeta e o povo islâmico não tinha o direito de o impedir. Na altura talvez tenha sido dos poucos a lembrar o facto de civilização ocidental e mundo islâmico viverem em dois paradigmas culturais e ético-políticos de tal modo distintos, cuja incomensurabilidade exigia algum cuidado nas apressadas comparações – apesar do princípio liberal da liberdade de expressão ser, no Ocidente, um princípio inquestionável, a sua universalização, não sendo fácil, requer uma prudência acrescida (talvez fosse bom ter consciência de que tal princípio muito dificilmente poderá ser valorizado, muito menos de forma imposta, no mundo islâmico ainda muito pouco secularizado).Agora, o Nobel português da literatura vem, no seu recente Caim e mais uma vez, criticar e até, ao que parece, parodiar a Bíblia. Mas cidadãos de um país integrado, não só geográfica mas também historicamente, na secularizada civilização ocidental reagem na desmesura de quem não lhe permite, ao escritor, a liberdade de exprimir as suas ideias.
Este caso faz-me lembrar a defesa que, no séc. XIX, o filósofo liberal britânico John Stuart Mill fez da liberdade de expressão, na sua obra Sobre a Liberdade:
«(…) o mal particular em silenciar a expressão de uma opinião é que constitui um roubo à humanidade; à posteridade, bem como à geração actual; àqueles que discordam da opinião, mais ainda do que àqueles que a sustentam. Se a opinião for correcta, ficarão privados da oportunidade de trocar o erro por verdade; se estiver errada, perdem uma impressão mais clara e viva da verdade, produzida pela sua confrontação com o erro – o que constitui um benefício quase igualmente grande.»
O euro-deputado do PSD que veio “pedir a cabeça” do ateu militante José Saramago (aqui), incorre num erro grosseiro, que parece tomar conta de muitos cidadãos que ascendem à vida pública – uma pobreza confrangedora de pensamento e uma ignorância da história das ideias políticas, escolhos que provocam o tropeço em contradições e o atropelo dogmático e incrivelmente inconsciente dos princípios estruturantes da própria civilização em que vivem e ajudam a gerir a vida pública dos seus concidadãos.
Só nos resta esperar que alguns Saramagos continuem a exprimir livremente as suas ideias problematizadoras das crenças mais fundamentais da nossa civilização e que sejamos livres de o ler ou de o não ler. Mas espera-se também que haja capacidade de, reflectindo em tais críticas, mostrar, com elevação e qualidade intelectual, que, se for o caso, são críticas inválidas.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Literatura fantástica e perda de referências literárias
A literatura do fantástico tem aumentado as suas edições a nível mundial. As editoras têm apostado em fortes campanhas de lançamento, com o Partenon ou a Catedral do Sacré Coeur como pano de fundo de lançamento de novos títulos. Também as muralhas do Castelo de São Jorge serviram recentemente de palco ao lançamento da tradução de “Brisingr”, do jovem autor Christopher Paolini. Portugal não fica, pois, atrás deste movimento comercial, que tem permitido a muitas editoras uma sobrevivência económica atractiva, mesmo que, todavia, nem todos os bons títulos deste género literário estejam ainda disponíveis em português.Séries de sucesso como “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, e “Harry Potter”, de J. K. Rowling, deram o mote para que tivesse florescido um género literário, que de menor consideração, se elevou ao sucesso comercial, contando hoje com um amplo mercado mundial e nacional. (Não é despicienda a projecção de algumas obras no grande ecrán!). O público-alvo é, sem dúvida, a camada jovem, que vai devorando títulos, sem que muitos tenham, contudo, a possibilidade de detectar, em grande parte dessas obras, quase-plágios, tornando-as obras derivativas, mas que, por muito iletradas que sejam, com imitações claras dos mais conhecidos tropos do género, vão deliciando a juventude.
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(In: Terra Quente, 15-01-2009)
domingo, 8 de junho de 2008
Livros em saldo
Ao contrário, por exemplo, da Feira do Livro de Coimbra, que escolheu um figurino que envolveu espectáculos musicais dentro do pavilhão – coisa que, certamente, pouco beneficiava a consulta e leitura dos livros expostos –, a Feira do Livro do Porto manteve um ambiente sóbrio, propício ao que se espera de uma mostra de livros a preços mais acessíveis – a sua consulta criteriosa com vista a uma selecção de compras. Depois da polémica, os livros são sempre os livros!
Apesar dos preços não serem assim tão mais baixos quanto seria desejável para o “devorador” de livros, é sempre uma actividade agradável percorrer os escaparates em busca de proveitosas e deleitosas leituras. Últimos dias – a decorrer até terça-feira.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
sexta-feira, 7 de março de 2008
Dar a ler...
(...) O dia acaba devagar. Assume-o e aceita-o. É a palavra final, a da aceitação. Só os loucos e os iludidos a não sabem. Não sou louco. Não são horas da ilusão. Vou fechar a varanda. Tenho de ir avisar a Deolinda. É uma tarde quente de Agosto, ainda não arrefeceu. Pensa com a grandeza que pode haver na humildade. Pensa. Profundamente, serenamente. Aqui estou. Na casa grande e deserta. Para sempre.
Fontanelas, 5 de Maio de 1982.»
Vergílio Ferreira, Para Sempre (Bertrand: Lisboa, 1987), p. 9 (primeira) e p. 306 (última).
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Parabéns à Lello!
O The Guardian agraciou a Livraria Lello, no Porto, como a terceira mais bela do mundo. Parabéns! (A vaidade lusa é também uma vaidade - e, pelo menos, não é cinzenta - e a vaidade constitui também a natureza humana. Assim saibamos doseá-la!).segunda-feira, 23 de abril de 2007
Livro – um dos bens culturais mais importantes da humanidade
Numa conferência proferida em 1982 no Palácio Imperial em Viena, por ocasião da inauguração da Semana do Livro(1), o filósofo austríaco Karl Popper, um grande apaixonado pelos livros e pelas ideias, defendia a tese de que o livro é o bem cultural mais importante da Europa e talvez da humanidade.Antes mesmo da invenção, por Gutenberg, do livro impresso – que está na origem do movimento do humanismo, da reforma, do progresso das ciências da natureza e
das modernas democracias –, a invenção do livro manuscrito e do comércio livreiro, no tempo do tirano Pisístrato (talvez o primeiro editor europeu!), pode ter desempenhado, argumentou Popper, um papel primordial no chamado “Milagre Grego”. A publicação em forma de livro das obras de Homero (c. 550 a.C.), primeira publicação literária, e a obra Sobre a Natureza, de Anaxágoras (466 a.C.), primeira publicação científica, tiveram uma forte importância para a democracia (Atenas aprendeu a ler e a escrever e tornou-se democrática!) e para a filosofia/ciência gregas.Ora, a importância do livro reside no facto deste ser um objecto capaz de sustentar, através da linguagem escrita, uma das coisas mais importantes para o homem – as ideias (acerca das suas emoções e sentimentos, acerca de si mesmo, bem como acerca do mundo natural e social). Para Popper, apenas a escrita, mais do que a oralidade, pode proporcionar às ideias um estatuto de objectividade necessário à busca da verdade e de um mundo melhor – através das ideias vertidas em escrita, podemos (por exemplo, dois mil e quinhentos anos depois, se tomarmos o caso do livro de Anaxágoras) (re)interpretá-las, (re)analisá-las, (re)avaliá-las, submetê-las à crítica, pois elas estão sempre ali, inalteradas, sempre disponíveis para nosso deleite e enriquecimento. «O que torna um livro precioso é o ideário objectivo que ele contém», disse Popper naquela conferência.
A invenção da linguagem constitui o primeiro passo no sentido da objectivação do mundo das ideias humanas, pois tornou possível a comunicação mais objectiva do conteúdo inteligível subjectivo da mente humana. A invenção da escrita foi o segundo passo. Mas o maior e incalculavelmente mais importante avanço foi dado pela invenção do livro, que, ancorado num elevado nível de literacia, torna a fruição das emoções literárias e a análise crítica das ideias acessíveis a todos.
Não é difícil concordar com esta tese de Popper. Muito embora outras formas de cultura ocupem lugar de destaque na história humana, o livro é ainda certamente o que melhor permite, nesse solilóquio silencioso, a consumação do ser humano enquanto ser humano.
(1) Conferência coligida in Karl Popper, Em Busca de um Mundo Melhor, Editorial Fragmentos (Lisboa 1989) 101-108.



