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quinta-feira, 4 de março de 2010

Bullying terá levado ao suicídio. Vergonha!

Há suspeitas de que a criança que se atirou ao rio Tua, terça-feira, em Mirandela, estaria a ser vítima de bullying. A agressão sistemática de crianças a outras crianças mais debilitadas é um fenómeno presente um pouco por todas as escolas das sociedades contemporâneas. Este canto atrás dos montes, como qualquer outro,não é alheio ao fenómeno. A exposição excessiva das crianças à agressividade, survida nos media mas também em ambiente familiar e social, pode explicar o fenómeno. Mas certamente que a falta de uma boa autoridade na orientação do desenvolvimento psiquíca e moralmente equilibrado e adaptado das crianças explicará o resto. A boa autoridade não é o velho autoritarismo violento; a boa autoridade é aquela que sabe e, porque sabe, pode e deve orientar.
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Assistimos hoje a um impávido, embora não tão sereno, recrudescimento da violência, da agressividade, mas também da ausência de valores e princípios orientadores básicos de uma acção verdadeiramente humana por parte de muitas crianças, desde muito cedo. Esta ausência deve-se, certamente, a um crescente alheamento dos educadores, logo desde o berço, que vão exibindo inaptidão pedagógica crónica, exponencial e que se agrava de geração para geração. Acresce a ideia (ideologia do regime, já perfeita e acriticamente, por que comodamente, instalada) de que educar não é orientar, mas apenas dialogar, contratualizar (quando o é!), permitir. Todo este laxismo e absentismo educativo, que acenta numa falseada ideia de liberdade, toda esta ausência de rumo, de filosofia educacional racionalmente discutida, por parte de pais e, sobretudo, altos responsáveis educacionais, a começar pela ideologia construtivista romântica que infectou o Ministério da Educação há já alguns anos, estão na origem remota destes fenómenos trágicos.
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De qualquer modo, não é admissível que as estruturas educativas escolares e toda a panóplia de apoios sociais que parecem existir (!) no nosso país, permitam que estes dramas se concretizem. Sentimos, talvez, vergonha, por não se ter evitado. Mas também uma benfazeja indignação, porque se está a fazer muito pouco. Onde se encontram a assistência social, a psicologia clínica, a direcção educativa (leia-se, a autoridade) de uma escola, as forças de segurança pública, em suma, onde se encontra a protecção e a segurança, que são os valores básicos que se espera destas instituições? Quando educar é anular a violência no comportamento humano e a escola é a catedral da educação, será admissível que os nossos filhos se desloquem à escola para serem alvo de violência gratuita amplamente lesiva? Valerá a pena viver em sociedade, com todas as suas instituições, se estas se encontram de modo tão gritantemente paralisadas? Vale. Mas que as instituições -- família, escola, apoio social para a saúde, organismos estatais -- assumam as suas responsabilidades.

domingo, 15 de novembro de 2009

Ignorância, Tua! Interesses... deles!

O belíssimo documentário de Jorge Pelicano, “Pare, escute, olhe”, sobre a linha do Tua, ontem visto por uma sala cheia, em Mirandela, mostra, magistralmente, algumas das questões centrais que estão em jogo na apressada e monológica construção da barragem do Foz-Tua:

1. A beleza da paisagem que se poderia desfrutar do comboio que serpenteava aquele vale magnífico é, de facto, uma experiência humana plena de sentido e única (apenas quem teve a fortuna de ter feito tal viagem o poderá, efectivamente, compreender);

2. A potencialidade turística da linha muito bem contrastada com o que se faz, por exemplo, nos Alpes suíços (que envergonha os mais conscientes), que traria uma mais valia económica para o país (mais turistas a entrar em Portugal) e, sobretudo, para o interior transmontano há muito perfidamente esquecido pelo poder central, dinamizando a economia local a vários níveis (se juntarmos a isto a ligação de Mirandela a Bragança e o facto de, assim, se ficar a 30 kms. de uma linha de alta velocidade espanhola…!);

3. Trata-se de uma decisão política que, apesar de, naturalmente, parecer ter em conta o interesse público, o bem comum, faz, no entanto, tábua rasa de um conjunto de pessoas que, de facto, viviam as suas vidas empobrecidas em torno daquela linha férrea, o que, eticamente, é, no mínimo, discutível;

4. Os acidentes trágicos sucederam-se apenas no último dos 120 anos da sua existência, o que levanta fortes suspeitas de grave crime por negligência;

5. A construção da barragem é de supremo interesse para a EDP e para as grandes empresas de construção civil e servirá ao país, quando muito, para contribuir para um aumento de apenas 3% de produção de energia e para as populações locais irem à pesca (a irrigação de uma agricultura em agonia, abandonada, não será vantagem de monta);

6. As grandes contradições que assombram o pensamento da generalidade dos nossos políticos, que, nos últimos anos, se têm pronunciado acerca da linha do Tua.

O documentário é uma excelente introdução aos problemas sociais, políticos e culturais que teimam em marcar o Portugal contemporâneo. A opção estética algo hiperbolizada de “filme negro” acaba por mostrar a inevitabilidade da decisão política e a inoperância e falta de poder efectivo das populações num regime democrático mal interpretado pelos seus protagonistas de uma forma autoritarista, falsamente elitista e que remete, em última análise, para o facto dos eleitores terem a responsabilidade última -- afinal, talvez fosse bom não votar, abstermo-nos, e requerer uma transformação em mandatos (de cadeira vazia) na Assembleia da República dessa intenção de voto!
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São, pois, os interesses económicos das grandes empresas, os interesses eleitoralistas dos decisores políticos que lideram o país e, obviamente também, a sua ignorância acerca de uma estratégia de médio e longo prazo para o país (porque não lêem, não se informam e, qual tique totalitarista e autoritarista de outros tempos, não ouvem quem sabe) que estão na base da decisão política de pensamento unilateral, pobre e de vistas curtas da construção desta, como doutras, barragens.

Até o grande único bom argumento para construir a barragem – que obviaria ao problema de escassez de água, por não termos em Portugal grandes nascentes de rios, ao contrário de Espanha –, está a ser impugnado pela Comissão Europeia, por o plano português de barragens não estar a salvaguardar a futuramente vital qualidade da água com a construção das barragens projectadas!

É incompetência, é ignorância, Tua! São interesses… que não, efectivamente, os nossos!

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"Curtas" sobre a água, em Mirandela

Decorrerá, de amanhã a domingo, no Centro Cultural de Mirandela o “Cine H2O”, o I Festival Ibérico de Imagens. Oportunidade para visionar curtas metragens sobre tema actualíssimo, já que o problema das limitações dos recursos hídricos, em articulação com as exigentes condições ambientais e ecológicas, assomará, ao lado dos problemas energéticos, como um dos grandes problemas (senão o principal) de sobrevivência da espécie humana.
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Destaque, naturalmente, para o galardoado "Pare, escute, olhe", de Jorge Pelicano, no Sábado às 17:00, seguido de debate com Jorge Pelicano, Rosa Silva, Pedro Couteiro (COAGRET), Daniel Conde e convidados. (Repete às 21:30).
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(Para o programa completo, veja-se aqui).

domingo, 25 de outubro de 2009

"Pare, escute, olhe"

A longa metragem "Pare, escute, olhe", de Jorge Pelicano, um documentáriuo sobre a linha do Tua, ganhou ontem seis prémios, três num festival em Seia e outros três no DocLisboa. Mais uma oportunidade para quem ainda não se apercebeu do que está em jogo na construção de uma barragem no rio Tua, de se abrir à reflexão crítica sobre uma obra destruidora de uma das linhas ferroviárias de montanha mais belas do mundo.
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No site do DocLisboa pode ler-se esta descrição do documentário:
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Seria bom que, no que toca a decisões políticas, ao invés de se deixarem conduzir pelo ímpeto da modernização irreflectida e a todo o custo, os nossos representantes decisores poíticos parassem, escutassem e olhassem um pouco à sua volta.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Afinal, estava (quase) tudo mal!

O relatório da Comissão de Inquérito ao último acidente na linha do Tua conclui, finalmente, que «defeitos grosseiros» na via e automotoras desadequadas estiveram, com certeza, na origem do acidente. E isto com base num número tão significativo de causas, que é, ao mesmo tempo, desesperante e vergonhoso que tal possa estar a acontecer neste país europeu, que o nosso actual timoneiro quer que siga o exemplo dos países nórdicos! Senão, veja-se:

- «A via no local do acidente apresenta defeitos grosseiros e facilmente identificáveis e suficientes para justificar a ocorrência do descarrilamento»

- Uma curva com medidas desadequadas, defeitos de alinhamento, de empeno, travessas que «necessitam de substituição imediata» (há 18 anos que não são substituídas e algumas têm já 40 anos, já que, segundo o documento, «a sua idade varia entre 1968 e 1990»).

- Falhas nas automotoras («desadequadas características do material circulante») – problemas nas rodas, falta de lubrificação e pouco amortecimento.


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Mais tranquilos ficamos com a conclusão de que não foi apurado qualquer «indício de actos de intervenção dolosa ou negligente produzidos por intervenção humana», segundo concluiu a Policia Judiciária que participou nas investigações, o que já não é nada mau!
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O ministro Mário Lino deu um prazo de 15 dias ao IMTT para apresentar um cronograma e deu 30 dias à Refer e CP para realizarem averiguações internas para apuramento das causas que conduziram às anomalias identificadas, o que, como assim veremos, é apenas para inglês ver!
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É, no entanto, curioso notar como em outros países mais evoluídos cívica e politicamente, perante uma situação tão clara de incumprimento das obrigações do Estado perante a salvaguarda da segurança dos cidadãos, se teriam apurado as respectivas responsabilidades políticas desta bárbara incúria e se teria procedido à respectiva demissão do responsável da tutela, que seria proposta pelo próprio, claro. O mais parecido que temos com tal, foi no trágico caso da ponte de Entre-os-Rios…, mas aí houve mais vítimas mortais! Em Portugal é tudo uma questão de vítimas mortais – “4” é ainda um número abaixo da responsabilização política!!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

O que se joga na construção de uma barragem

(Cahora Bassa, Moçambique)
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Dois dos maiores problemas do mundo actual são a falta de recursos hídricos e a crise energética. Com o crescimento da população, o aumento da poluição de rios e lagos, entre outros, a crise da água é um facto que deve preocupar os decisores políticos, mas igualmente a sociedade em geral. Também devido ao aumento populacional e ao desenvolvimento das sociedades aumentou a procura e o consumo de energia em todo o mundo, de que a crise do petróleo é um exemplo paradigmático. A construção de barragens tem sido uma solução clássica atraente para resolver os dois problemas: aumenta as reservas de água e propicia a produção de energia.
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Contudo, com a construção de barragens jogam-se, irremediavelmente, possibilidades que nem sempre são consciente nem amplamente debatidas. A destruição de habitats naturais, de flora e fauna, colocam em causa o equilíbrio ecológico, que, em última análise, terá efeitos nefastos na cadeia alimentar humana, no ambiente (contribuindo, por exemplo, para as alterações climáticas) e na investigação científica (a biodiversidade é, por exemplo, um amplo reservatório de soluções medicinais ainda por conhecer, que cada vez se encontra mais reduzido – ao desaparecer uma espécie viva, animal ou vegetal, podem estar a perder-se, irremediavelmente, substâncias químicas que poderiam vir a ser fundamentais na produção de medicamentos, bem como possibilidades de conhecimento, de maior compreensão do mundo em que vivemos).
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Mas com a construção de uma barragem joga-se também uma alteração morfológica profunda da geografia dos locais, irrecuperável no futuro. Quando se constrói uma barragem está a alterar-se para sempre (note-se o peso deste PARA SEMPRE!) a paisagem natural de um vale, que o ser humano futuro jamais poderá recuperar. Caso se venham a encontrar, no futuro, outras soluções para os problemas que as barragens, hoje, pretendem resolver, os vindouros muito dificilmente (para não dizer que será completamente impossível!) poderão desconstruir as barragens e recolocar no seu lugar os vales e montanhas com fauna e flora primitiva e, assim, poderem vir a beneficiar da sua vital importância!
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E para além daquele impacto ecológico referido, a construção de uma barragem poderá colocar igualmente em causa coisas de grande valor, como uma paisagem única e esteticamente valiosa e ou um potencial investimento turístico e consequente mais-valia para o desenvolvimento económico de uma região, como é o caso do vale do Tua, serpenteado pela bela linha férrea. (Não podemos esquecer que o nosso país tem condições naturais excepcionais para atrair turismo; no caso, a linha do Tua é um claro exemplo de potencial turístico de elevada qualidade, bem diferente daquele potenciado por uma artificial albufeira!)
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Ora, escolher simplesmente (demasiado simplesmente) uma barragem em detrimento de uma paisagem e infra-estrutura ferroviária patrimonial – com potencial turístico de futuro, com amplo espectro no mercado turístico europeu e mundial e com consequentes mais-valias económicas evidentes para a região –, com base no argumento da necessidade de construir mais um reservatório aquífero e uma central de produção energética tem um grave e profundo significado. Significa que se está, inconscientemente, a reduzir o ser humano a um animal consumidor de energia e de água, como se ser humano consistisse apenas em consumir água e energia. Trata-se de uma desumanização do homem e da sua consequente animalização.
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Por um lado, é claro que a água é condição necessária de sobrevivência do ser humano no mundo (sem água não há vida, incluindo vida humana). Mas a água não é uma condição suficiente – é preciso algo mais do que água para se viver como ser humano; são igualmente necessários, designadamente, locais que proporcionem experiências estéticas significativas, como belas paisagens miradas através de uma janela de um calmo comboio, bem como fontes de rendimento para as populações. Por outro lado, há outras fontes de produção de energia e, de qualquer modo, talvez se pudesse, neste caso, construir a barragem noutro local da bacia do Tua ou mesmo noutra bacia e, assim, conciliar as duas coisas.
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Sendo a experiência estética uma das mais gratificantes e profundamente constitutivas da nossa humanidade, de que somos capazes, e tratando-se a linha do Tua de um dos mais belos percursos ferroviários da Europa, então, além de valor patrimonial, pode, caso seja alvo de uma exploração profissional e sustentada, vir a ter um valor turístico ainda maior e vir a transformar-se, de facto, numa mais-valia para o desenvolvimento económico da região.
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Ficar sem o único rio selvagem português (com a construção da barragem do Baixo Sabor) e sem a sui generis linha ferroviária do Tua (com a construção da Barragem do Tua) é talvez perder demasiado em troca de ganhos bem menos valiosos e inevitáveis do que se faz crer!Seria, pois, bom que, ao invés de se pretender realizar dogmaticamente programas de governo, de modo completamente descontextualizado e linear, se compreendesse profundamente o que se joga na construção de uma barragem – particularmente nesta – e que se fizesse da decisão política uma decisão verdadeiramente ponderada, sustentada e partilhada!
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(Publicado in Terra Quente, 15-08-2008)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Aproxima-se um “JAMAIS!”?

O relatório de apuramento de causas do descarrilamento da passada sexta-feira na linha do Tua é… inconclusivo! Afinal, «na prática, as entidades envolvidas, limitaram-se a assegurar que estava tudo bem na parte que dizia respeito a cada uma delas». Quando há tantas cabeças responsabilizáveis por um acidente deste espectro vergonhoso é, paradoxalmente (já que a primeira função do Estado é zelar pela segurança de pessoas e bens!), bastante fácil fugir às responsabilidades. Principalmente quando, no fundo, isto não é um assunto de interesse nacional, nem prioritário e ainda é, pelo contrário, um daqueles temas incómodos que interessa esconder, protelar e fazer diluir no atoleiro do cadinho terceiro-mundista tão querido dos nossos competentes e corajosos governantes.

De qualquer modo, algo se está a fazer, estejamos descansados: quatro acidentes com quatro vítimas mortais depois… agora sim, o Ministro da tutela considera que vale a pena recorrer a uma equipa especializada independente para proceder à averiguação do estado da linha, das condições de segurança e adequação do material circulante à famigerada linha do Tua! Até porque há por aí, com certeza, muita gente ansiosa pela reabertura da linha, para mais um excitante passeio ferroviário num verdadeiro ambiente de terceiro mundo!

Estará para breve um “JAMAIS!”?

terça-feira, 26 de agosto de 2008

C’est la vie…! Ou a vergonha de um terceiro-mundismo persistente

Mirandela. Agosto de 2008, era moderna (!?). Um grupo de turistas, depois de se deleitar com a frugalidade dos espaços verdes, de lazer e desporto e do património arquitectónico da Princesa do Tua, de ter degostado os seus típicos fumeiro, queijaria e uma nova cozinha sustentada no melhor azeite virgem extra do mundo, resolve fruir os prazeres de uma serena viagem de comboio por uma das mais belas linhas férreas do mundo. Azar! Descarrilou!

Num lapso de tempo de cerca de um ano e meio, mais um (o quarto!) descarrilamento de uma composição do metro de superfície de Mirandela ao serviço da CP na linha ferroviária do Tua. Mais uma vítima mortal. E mais displicência nas declarações oficiais, designadamente do director de comunicação da CP, que, no meio de profícua verborreia politicamente correcta, comunica a profunda ideia de que a vida é um risco constante e que este descarrilamento faz parte das coisas que podem acontecer numa linha férrea… da CP!

Em lugar de comunicar a ideia de que tudo se fará para apurar as causas e as responsabilidades de mais um misterioso acidente ferroviário numa linha em vias de extinção devido à construção da barragem do Tua, e, portanto, transmitindo aos utentes da CP a ideia de que esta empresa tudo fará para assegurar as condições de segurança necessárias à circulação ferroviária em “todas” as linhas do país, comunica, ao invés, a trágica ideia romântica de que é, naturalmente, arriscado viajar em composições ferroviárias da CP ou ao serviço da CP!

Descarrilou mais um comboio na pequena, remota e insignificante linha transmontana do Tua?! Bom… “c’est la vie!” Mas, bom, também é mais uma prova do terceiro-mundismo que teima em caracterizar a forma como o nosso estado (e a nossa sociedade) está (des)organizado. E, ao que tudo indica, é mais uma estranha coincidência na novela dos interesses obscuros em torno da construção compulsiva de uma barragem que, de forma demasiado simplista (para não dizer simplória!), inviabilizará uma linha ferroviária de enorme valia histórico-patrimonial e paisagística e, portanto, de valor acrescentado em termos turísticos para uma região em que o turismo é demasiado importante.

Mas talvez ainda venha a suar um “jamais!” da parte da tutela, relativamente a acidentes completamente injustificados numa linha que teve mais acidentes neste ano e meio que talvez em todo a sua história de mais de um século! Mas, por favor, que ninguém se demita, que isso é característico de países desenvolvidos!

Quem inteligente, com espírito crítico e cultura política (que os há por estas bandas!) fica a aguardar (sentado, claro, para se não cansar!) pelo resultado atempado de mais um inquérito de apuramento de factos e de responsabilidades (ainda faltam dois, dos três acidentes anteriores!). Ou ninguém – como nos países do terceiro mundo – é responsável pelo que aconteceu? Mas também pessoas com aquelas características definidoras de uma cidadania consciente de mundo (que os há muitos por esse Portugal fora), sempre poderão pensar (e agir nesse sentido!) que uma empresa ferroviária que permite mais um estranho descarrilamento ferroviário nesta linha e cujo director de comunicação é capaz de comunicar aquela ideia justificativa completamente medíocre, irresponsável e desrespeitadora dos seus destinatários, merecerá um boicote aos seus serviços por esse país fora… Tal acto não seria apenas uma questão de prudência; seria, sobretudo, uma afirmação de cidadania digna.

Seja crítico – não viaje na CP!

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Reacção do MCLT

O Movimento Cívico pela Linha do Tua (MCLT) já reagiu ao último descarrilamento de uma automotora, ocorrido na passada sexta-feira de manhã, na famigerada (e mal-amada por muitos, que parece nunca a terem percorrido!) linha do Tua, acusando o governo de ocultar partes dos relatórios sobre os acidentes e estudos realizados na linha. Veja-se aqui.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O descarrilamento da política do medo

É absolutamente impressionante como a incúria, incompetência e aberrante (para não dizer simiesca) desresponsabilização da empresa responsável (?!) pela manutenção da linha, terá provocado mais um descarrilamento de uma composição na linha ferroviária do Tua.

Parece óbvio que, num país com uma organização ético-política terceiro-mundista, uma linha ferroviária que está condenada a desaparecer não tenha uma manutenção cuidada e exigente (já que vai encerrar...!).

Pior só mesmo o Governador Civil de Bragança aproveitar a ocasião para mostrar que, uma vez que a linha está a dar tantos problemas e, afinal, não é assim tão necessária nem tão-pouco importante, o melhor é mesmo fechá-la! Trata-se de uma grotesca falácia, já que este tipo de acidentes não são propriamente uma inevitabilidade trágica, que obrigasse o homem responsável e tecnologicamente dotado do início do terceiro milénio a desistir de tal empreendimento face às forças da natureza!! Trata-se, pois, de puro terrorismo político, uma vez que gera medo nas pessoas que utilizam ou venham a utilizar aquela linha, procurando levá-las a aceitar a decisão de encerramento como algo absoluta e inquestionavelmente necessário.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Tuberculose, comunicação social e política

Mirandela, Trás-os-Montes, Portugal... União Europeia. Ano de 2008. Perante alguns casos de tuberculose pulmonar (contagiosa) em escolas do concelho, a Delegação Regional de Saúde procede, num jardim-de-infância, em Novembro de 2007, a rastreio em adultos e crianças. Foi, entretanto, detectado um caso num adulto daquele jardim-de-infância.

O Agrupamento de Escolas não comunicou absolutamente nada aos pais, alegando o Conselho Executivo não ter tido conhecimento do que se estaria a passar (apenas mais tarde ficou a saber) e as próprias educadoras julgaram, inicialmente, tratar-se de mais uma acção clínico-pedagógica, como outras, ao abrigo de protocolos com o Centro de Saúde da cidade. O Agrupamento não terá tido, alegadamente, conhecimento que havia casos de tuberculose em algumas das suas escolas (para além daquele jardim-de-infância), nem que equipas médicas iriam proceder a testes de tuberculina em jardins-de-infância e escolas do primeiro ciclo, porque… o comunicado da Delegação de Saúde foi enviado para a Câmara Municipal e, nesta, pressupôs-se (e parece-me que bem!) que também teria sido dado conhecimento ao Conselho Executivo do Agrupamento! Alegadamente, não foi!!

Entretanto, quando o Conselho Executivo do Agrupamento veio a saber que havia casos de tuberculose em algumas das suas escolas, incluindo num dos seus jardins-de-infância, sugeriu à Delegação de Saúde local que se promovesse uma sessão de esclarecimento aos pais e encarregados de educação das crianças (alguns – os que sabiam – já preocupados), ao que lhes terá sido respondido “que boa ideia, ainda não nos tinha ocorrido”, mas terão alegado qualquer coisa genérica como ainda não terem condições para realizar tal sessão!

Sabe-se lá porquê(!), os órgãos de comunicação social, coisa estranha e inédita(!), vieram a obter a informação dos casos de tuberculose, já no adiantado mês de Abril de 2008, designadamente num jardim-de-infância da cidade. Alguns pais ficaram, então, a saber que os seus filhos estavam a frequentar uma escola em que uma funcionária se encontrava de baixa médica, desde Janeiro, por lhe ter sido diagnosticada tuberculose pulmonar e que tinham sido alvo de testes de tuberculina… através das notícias dos órgãos de comunicação social, designadamente através de reportagens televisivas e isto, portanto, em Abril de 2008!
Apenas sob pressão efectiva de alguns pais e, (infelizmente) principalmente, sob a pressão da tão incómoda comunicação social acabou por se realizar, em 7 de Maio (ontem!), uma sessão de esclarecimento sobre tuberculose, em que estiveram presentes o Delegado de Saúde de Mirandela o Adjunto do Delegado Regional de Saúde e mais dois médicos.

Esta sessão de esclarecimento permitiu esclarecer:

1. que talvez tenham sido tomadas todas as medidas clinicamente previstas para tratar, prevenir e despistar casos de tuberculose pulmonar e que talvez seja mesmo seguro manter as crianças naquele ambiente, que até talvez seja mesmo privilegiado, uma vez que está a ser monitorizado;

2. que foi, contudo, sonegada informação fundamental aos pais – primeiros e maiores responsáveis pela educação, segurança e saúde dos seus filhos menores –, durante 5 meses, tornando assim impossível uma legítima e importante tomada de decisão de forma livre e, portanto, responsável, independentemente de qual fosse.

3. que as instituições responsáveis pela administração da política de saúde, pelo menos local e na região Norte (será só aqui?!), não estão minimamente preparadas, do ponto de vista organizacional, para produzir decisões politicamente modernas, que privilegiam efectivamente os valores ético-políticos mais fundamentais das sociedades democráticas-liberais, que é o que a nossa quer ser(?!), como seja o da igualdade de acesso a informação relevante acerca de menores ao cuidado dessas mesmas instituições;
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4. que as pessoas que ocupam lugares públicos, portanto com uma inegável dimensão política – como sejam as de delegados de saúde – demonstraram não ter sensibilidade e preparação política para tomar decisões verdadeiramente competentes (do ponto de vista político) acerca de um caso de saúde pública numa escola, designadamente num jardim-de-infância, que passaria por uma informação de qualidade técnica e atempada;
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5. que se continua a fazer política (porque os delegados de saúde, desde o regional ao local, são cargos políticos!) como se fazia há 40 anos atrás, tratando-se os cidadãos como se de atrasados mentais se tratasse, abusando de um paternalismo perfeitamente pacóvio e provinciano, como se as instituições estatais tivessem que tomar todas as decisões pelos cidadãos livres (característica, isso sim, de países do chamado terceiro mundo, sob sistemas políticos totalitários!).
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6. que continua a fazer-se em Portugal uma política de pura e simples propaganda de um governo que não pode ter mácula (como isso fosse, sequer em tese, possível!), que teima em governar impondo e ocultando, na fria distância da sua maioria absoluta, confundindo maioria absoluta com poder absoluto;
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7. e que (coisa perfeitamente inacreditável!) as pessoas que ocupam cargos públicos continuam, inexplicavelmente, a não saber lidar com a comunicação social, quando, neste infeliz caso teria sido muito mais dignificante para governadores e governados, se se tivesse evitado o pânico e a telenovela sempre produzida pelos órgãos de comunicação social usando e abusando da vida privada das pessoas, antecipando a sua entrada em cena, retirando-lhe completamente a oportunidade de criar mais uma sensacionalista "notícia";
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8. Que, desgraçadamente para quem ocupa cargos públicos, mais uma vez é no palco e sob a batuta da comunicação social que se cava o fosso entre a política e os cidadãos;
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9. Que a confiança que os cidadãos têm nas instituições estatais continua a decrescer graças à inacreditável falta de competência, sensibilidade e formação política de pessoas que ocupam cargos públicos demasiado importantes na vida das pessoas;
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10. E que, consequentemente, há quem continue a contribuir para o atoleiro das mentalidades e do modus operandi da sociedade portuguesa em direcção a um terceiro-mundismo altamente preocupante.

Como evitar tudo isto? Era só e apenas ter informado, esclarecido e aconselhado os pais daquelas crianças... ATEMPADAMENTE!!!

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Movimento pela linha do Tua

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Sendo a experiência estética uma das mais gratificantes e profundamente constitutivas da nossa humanidade, de que somos capazes, e tratando-se a linha do Tua de um dos mais belos percursos ferroviários da Europa, então, além de valor patrimonial, pode, caso seja alvo de uma exploração profissional e sustentada, vir a ter um valor turístico ainda maior e vir a transformar-se, de facto, numa mais valia para o desenvolvimento económico da região.

No entanto, tal património regional, nacional e mundialmente valioso está a beira da destruição, devido à construção de mais uma barragem. Claro é, para todos, a importância vital futura de reservas aquíferas, tal como importante são as fontes geradoras de energia eléctrica. Nem uma nem outra das (únicas) razões para construir a barragem é, efectivamente, boa: aquela reserva de água não tem necessariamente que ser ali localizada, nem a produção de energia justifica o investimento!

Seria bom que se compreendesse profundamente o que se joga na construção de uma barragem, particularmente nesta!

Para conhecer e, sobretudo, sentir as razões do protesto contra a construção apressada e ilusória -- contra tudo e contra todos -- da barragem do Tua, não há, aliás, como serpentear as encostas do Tua, desde a sua foz, no Douro, até Mirandela (actual fim de linha)! Ou então, visite-se o site do movimento cívico pela linha do Tua VIVA.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Das Märchen, em Vila Flor!

Emmanuel Nunes acaba de ter uma merecida ovação no São Carlos pela sua excelente estreia no género operático. A sempre perturbadora estética musical de Nunes – perfeitamente enquadrada no genial aforismo de Brake «a arte serve para perturbar; a ciência assegura» – faz de Das Märchen, conjuntamente com uma adaptação muito bem conseguida do texto de Goethe e uma cenografia e encenação soberbas, uma obra belamente reveladora das dores e esperanças do ser humano.

Quanto à transmissão para outras salas, mesmo apesar das naturalmente óbvias limitações já aqui apontadas – e que se não conseguem esquecer de todo, embora acabem por ser atenuadas –, não foi muito má: a realização (creio que da RTP) estava sofrível, a transmissão pela TV Cabo dava para ver e, no caso do Auditório Municipal de Vila Flor, o som era audível. O balanço é, pois, positivo. No caso destas eminentes manifestações artístico-culturais, sempre vale a pena, quando as oportunidades são poucas e a vontade não é pequena.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

"Jarbas... manda ligar a água!"

"In memoriam"
(Linha do Tua, Agosto de 1997)
© Miguel Portugal

A febre das barragens, aduçada com uma calda de populismo para incautos e regada com uma já velha colheita de pseudo-dever cumprido na obra feita erguerá mais uma barragem. No caso, a da Foz do Tua. Mais uma vez, um conflito de valores em questão. Mais uma vez, a mesma teimosa incapacidade de ponderação. Em causa está, talvez sobretudo, um dos mais belos percursos ferroviários do mundo! (Para mais sobre o tema, neste blog, veja-se aqui.) Em causa está apenas uma das fontes de receitas mais limpa, de baixos custos e importantíssima para a região -- o turismo! Do outro lado dos argumentos, mais produção energética, cujo aumento, todavia, não parece ser suficientemente significativo para ombrear com o que se perde com a construção da barragem.

O curioso nesta história é que na margem direita do rio irrompeu já um estradão para a EDP e a Construtora Teixeira Duarte fazerem estudos geológicos para a implantação do paredão da barragem; e na margem esquerda, a Refer continua a investir nas obras de reabilitação da linha ferroviária do Tua, que, a ser construída a barragem (ainda não há decisão!), vai ficar parcialmente submersa! Sim, é no mesmo rio! E sim, é em Portugal. (Será que eles não se falam?!) O próprio Ministro do Ambiente já dá como certa a obra, curiosamente, mesmo antes de tomada a decisão quanto ao seu impacto ambiental! E tudo isto... com uma leviandade confrangedora!
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Compreende-se, pois, a indignação do autarca de Mirandela, o social-democrata Dr. José Silvano, que, tirante os membros das organizações ambientalistas, tem sido uma das poucas vozes criticamente lúcidas nesta matéria. Não se compreende é o silêncio, a este propósito, dos dirigentes do seu partido!

domingo, 26 de agosto de 2007

Mirandela, pedra sob pedra!







A “Princesa do Tua”, em plena "Terra Quente"(!) nordestina, acordou hoje com uma diluviana queda de granizo, que em poucos minutos penteou violentamente as árvores, cobrindo o chão de um trágico manto verde, e apedrejou os automóveis estacionados, estilhaçando vidros e amolgando imponentes carroçarias! As “pedras”, de dimensões inauditas (cerca de 6 cm de diâmetro!), fustigaram com igual ira a região agrícola, causando prejuízos gigantescos dada a elevada percentagem de perda de frutos na vinha, olival e amendoal.

Quando se esperava, nesta época estival, uma tórrida manifestação do global warming, as alterações climáticas surgem tal qual são: inesperadamente implacáveis! Eis o Homem – apesar da sua poderosa arma, que é o conhecimento científico – diante da Natureza... “desarmada”!

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Maternidade: do hospital para a beira de estrada!

É já o terceiro parto que um bombeiro voluntário de Mirandela auxilia no IP4, entre Mirandela e Vila Real. Encerrados os serviços permanentes de obstetrícia no Hospital de Mirandela, as parturientes da região têm que ser transportadas para Vila Real, acrescentando ao seu, por vezes, já longo trajecto, mais 60 kms., percorrendo, na totalidade, mais de uma centena de quilómetros, parte deles por estradas ainda características da interioridade transmontana!

Uma palavra, antes de mais, ao heroísmo dos bombeiros, que, além de transportarem pacientes também facilitaram, até agora com êxito, o nascimento daquelas crianças. Porém, não deve ser olvidado que se trata de um rude extrapolar das suas funções e competências, digno de nota! E, mais incrível, tal parece não ter suscitado grandes perplexidades junto das entidades responsáveis!

Ninguém contesta o incontestável: um parto por período nocturno é pouco, relativamente às despesas exigidas para manter o serviço em funcionamento. Mas ninguém, minimamente coerente do ponto de vista ético, compreende que a solução passe por arriscar a vergonha desse mesmo parto... a caminho da solução traçada pela tutela! O mesmo governo que se empenhou na despenalização da IVG e decide encerrar serviços hospitalares permamentes de obstetrícia, causa, à partida e no mínimo, algum desconforto ético. Mas pior é aquilo a que tenho apelidado, não sem alguma tristeza, de "terceiromundialização" do nosso país... e eis mais uma característica: há partos que deixaram de se realizar num hospital e estão agora a realizar-se (embora com a ajuda de soldados da paz de bravura talvez não muito vulgar) em beira de estrada!