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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Dar a pensar...

«O trabalhador que durante doze horas tece, fia, perfura, aperta, constrói, cava, parte pedras, carrega fardos, etc. – achará ele que estas doze horas a tecer, perfurar, apertar, construir, cavar, partir pedras, são uma manifestação da sua vida enquanto vida? Pelo contrário, para ele a vida começa quando esta actividade cessa, à mesa, na taberna, na cama.»
Karl Marx, Manuscritos de 1844, in: David McLellan (org.), Karl Marx: Selected Writings, 2.ª ed. (Oxford: Oxford University Press, 2000) 276.

«Na sociedade comunista, em que ninguém tem uma esfera exclusiva de actividade, mas antes cada um se pode realizar em qualquer ramo que deseje, a sociedade regula a produção geral e torna, portanto, possível que eu faça uma coisa hoje outra amanhã, caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado ao anoitecer, criticar depois de jantar, conforme me apeteça, sem nunca me tornar caçador, pescador, vaqueiro ou crítico.»
Karl Marx, A Ideologia Alemã, in: David McLellan (org.), o.c., 185.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010



Dar a pensar…


3.
«Um dos elementos constitutivos do espírito capitalista moderno, e não apenas deste, mas da própria cultura moderna, a conduta de vida racional baseada na ideia de profissão como vocação, nasceu – é o que esta exposição deveria provar – do espírito do ascetismo cristão. (…) Esta motivação radicalmente ascética do estilo de vida burguês (…) foi o que na sua sabedoria nos quis mostrar Goethe na sua obra Wanderjahre e no fim que deu ao seu Fausto. Para ele esta constatação significava a despedida de um período da humanidade pleno e belo, que na evolução cultural não voltará a repetir-se, como não se repetirá o florescimento ateniense clássico. O puritano queria ser um homem de profissão – nós temos de o ser. O ascetismo, ao ser transplantado das celas conventuais para a vida profissional, começou a dominar a ética secular e deu o seu contributo para a formação do poderoso cosmos da ordem económica moderna; esta, vinculada às condições económicas e técnicas da produção, com uma força irresistível, determina hoje o estilo de vida, não apenas da população activa mas de todos os indivíduos que nascem dentro desta engrenagem. E, provavelmente, isto poderá continuar a acontecer até que o último quintal de combustível fóssil seja queimado. (…) Ao mesmo tempo que se assistia à transformação e influência exercida pelo ascetismo sobre o mundo, estes bens superficiais adquiriram um poder crescente e depois irresistível, sobre os homens, como nunca antes aconteceu na História. Hoje, o seu espírito escapou-se dessa estrutura, quem sabe se para sempre. O capitalismo triunfante, após ter adquirido bases mecânicas, já não precisa desse apoio. E a boa disposição do iluminismo, o seu sorridente herdeiro, também esmoreceu. A ideia do “dever profissional” ronda pela nossa vida como um fantasma dos conteúdos religiosos do passado. Nos casos em que a “realização do dever profissional” não pode ser directamente ligada aos valores espirituais e culturais mais elevados – ou, ao contrário, quando tem de ser compreendida subjectivamente como uma coacção económica –, o indivíduo de hoje acaba por renunciar a qualquer tentativa de justificá-la. A procura de riqueza, no lugar de maior desenvolvimento – os Estados Unidos –, tende, despida do seu sentido ético-religioso, a associar-se a paixões competitivas, que lhe conferem não raro o carácter de desporto. Ainda ninguém sabe quem habitará essa estrutura vazia no futuro e se, ao cabo desse desenvolvimento brutal, haverá novas profecias ou um renascimento vigoroso de antigos pensamentos e ideais. Ou se, não se verificando nenhum deste dois casos, tudo desembocará numa petrificação mecânica, coroada por uma espécie de auto-afirmação convulsiva. Nesse caso, para os “últimos homens” dessa fase civilizacional, tornar-se-ão verdade as seguintes palavras: “Especialistas sem espírito, folgazões sem coração: estes nadas pensam ter chegado a um estádio da humanidade nunca antes atingido.”»

Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. port. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Lisboa: Presença/Ad Astra et Ultra S.A., 2010) 197, 198-9.

domingo, 22 de agosto de 2010



Dar a pensar…

2.
«Aquilo que a época religiosamente agitada do séc. XVII deixou à sua herdeira utilitarista foi sobretudo uma boa consciência – podemos dizer, tranquilamente, uma consciência farisaica – no que toca à aquisição de capital, desde que fosse adquirido legalmente. Qualquer resíduo do Deo placere vix potest tinha desaparecido. Tinha-se formado um ethos profissional especificamente burguês. Com a consciência de estar em estado de graça e com a bênção de Deus, o empresário burguês, no caso de se manter nos limites da correcção formal, de a sua acção ética não revelar manchas e de o seu uso da riqueza não ser inconveniente, podia (e era obrigado a) prosseguir os seus interesses económicos. O poder do ascetismo religioso fornecia-lhe, além disso, trabalhadores sóbrios, conscienciosos e invulgarmente aplicados que acreditavam firmemente ser o trabalho um fim designado por Deus. E dava-lhe ainda a certeza apaziguadora de que a distribuição desigual dos bens deste mundo era obra da divina Providência e que tanto essa distribuição como a atribuição da graça divina perseguia fins desconhecidos dos homens. Calvino já dissera, frequentemente, que o “povo”, isto é, a massa dos trabalhadores e artesãos, só na pobreza continuava obediente a Deus. Os holandeses (Pieter de la Court e outros) “secularizaram” esta ideia dizendo que a massa humana só trabalha se a necessidade a obrigar a isso, e esta formulação de um dos leitmotivs da economia capitalista levou depois à teoria da “produtividade” dos salários baixos. Também neste caso, a ideia utilitarista tomou o lugar da raiz religiosa (…).
(…)
(…) o trabalho honrado, mesmo mal pago, para aqueles a quem a vida não deu outra possibilidade, é uma coisa do profundo agrado de Deus. Neste aspecto, a ascese protestante não trouxe qualquer inovação. Mas não somente levou esta norma às últimas consequências, como criou a motivação psicológica que lhe conferia operacionalidade ao considerar que o trabalho profissional enquanto vocação [Beruf] constitui o meio mais adequado e, por vezes, o único, para obter a certeza da graça divina. Por outro lado, legalizou a exploração desta disposição para o trabalho, ao declarar o enriquecimento do empresário uma “profissão” vocacionada. A educação da igreja inculcava com especial intensidade nas classes desfavorecidas a ideia de que a salvação se obtinha exclusivamente pelo cumprimento do trabalho profissional e pela ascese rigorosa. Este facto desenvolveu a “produtividade” do trabalho no sentido capitalista da palavra. Tratar o trabalho como “vocação capitalista” tornou-se tão corrente para o trabalhador moderno como se tornou corrente para o empresário encarar dessa forma o enriquecimento.»

Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. port. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Lisboa: Presença/Ad Astra et Ultra S.A., 2010) 194-6.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010



Dar a pensar...


1.
«Há um aspecto (…) importante, a valoração religiosa do trabalho profissional incessante, continuado e sistemático como meio de ascese mais eficaz e igualmente como a maneira mais segura e visível de comprovar a regeneração dos homens e a veracidade da sua crença. Esta foi a alavanca mais poderosa da concepção de vida que designámos por “espírito do capitalismo”. E, se a par desta libertação do desejo de lucro pusermos a limitação do consumo, o resultado está à vista: a formação de capital através da coacção ascética à poupança.
(…)
O poder da concepção de vida puritana favoreceu sempre, nas zonas onde chegou – e isto é bem mais importante que o simples incremento da acumulação de capital – a tendência para conduta económica racional da burguesia. Foi o seu único suporte consequente e o principal, foi a ama-seca do homo oeconomicus moderno.
(…)
O significado destes poderosos movimentos religiosos para o desenvolvimento económico residia, em primeiro lugar, na sua acção educativa ascética. Só desenvolveram verdadeiramente toda a sua força económica (…) após superado o auge do entusiasmo puramente religioso, quando a aplicação na procura do reino divino se dilui gradualmente em sóbria virtude profissional e a raiz religiosa deu lentamente lugar a um utilitarismo terreno. Esse desenvolvimento só se deu quando (…), na fantasia popular, Robinson Crusoe, o homem económico isolado que paralelamente faz um trabalho de missionário, toma o lugar do peregrino de Bunyan, que percorre a “feira das vaidades” guiado por uma solitária procura interior, em busca do reino dos céus.»

Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. port. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Lisboa: Presença/Ad Astra et Ultra S.A., 2010) 190, 192, 193-4.

sábado, 1 de maio de 2010

Dia do trabalho

A palavra “trabalho” tem uma etimologia desastrosa: provém do latim tripalium, que significa “instrumento de tortura”. Ao lado das dores de parto e da política, o trabalho é, muitas vezes, vistos como um fardo para o ser humano – uma tortura!

O fardo é atenuado com a ideia de que se trata de um meio para atingir um fim maior – ganhar dinheiro. Primeiro, este dinheiro visa a subsistência. Depois, em última análise, o fim mais desejado – ganhar dinheiro, muito dinheiro, para se ser rico!

Porém, visto por estas perspectivas, o trabalho não é encarado com toda a sua essencial profundidade. E quando assim não é, também não é, tantas vezes, efectuado, levado a cabo, executado com toda a dedicação e empenho necessários. O ser humano é um ser de acção e o trabalho deveria ser encarado como acção humana. E com um fito maior, do que nos submetermos à tortura só para ganhar possibilidades de subsistência e, de preferência, de abastança – o trabalho é, antes de mais, uma forma de cooperação. A cooperação é o fundamento da vida social, já que a inter-relação proporciona uma sociedade organizada em torno de tarefas distribuídas de modo a cada cidadão poder usufruir de tudo aquilo que resulta da acção técnica, científica, artística, intelectual dos outros.
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E o trabalho visto como cooperação proporciona ainda outra coisa importantíssima para o ser humano – o trabalho pode ser uma forma de acção que realiza o ser humano enquanto ser humano e enquanto indivíduo. Como escreveu o filósofo espanhol Ortega y Gasset «felicidade es la vida dedicada a ocupaciones para las cuales cada hombre tiene singular vocación.» O trabalho pode e deve ser encarado, também, como fonte de prazer.

Num tempo de crise económica, o trabalho apresenta-se como fulcral. Os problemas sociais do desemprego avolumam-se. Mas os problemas das baixas taxas de produtividade e competitividade estão inegavelmente ligados à atitude do ser humano diante do trabalho. Deixar de encarar o trabalho como um fardo, que visa apenas a subsistência e mesmo a “sobressistência”, pode ser um primeiro passo no sentido de, empenhando-nos mais nas funções que cada um de nós exerce no sistema de acção cooperativo social, elevarmos o trabalho a acto de consumação de nós mesmo como seres humanos e como pessoas. Isso torna o dia do trabalho ainda mais importante do que o dia do trabalhador. Este tem uma carga ideológica; aquele teria um sentido mais aprofundado e que transcende qualquer manipulação política mais superficial, exibindo a verdadeira importância da acção humana informada técnica, científica, artística e intelectualmente, que é o trabalho.