segunda-feira, 23 de agosto de 2010



Fotografias...


Galerias Lafayette
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

Lojas para todos os gostos
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal


Os cafés
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal


Olympia
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

domingo, 22 de agosto de 2010



Dar a pensar…

2.
«Aquilo que a época religiosamente agitada do séc. XVII deixou à sua herdeira utilitarista foi sobretudo uma boa consciência – podemos dizer, tranquilamente, uma consciência farisaica – no que toca à aquisição de capital, desde que fosse adquirido legalmente. Qualquer resíduo do Deo placere vix potest tinha desaparecido. Tinha-se formado um ethos profissional especificamente burguês. Com a consciência de estar em estado de graça e com a bênção de Deus, o empresário burguês, no caso de se manter nos limites da correcção formal, de a sua acção ética não revelar manchas e de o seu uso da riqueza não ser inconveniente, podia (e era obrigado a) prosseguir os seus interesses económicos. O poder do ascetismo religioso fornecia-lhe, além disso, trabalhadores sóbrios, conscienciosos e invulgarmente aplicados que acreditavam firmemente ser o trabalho um fim designado por Deus. E dava-lhe ainda a certeza apaziguadora de que a distribuição desigual dos bens deste mundo era obra da divina Providência e que tanto essa distribuição como a atribuição da graça divina perseguia fins desconhecidos dos homens. Calvino já dissera, frequentemente, que o “povo”, isto é, a massa dos trabalhadores e artesãos, só na pobreza continuava obediente a Deus. Os holandeses (Pieter de la Court e outros) “secularizaram” esta ideia dizendo que a massa humana só trabalha se a necessidade a obrigar a isso, e esta formulação de um dos leitmotivs da economia capitalista levou depois à teoria da “produtividade” dos salários baixos. Também neste caso, a ideia utilitarista tomou o lugar da raiz religiosa (…).
(…)
(…) o trabalho honrado, mesmo mal pago, para aqueles a quem a vida não deu outra possibilidade, é uma coisa do profundo agrado de Deus. Neste aspecto, a ascese protestante não trouxe qualquer inovação. Mas não somente levou esta norma às últimas consequências, como criou a motivação psicológica que lhe conferia operacionalidade ao considerar que o trabalho profissional enquanto vocação [Beruf] constitui o meio mais adequado e, por vezes, o único, para obter a certeza da graça divina. Por outro lado, legalizou a exploração desta disposição para o trabalho, ao declarar o enriquecimento do empresário uma “profissão” vocacionada. A educação da igreja inculcava com especial intensidade nas classes desfavorecidas a ideia de que a salvação se obtinha exclusivamente pelo cumprimento do trabalho profissional e pela ascese rigorosa. Este facto desenvolveu a “produtividade” do trabalho no sentido capitalista da palavra. Tratar o trabalho como “vocação capitalista” tornou-se tão corrente para o trabalhador moderno como se tornou corrente para o empresário encarar dessa forma o enriquecimento.»

Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. port. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Lisboa: Presença/Ad Astra et Ultra S.A., 2010) 194-6.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010



Fotografias...


Musée du Louvre
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

Centre George Pompidou
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

Musée d'Orsay
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

quinta-feira, 19 de agosto de 2010



Dar a pensar...


1.
«Há um aspecto (…) importante, a valoração religiosa do trabalho profissional incessante, continuado e sistemático como meio de ascese mais eficaz e igualmente como a maneira mais segura e visível de comprovar a regeneração dos homens e a veracidade da sua crença. Esta foi a alavanca mais poderosa da concepção de vida que designámos por “espírito do capitalismo”. E, se a par desta libertação do desejo de lucro pusermos a limitação do consumo, o resultado está à vista: a formação de capital através da coacção ascética à poupança.
(…)
O poder da concepção de vida puritana favoreceu sempre, nas zonas onde chegou – e isto é bem mais importante que o simples incremento da acumulação de capital – a tendência para conduta económica racional da burguesia. Foi o seu único suporte consequente e o principal, foi a ama-seca do homo oeconomicus moderno.
(…)
O significado destes poderosos movimentos religiosos para o desenvolvimento económico residia, em primeiro lugar, na sua acção educativa ascética. Só desenvolveram verdadeiramente toda a sua força económica (…) após superado o auge do entusiasmo puramente religioso, quando a aplicação na procura do reino divino se dilui gradualmente em sóbria virtude profissional e a raiz religiosa deu lentamente lugar a um utilitarismo terreno. Esse desenvolvimento só se deu quando (…), na fantasia popular, Robinson Crusoe, o homem económico isolado que paralelamente faz um trabalho de missionário, toma o lugar do peregrino de Bunyan, que percorre a “feira das vaidades” guiado por uma solitária procura interior, em busca do reino dos céus.»

Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. port. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Lisboa: Presença/Ad Astra et Ultra S.A., 2010) 190, 192, 193-4.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010


Fotografias...

La Bibliothéque François Mitterand
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

La Bastille
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal


La Seine
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

La Concorde
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

La Madeleine
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

L'Opera
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal


La Seine
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal


Notre Dâme
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

La Seine
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

Champs Elysées
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

Tour Eiffel
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

Olympia
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

sexta-feira, 6 de agosto de 2010



Fotografias...



“Veleiro com três gaivotas”
(Algar Seco, Julho 2010)
© Miguel Portugal


“Gaivota”
(Algar Seco, Julho 2010)
© Miguel Portugal


“Jump”
(Algar Seco, Julho 2010)
© Miguel Portugal



“Raio violeta”
(Praia da Coelha, Julho 2010)
© Miguel Portugal

“Falésia dourada”
(Praia da Coelha, Julho 2010)
© Miguel Portugal

“Árvore translúcida”
(Praia do Carvoeiro, Julho 2010)
© Miguel Portugal

segunda-feira, 12 de julho de 2010



Dar a pensar…

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«(…) o ganho de dinheiro, e de cada vez mais dinheiro, com a mais estrita abstenção de todos os prazeres simples, tão completamente despido de todas as perspectivas eudemonistas ou mesmo hedonistas é de tal modo considerado [no “espírito do capitalismo” do séc. XIX] um objectivo em si que em comparação com a “felicidade” ou o “proveito” do indivíduo parece algo de completamente transcendente e puramente irracional. O ganho é considerado como objectivo da vida do homem e já não como meio de satisfazer as suas necessidades materiais. Esta inversão dos factos “naturais”, se assim lhes quisermos chamar, sem sentido para uma sensibilidade simples, é manifestamente um leitmotiv do capitalismo, que se mantém alheio aos homens que não são movidos por ele. Mas, simultaneamente, ela encerra uma série de sentimentos que têm muito a ver com certas concepções religiosas. Com efeito, ao colocar-se a questão de saber por que deve “o homem fazer dinheiro”, responde Benjamin Franklin (…), na sua autobiografia, com uma citação da Bíblia (…): “Se vires um homem activo na sua profissão, ele tem a dignidade dos reis” [Sal., c, 22, v. 29]. O ganho de dinheiro é – na medida em que se processar dentro de formas legais – na ordem económica moderna o resultado e a expressão da capacidade profissional (…).

Com efeito, esta ideia particular, tão corrente nos nossos dias e, em boa verdade, tão pouco evidente do dever profissional (Berufsplicht) (…) é própria da “ética social” da cultura capitalista, tendo para ela, em certo sentido, um significado constitutivo fundamental. (…) A ordem económica capitalista dos nossos dias é um universo de grandes proporções, que os indivíduos encontram ao nascer, e que constitui para cada um deles, pelo menos enquanto indivíduo, um contexto que não se pode modificar e onde se terá de viver. Este cosmos impõe ao indivíduo, na medida em que se encontra inserido nas relações de mercado, as normas da sua acção económica. O fabricante que desrespeite reiteradamente estas normas é economicamente eliminado, tão infalivelmente como o trabalhador que a elas não possa adaptar-se ou que não o queira fazer é posto na rua, passando à situação de desempregado.

O capitalismo, que conseguiu nos nossos dias o domínio da vida económica, educa e cria assim, pela selecção económica, os sujeitos económicos – empresários e trabalhadores – de que necessita.

Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. port. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Lisboa: Presença/Ad Astra et Ultra S.A., 2010) 51-53.


Fotografias...


“Rio castanho #1”
(Mirandela, Julho 2010)
© Miguel Portugal



“Rio castanho #2”
(Mirandela, Julho 2010)
© Miguel Portugal

quinta-feira, 8 de julho de 2010


Leituras…

…do clássico (já com mais de um século) Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. port. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Lisboa: Ad Astra et Ultra, SA, 2010), obra funda-mental da sociologia e indispensável para compreender esse ethos, que nos forma ainda a vida, do capitalismo moderno.

O problema de que parte Weber é o de saber porque razão o capitalismo moderno se desenvolveu nos países protestantes e não tanto nos católicos. A sua tese é a de que há uma essencial relação entre o “espírito do capitalismo” e aspectos religiosos puros, que originaram a ética protestante e fizeram com os países em que dominava esta confissão religiosa tivessem superado os países católicos em desenvolvimento económico. O capitalismo moderno não aconteceu por questões meramente financeiras – v.g., um maior afluxo de dinheiro –, nem foi engendrado por «especuladores aventureiros e sem escrúpulos», como sempre houve em todas as épocas, mas sim porque um novo espírito (“espírito do capitalismo”) orientou a acção de homens devotos: «pelo contrário, foram homens educados na dura escola da vida, simultaneamente ponderados e audaciosos, mas sobretudo sóbrios e perseverantes, perspicazes e inteiramente dedicados à sua actividade, professando concepções e “princípios” rigidamente burgueses.» (p. 67)

A originalidade da tese de Weber consiste em afirmar que estas qualidades pessoais têm uma origem religiosa, no protestantismo, cuja consequente ética conduziu a um ascetismo secular (transformações essas integradas no processo de secularização, que Weber cunhou como “desencantamento do mundo”), ao contrário da ética católica que afastou o homem do mundo e o colocou no Além e via a acção profissional como algo de mundano e, portanto, afastado da graça. O protestante acreditava que, para agradar a Deus, glorificando-o, e atingir a salvação com a segurança da certitudo salutis, teria que responder ao seu calling / Beruf (“vocação”, “vocação profissional” ou “profissão enquanto vocação”), trabalhando árdua, constante e, sobretudo, eficazmente, cumprindo o seu “dever profissional” e gerando dinheiro, dentro dos limites da lei. Mas não sem escrúpulos, nem com o intuito de o esbanjar, evitando o consumismo, pois o puritanismo ascético das seitas protestantes (calvinismo, pietismo, metodismo, baptismo) implicava uma disciplina rigorosa que afastava o homem dos prazeres da carne, do luxo ou da simples fruição e acumulação de bens materiais.

Portanto, o que começou por ser uma disciplina férrea com o fito da salvação eterna deu lugar a uma organização sócio-económica racionalista, geradora de recursos possibilitadores de uma vida de bem-estar para a maioria, sobremaneira nos países mais ricos do norte da Europa e E.U.A., cujos indivíduos abraçaram uma ética protestante que valorizava o trabalho empenhado, esforçado e de qualidade.

A tese weberiana tem sido, naturalmente, muito discutida e até posta em causa. De qualquer modo, constitui actualíssima leitura em tempo de crise económica. Sobretudo, parece-me importante reflectir neste ethos capitalista: a inevitabilidade de viver sob uma sociedade liberal e capitalista não deverá incutir no indivíduo uma séria procura da sua vocação e um espírito de missão, um redobrado cuidado na forma como exerce (com qualidade) a sua profissão, que é uma forma de cooperar com os outros e, com os outros, tornar possível, gerando e gerindo recursos, uma vida melhor para todos? O capitalismo pode até não ser uma inevitabilidade. Mas talvez seja, globalmente, o menos ineficaz dos sistemas económicos para possibilitar uma vida melhor para todos e, portanto, talvez não seja mau ou sequer desumano – se adequadamente compreendido.

sexta-feira, 2 de julho de 2010



Dar a pensar…

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«Lembra-te que – como diz o ditado – um homem de boas contas é senhor da bolsa alheia. Quem for conhecido por pagar as suas contas pontualmente pode a todo o momento pedir emprestado todo o dinheiro que os amigos possam dispensar.

Isso pode ser de grande utilidade. A par do trabalho árduo e da frugalidade, nada contribui tanto para que um jovem vença na vida como a pontualidade e a rectidão em todos os seus negócios. Por isso, não conserves o dinheiro que te foi emprestado nem mais uma hora para além do prazo a que te comprometeste, para que o ressentimento do teu amigo não faça que ele te feche a bolsa para sempre.

Um homem não pode negligenciar que as mais pequenas acções têm influência sobre o seu crédito. Se o teu credor ouvir as pancadas do teu martelo às cinco horas da manhã ou às oito da noite, ficará descansado durante seis meses; mas, se te vir à mesa do bilhar ou ouvir a tua voz na taberna quando devias estar a trabalhar, então irá reclamar-te o pagamento na manhã seguinte e exigir o teu dinheiro antes que o tenhas à tua disposição.

Isso mostra também que pensas nas tuas dívidas, permitindo que te reveles um homem tão escrupuloso quanto honesto, o que aumentará o teu crédito.
(…)
Tem o cuidado de não considerares como tua propriedade tudo o que possuis e de não viveres segundo este princípio. Muitas pessoas que têm crédito caem neste erro. Para o evitar mantém uma contabilidade exacta das tuas despesas e rendimentos. Se te deres ao trabalho de atender aos pormenores, isso terá consequências benéficas: descobrirás como pequenas despesas podem crescer, atingindo grandes somas, e verás o que poderia ter sido poupado e o que no futuro poderá sê-lo.»

Benjamin Franklin, “Advice to a young tradesman” (1748), in: Works, org. Sparks (Chicago, 1882) 85-89.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Errância política

A esmagadora maioria dos accionistas da PT votou favoravelmente diante da choruda oferta da telefónica pela Vivo. José Sócrates fez accionar a “bomba atómica”: o Estado impediu, através da sua “golden share”, o negócio. Sócrates alega "interesse nacional", para esta interferência, no mínimo discutível, no mercado. Se bem que a Vivo representa cerca de 40% das receitas da PT, também é relevante o facto deste encaixe financeiro poder resolver o problema das dívidas da PT e o problema da grande dificuldade de acesso ao crédito por falta de liquidez dos bancos.

A reacção internacional é claramente reprovadora da “mão demasiado visível” do governo de Sócrates, com o Financial Times à cabeça na crítica mais contundente:
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Com este veto político do Estado, José Sócrates só precipita a PT – o que, pelos vistos, não irá contra o dito "interesse nacional" – para o risco de sofrer uma OPA da Telefónica!

Isto revela que Sócrates, na ausência de ideias claras sobre a forma mais equilibrada de combater a crise económica e financeira, decide atrapalhadamente por uma espécie de economia planificada, bem ao jeito socialista (para não dizer comunista), disfarçada de mão reguladora e supostamente interessada num difuso "interesse nacional". Quando o Estado interfere desta forma na liberdade do mercado só se vislumbra uma de duas coisas: ou o negócio era escuso e inequivocamente lesivo do interesse nacional ou o Estado, com este governo ao leme, gosta de controlar as grandes empresas e a economia, muito para além do desejável, pois não é nada benéfico para a confiança dos investidores. Não sei porquê, mas parece mais plausível a segunda hipótese.

Homossexualidade. 6. Contra os valores da família?

Um último argumento poderoso contra a permissibilidade ética da homossexualidade é o de que esta põe em causa os valores da família. A família é uma instituição social composta por dois progenitores e respectiva prole, em que os primeiros têm, para além da função reprodutora, uma função educativa determinante na vida dos segundos. Segundo este argumento, dois homens ou duas mulheres não poderão constituir uma família equilibrada – a homossexualidade colocaria em causa o valor da família, tal como, nesta linha de pensamento, o aborto, a pornografia, o adultério ou o divórcio, já que provocariam alterações estruturais, que, aos olhos de muitos, afectariam profundamente a estrutura e, concomitantemente, o valor desta fundacional instituição social.

No entanto, os activistas defensores dos direitos dos homossexuais propõem, precisamente, que sejam alargados aos homossexuais os direitos socialmente reconhecidos de constituírem família, através do casamento, da adopção ou da fecundação medicamente assistida. O contra-argumento é o de que os valores da família seriam, isso sim, reforçados, dadas as maiores possibilidades de constituição desta instituição social.

De qualquer modo, resta um problema relativo à educação dos filhos. Sabemos, através da Psicologia, que as crianças aprendem através da observação e imitação de modelos. Os papéis sociais de homem e mulher, como os papéis sociais inerentes às várias actividades profissionais são aprendidos por observação e imitação. Uma das questões que se podem levantar é a de que uma rapariga que crescesse no seio de um casal constituído por dois homens não teria um modelo feminino pelo qual apreender a feminilidade e o mesmo poderia acontecer com um rapaz que crescesse numa família constituída por duas mulheres (seria privado do modelo masculino do pai).

Esta parece ser a única objecção realmente importante à permissibilidade ética da homossexualidade por via dos valores da família: a família homossexual talvez não fosse uma estrutura familiar perfeita para as crianças. Mas ainda assim se poderia dizer que há muitas outras situações em que as circunstâncias familiares não são as ideias para as crianças. No caso, por exemplo, da fecundação medicamente assistida, os constrangimentos éticos que se levantam para um casal homossexual são praticamente os mesmos que se colocam para um casal heterossexual. Por isso, não há razões para tratar estes casos de modo diferenciado. E, no caso específico da adopção, podemos legitimamente pensar que seria realmente melhor para uma criança, do ponto de vista do seu desenvolvimento psicológico, crescer no seio de uma família constituída por um casal homossexual do que numa instituição de acolhimento, com todos os seus problemas característicos.

Há outras objecções muito comuns contra a permissibilidade ética da homossexualidade, com base nos valores da família, que, contudo, não têm fundamento racional. A mais comum, sobretudo em meios mais fundamentalistas religiosos, é a de que a homossexualidade é condenada na Bíblia: «Não podes deitar-te com homem como com mulher; é uma abominação.» (Levítico, 18:22). Muitos comentadores referem que esta e outras passagens da Bíblia não são assim tão severas para com a homssexualidade, se forem devidamente interpretadas. Além disso, o mesmo Levítico prescreve comportamentos que são hoje, aos olhos da nossa racionalidade, manifestamente arbitrários (v.g., proíbe a ingestão de gorduras, 7:23; proíbe uma mulher de ir à missa até 42 dias depois de dar à luz, 12:4-45; proíbe-nos de ver o nosso tio nu, o que considera uma abominação, 18:14,26; a barba deve ter uma forma quadrada, 19:27; entre outros).

Mas a questão mais fundamental nem é essa. A questão é a de que uma acção não pode ser considerada eticamente correcta ou incorrecta simplesmente porque alguém o diz ou algum livro, por muito importantes que o sejam, o prescreve. Se o que alguém diz ou o que, neste caso, está escrito na Bíblia não é arbitrário, então deve haver boas razões para o aceitarmos. Caso contrário, estaríamos a incorrer na chamada falácia de autoridade – argumento que nos faz aceitar a verdade de uma tese apenas porque foi defendida por uma suposta autoridade.

Assim, muitos argumentos são normalmente invocados para defender a impermissibilidade ética da homossexualidade, mas muito poucos expressam efectivamente boas razões para aceitarmos tal ideia. Mesmo os mais importantes – o de que a homossexualidade é contrária à natureza e o de que vai contra os valores da família –, apresentam fortes debilidades, quando não é clara a definição daquilo que seria conforme a natureza, nem como pode a homossexualidade contrariar, mais do que outras práticas menos atacadas, os valores da família. A não ser o argumento de que as crianças (mesmo adoptadas) poderão sofrer uma interferência menos adequada ao seu desenvolvimento psicológico harmonioso se crescerem no seio de uma família de homossexuais, dada a ausência do modelo feminino ou masculino, não se vê quaisquer outras boas razões para não admitir, como perfeitamente plausível, a permissibilidade ética da homossexualidade.
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Fontes (para tudo):
James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, trad. port. F. J. Azevedo Gonçalves (Lisboa: Gradiva, 2004) 71-75.
Robert Feldman, Compreender a Psicologia, trad. port. Luís M. Neto et al. (Lisboa: McGraw-Hill, 2001) 361-397.
Brent Pickett, "Homosexuality", Stanford Encyclopedia of Phylosophy

quarta-feira, 30 de junho de 2010



Dar a pensar…


«Lembra-te de que o tempo é dinheiro. Quem pode ganhar com o seu trabalho dez xelins por dia e vai passear metade do dia, ou fica a preguiçar no quarto, não pode, mesmo se despender apenas seis dinheiros, com os seus prazeres, contar apenas esta despesa, pois acabou, na realidade, por gastar, ou melhor, por deitar fora mais cinco xelins.
(…)
Lembra-te que o crédito é dinheiro. Se alguém me deixar ficar com o seu dinheiro depois da data em que eu teria de lho pagar, está a oferecer-me os juros ou tudo o que ele me tiver rendido durante todo esse tempo. Isso ascenderá a um montante significativo quando alguém tem um bom crédito e faz um bom uso dele.
(…)
Lembra-te que o dinheiro tem uma natureza reprodutora e fecunda. O dinheiro pode reproduzir dinheiro, que, por sua vez, produzirá mais dinheiro, e assim sucessivamente. Cinco xelins a render transformam-se em seis, e depois em sete e três dinheiros, e assim por diante, até se transformarem em cem libras esterlinas. Quanto mais dinheiro houver mais ele rende, de tal modo que o lucro aumenta cada vez mais rapidamente. Quem mata uma porca aniquila a sua descendência até à milésima geração. Quem destrói uma moeda de cinco xelins, assassina (!) tudo o que poderia ter sido produzido com ela: pilhas e pilhas de libras esterlinas.»

Benjamin Franklin, “Advice to a young tradesman” (1748), in: Works, org. Sparks (Chicago, 1882) 80-85.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

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Leituras…

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… de Pedro González Calero, A Filosofia com Humor. Um percurso pela história do pensamento nos ditos dos grandes filósofos, trad. port. de Pedro Vidal (Lisboa: Planeta Manuscrito, 2009), uma fresca resenha de pequenas histórias humorísticas dos e sobre os filósofos ao longo da história, em que o autor nos mostra como a filosofia não é necessariamente entediante e pode até ser o humor dos filósofos uma oportunidade de pensar os temas mais sérios.
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O livro, desafiador das convenções académicas em torno da seriedade da filosofia, conduz-nos desde a Antiguidade clássica, em que, por exemplo, se conta «que Antístenes, no final dos seus dias, doente e com dores, lamentava-se em voz alta da sua situação ao seu discípulo Diógenes. – Ai, quem me livrará destes males – bramava o velho Antístenes. Ao que diógenes, apresentando um punhal, replicou: – Este livrar-te-á, mestre. – Dos males, estúpido, não da vida – retorquiu Antístenes» (p. 39), até às enigmáticas deduções lógicas de Bertrnad Russell, de que ele e o Papa são a mesma pessoa (!) (p. 148-150), passando pela altamente sarcástica crítica que Schopenhauer faz da “suposta” profundidade do pensamento hegeliano:

«Sobre a suposta sabedoria de Hegel disse Schopenhauer que não passava de uma palhaçada filosófica, um palrar repugnante, um obscuro encadeamento de insensatezes e disparates que muitas vezes recordam os delírios dos alienados. No seu Parega e Paralipomena, escreveu: “Se se quiser embrutecer desde cedo um jovem e torná-lo incapaz de qualquer ideia, não há meio mais eficaz do que o assíduo estudo das obras originais de Hegel; porque essa monstruosa acumulação de palavras que se chocam e contradizem de modo a que o espírito se atormenta inutilmente tentando pensar alguma coisa enquanto as lê, até ficar cansado e murchar, aniquila nele paulatinamente a faculdade de pensar de modo tão radical que, a partir daí, passam a ter valor de pensamentos as flores retóricas insípidas e vazias de sentido (…). Se alguma vez um preceptor temer que o pupilo se torne demasiado sagaz para os seus planos, poderá evitar essa desgraça com o estudo assíduo da filosofia de Hegel.”» (p. 125)
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Uma nota final para as óptimas ilustrações dos principais filósofos, que preenchem o livro e de que é exemplo a de Nietszche, usada na capa, da autoria de Anthony Garner.

Em tempo de crises várias, há leituras esclarecedoras, mas também benfazejamente espirituosas, como esta, que nos ajudam a sobreviver.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago (1922-2010)

A morte de um génio, neste caso da literatura, é sempre a morte de alguém especial. Um escritor é, enquanto artista, criador, alguém que personifica a rara grandeza do ser humano. Um escritor é, por isso, especial -- um membro destacado da espécie.
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Saramago foi, de facto, especial (veja-se notícia no i). Ombreando com os grandes escritores da história da literatura lusa e até mundial, Saramago foi também um homem contundentemente crítico, ideologicamente incómodo, politicamente provocador, socialmente transgressor, que não podia mesmo deixar ninguém indiferente e que, sobretudo, não se deixou indiferente face ao mundo e na sua existência nele.
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É claro que, como qualquer expoente da cultura humana, não foi, muito naturalmente, sempre ou totalmente devidamente compreendido e bem recebido pelos outros, sobretudo pelos seus concidadãos, de um país, porque querido, tantas vezes criticado. Muitos desabaram, aliás demasiado simples e mundanamente, diante das suas provocações e pensamentos e não souberam reconhecer-lhe, desinteressadamente, o valor artístico.
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Mas como tentativa de prescrutar a condição humana, a escrita saramaguiana tocou e continuará a tocar com certeza todos aqueles que, independentemente de posições ideológicas e gostos estéticos diversos, souberam sentir a originalidade da sua forma literária, a profundidade das suas ideias-tentativa, a beleza inquietante e nua das suas viagens pelo imaginário português e pelas mais profundas dúvidas humanas.
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Saramago -- homem íntegro, descomprometido com as coisas banais, comprometido com (as suas) causas -- foi, como outros, único. Que se lho reconheça.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A autoridade educativa em questão

No passado dia 6 de Maio, em Paris, decorreu uma conferência na Fundação para a Parentalidade e a Prevenção, organizada pela Missão para a Luta contra a Droga e a Toxicodependência (MILDT), em que o filósofo Dominique Youf discutiu o problema da autoridade parental. Youf, Director de Pesquisa da Escola Nacional de Tutela Jurisdicional dos Jovens, começou por apresentou uma história da autoridade parental. Antes, a família era hierarquizada, com base na natureza ou nos mandamentos divinos. Para ilustrar esse modelo, Dominique Youf referiu-se à distinção entre sociedade nacional e sociedade política, que Aristóteles faz na sua Política (I, 7): «A administração de uma casa é uma monarquia (a família ainda está sob a autoridade), enquanto o poder político em si é um governo de homens livres e iguais.» Este poder paternal dominou por muito tempo o pensamento ocidental em termos de autoridade paternal , da lei romana ao Código de Napoleão, por exemplo.

«Esta autoridade desapareceu, diz Youf, porque era incompatível com o princípio da igualdade.» Hoje é mais difícil ser pai, porque não existe mais esta autoridade transcendente das antigas sociedades hierarquizadas. Na esteira das revoluções democráticas na Europa, este poder parental começa a ser questionado: durante a segunda metade do séc. XX, este modelo sofreu uma «ruptura antropológica».
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No entanto, Youf defendeu, baseado no conceito de educação em Hannah Arendt, que «a autoridade parental é legítima, porque a criança entra num mundo que lhe é anterior e do qual não conhece as regras». Naturalmente que a figura do guia substitui a do comandante. «O mais surpreendente, conclui Youf, é que ele funciona.»

A questão da autoridade é tão central quão difícil hoje, na filosofia da educação. A prática educativa disso se tem ressentido. Se, por um lado, não se pode mais fundar a autoridade educativa em qualquer transcendência, secular ou divina, também parece ser verdade que o modelo rousseauniano, que tem desconstruído a autoridade, não tem conseguido fundar uma ideia que se quer renovada de autoridade, tem desnorteado a acção educativa e não parece constituir resposta aos problemas da educação nas sociedades contemporâneas. Afinal, a ideia de Arendt, de que se deve distinguir essencialmente o âmbito da igualdade política na sociedade dos adultos livres e responsáveis, do âmbito da educação das crianças aprendizes de seres livres e iguais, mostra como a relação pedagógica, strictu sensu, necessita de uma relação minimamente hierarquizada de autoridade. Esta relação deve ser, naturalmente, discutida, racionalizada, mas apenas crescentemente partilhada.
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A autonomia e a liberdade constroem-se na criança sob a orientação do adulto; não nascem com a criança, que o adulto dominaria -- equívoco talvez maior da educação contemporânea.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Ilusionismo em tempo de crise

Para os alunos com mais de 15 anos, que se encontrem no 8.º ano de escolaridade, foi dada a possibilidade, pelo ME, de se autoproporem, com consentimento dos encarregados de educação, aos exames nacionais do 9.º ano de Português e Matemática e a provas de equivalência à frequência efectuadas pelas escolas às restantes disciplinas do curriculum do 9.º ano. Se passarem nos exames, passam directamente para o 10.º ano de escolaridade. (Veja-se notícia no jornal i).

Ninguém percebe a oportunidade da medida, o que já não é nada, sequer, de muito estranho, dada a situação de desmembramento subtil e depauperamento disfarçado de igualdade de oportunidades do sistema educativo em Portugal, quando se trabalha unicamente a pensar nas estatísticas.
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Os argumentos contra esta medida são claros:

1. Primeiro, não se vê a oportunidade da medida, já que os alunos que frequentam ainda o 8.º ano aos 15 anos de idade apresentam certamente mais dificuldades de aprendizagem e, por isso, será difícil, à partida, superarem essas provas com êxito (Pedro Araújo, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares).

2. Depois, os alunos que através desta nova modalidade conseguirem queimar a última etapa do 3.º ciclo e chegar ao 10.º ano correm ainda o risco de não estarem, naturalmente, tão bem preparados como os restantes alunos que passaram por todos os níveis da escolaridade obrigatória (João Grancho, dirigente da Associação Nacional dos Professores).

3. Mas, o mais importante, é que se trata de uma medida claramente injusta: aos alunos que completarem o 8.º ano com sucesso exige-se que transitem para o 9.o ano e aos alunos que não obtiveram aproveitamento curricular ao longo do ano lectivo abre-se a possibilidade de, após fazerem as provas nacionais e de equivalência à frequência, saltarem uma etapa e passarem à frente dos outros colegas. Segundo Armandina Soares (membro do Conselho Nacional de Educação), «isso significa que os que trabalharam pior são mais beneficiados do que os que se esforçaram na avaliação continua»; naturalmente que, à partida – prossegue a directora do agrupamento de Vialonga – é muito improvável que um aluno do 8.o ano sem aproveitamento durante as aulas consiga realizar com sucesso as provas que exigem o domínio dos programas curriculares do 9.o ano de escolaridade: «mas só o facto de se permitir aos que estão em piores condições passarem à frente de outros que trabalharam ao longo do ano é algo que não consigo perceber». Ninguém de bom senso e com um sentido claro de justiça e oportunidade política consegue perceber!

Será uma medida… à medida? Não se vislumbra outra justificação. A não ser... isto é o governo socialista de José Sócrates a resolver os verdadeiros problemas da educação em Portugal!

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Incompatibilidades

«A única razão para limitar a liberdade de alguém é a prevenção do dano que possa causar a outrem»
(John Stuart Mill)

Um dos pilares fundamentais das sociedades democráticas liberais é a liberdade do indivíduo. O estado existe para, através das suas leis e instituições (polícias, tribunais, hospitais, escolas…), promover a segurança, o bem-estar e permitir o desenvolvimento humano do indivíduo. O indivíduo é livre quando lhe é permitido agir de forma autónoma, quando pode fazer aquilo que deseja, aquilo que escolheu fazer, mesmo que os outros não concordem com tal escolha. Mas essa liberdade deve ser igual para todos. Por isso, a organização política do estado moderno democrático e liberal é, em geral, orientada pelo princípio do dano: a liberdade do indivíduo só deve ser limitada se e quando causar dano a outros indivíduos.

A cidade de Mirandela estremeceu com um caso polémico, que animou o país. Uma professora do 1.º ano do Ensino Básico, responsável por uma actividade extra-curricular, posou para a revista erótica “Playboy”. A revista esgotou. Ao que parece não tanto pela qualidade excepcional das fotografias, por muito bons exemplares que sejam da arte, mas porque pais e alunos identificaram imediatamente a professora, que exibia a sua beleza íntima e os seus dotes sedutores. Os pais não gostaram e direcção da escola também não. A Câmara Municipal suspendeu a actividade da professora e colocou-a noutro serviço.

A questão que se levanta é a seguinte: Será correcto dispensar uma professora pelo exercício de uma actividade realizada no âmbito da sua esfera privada? Terá a sua livre escolha causado dano a outros? Creio que sim.

A mulher que posou para a revista “Playboy” não era, por exemplo, uma funcionária administrativa de uma empresa de consultoria económica e financeira, nem uma empresária do ramo da publicidade, não era actriz ou modelo fotográfico… Exercia a função de professora numa escola pública. Tinha uma actividade pública, que interfere directamente com outras pessoas, neste caso com pessoas especiais – crianças.

Sejamos claros: o erotismo presente nas fotografias em causa está, mesmo que indirectamente, muito facilmente ligado à sexualidade humana. A sexualidade humana é algo de bom, com valor; mas, por isso, devemos cuidar bem dela. Quer dizer que devemos ter todos os cuidados que empregamos para as coisas que mais valorizamos. Porém, tanto quanto sabemos, através dos conhecimentos da Psicologia humana, a sexualidade é um comportamento complexo, que não se esgota no funcionamento do aparelho reprodutor e funcionamento glandular, mas envolve sentimentos e emoções fortes, profundas e de grande significado para o ser humano e, além disso, implica um desenvolvimento cerebral e uma maturidade próprios de um ser humano mais adulto. Tanto quanto sabemos, as crianças não detêm um desenvolvimento psicológico e emocional suficientemente adaptado a este tipo de comportamento tão intenso e psicológica e socialmente complexo. É por isso que a sensualidade, o erotismo e a sexualidade têm sido (quando o são!) inteligentemente vedados às crianças até uma certa idade.

Naturalmente que se pode falar com uma criança em idade escolar sobre certos aspectos da sexualidade humana. Têm, no entanto, que ser aspectos muito elementares e feito de modo muito específico e contextualizado, o que não inclui certamente qualquer tipo de exibicionismo. A professora em questão e aqueles que julguem que a sua acção não deve ser reprovada terão que mostrar que seria fácil e inofensivo para o seu desenvolvimento psicológico explicar àquelas crianças o significado da sua professora ter sedutoramente posado nua em fotografias vistas talvez por milhares de pessoas.

Além disso, sabemos, também recorrendo à Psicologia, que as crianças na idade escolar aprendem por observação e imitação de modelos. Os modelos começam por ser, sensivelmente até à adolescência, pais e professores. Estes agentes de socialização devem, pois, ter os devidos cuidados nas suas atitudes e comportamentos, pois serão imitados. Um professor é um técnico do ensino e da aprendizagem, o que significa que, mais do que os próprios pais, deve ter um conjunto de conhecimentos científicos e técnicos que o torne capaz de exercer a sua actividade de educador e professor de modo a influenciar o mais positivamente possível os seus alunos e a minimizar o mais possível qualquer previsível interferência negativa no seu desenvolvimento, que deve, portanto, ser o mais harmonioso, equilibrado e incontroverso que nos é dado saber ser possível.

Um professor deve, pois, ter conhecimentos seguros de psicologia adequados ao nível etário dos alunos que ensina. Como deve saber também que a sua vida privada pode facilmente interferir, graças à natureza da sua profissão, na sua vida pública.

Portanto, não é em defesa dogmática de um conjunto de valores, hábitos ou costumes supostamente absolutos ou intocáveis, que este comportamento não deve ser admissível. Não há nisto qualquer conservadorismo; há apenas incompatibilidades. Trata-se, pois, de defender uma sociedade de pessoas livres e iguais, organizada num estado verdadeiramente democrático e liberal: é para manter a maior liberdade possível para todos, que a liberdade de cada um tem, irremediavelmente, que ter limitações.

Este caso mostra, infelizmente, algumas lacunas preocupantes. Primeiro, mostra como a formação ética e política para a cidadania de pessoas que foram à escola, que têm pleno acesso à informação, que pretendem habitar uma sociedade moderna e viver em liberdade, não é suficiente para compreender as complexas exigências da verdadeira liberdade e igualdade, do pluralismo e da vida razoável com outros. Depois, mostra como alguma formação inicial de professores talvez não esteja isenta de lacunas graves ao nível dos conhecimentos científicos hoje disponíveis. Os licenciados (agora mestres!) em ensino devem saber, entre outras coisas, como se comporta uma criança, como se desenvolve, quais as suas características psicológicas gerais... Um bom professor é, antes de mais, alguém que sabe. Infelizmente, alguns professores, embora não todos, mostram, por algumas práticas, não saber. Depois, este tipo de casos fazem pensar na necessidade de uma associação profissional reguladora: uma Ordem dos Professores, organismo investido de conhecimentos da prática docente, capaz de delinear um código deontológico (deveres que, à partida, sabemos que um professor deve ter em conta no exercício das suas funções) e capaz de ajudar a decidir nestes casos mais polémicos.
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Publicado in Jornal Terra Quente, 1 de Junho 2010.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Apraxia -- à espera do messias

A existência é pesada, por vezes (tantas), dura. Os tentáculos das circunstâncias e o assalto do determinismo social, económico, político e cultural justificam a inacção, a preguiça, a resignação. Apraxia é o termo utilizado em filosofia (além de Psicologia e Neurologia) para compreender uma característica da acção humana (ou então "acédia", como sugere Pacheco Pereira neste texto inconformista do Público) -- aquele estado em que se não é capaz de agir, em que o dissenso encantatório da acção nos inactiva. O país, os portugueses em geral, vivem num estado de letargia onírica, por enquanto de sorriso mole nos lábios, pouco cépticos ainda que mais ou menos críticos, embora em geral com pouca profundidade.
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Não é do clima. Não é da latinidade. É da inércia do hábito, do alimento político irresistível do populismo e da demagogia; da garantia da solidariedade tornada injusto comodismo; do vazio da facilidade e da gloriosa, pseudo-libertadora, fuga ao esforço. Não se trata já sequer de utopia. É mesmo pura e oportunista falsidade manipulatória. De qualquer modo, vamos habituando-nos a não procurar pensar mais profundamente, nem tão-pouco a procurar agir mais consequente e eficazmente. É mais fácil esperar o messias, que por nós pensará e agora também por nós agirá!