segunda-feira, 19 de maio de 2008

Acordo ortográfico para quê?

"Torre de Babel"
(Bruegel)

Uma das questões que me parece mais controversa no novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é o facto deste acordo fazer tábua rasa da origem etimológica como explicação da ortografia das palavras alteradas. Como educador não posso deixar de lamentar a supressão de uma explicação racional (amiúde utilizada com elevada eficácia compreensiva) em favor de uma explicação convencionalista mais superficial, com base em razões políticas que escolhem a fonética estrita como fonte explicativa ilusória. A etimologia é uma rica arma de apredizagem da semântica e ortografia das línguas, muito útil quando se trata de mostrar aos aprendizes da língua por que razão, por exemplo, se escreve ação (e não acção). Pode até surgir a questão: por que não escrever com dois "s"?!
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Grande favor (ou nem por isso!) vai fazer o acordo para quem não estava de bem com a distintiva grafia de verbos como o "vir" e "ver" na terceira pessoa do plural do presente do indicativo ou do conjuntivo, que antes se grafavam, respectivamente, "vêm" (verbo "vir") e "vêem" (verbo "ver"), quando agora o último passará a grafar-se simplesmente "veem", sem acento circunflexo!

Mas há outras razões para rejeitar este acordo, que são bem mais prosaicas. No passado dia 22 de Abril, Desidério Murcho sintetizou no jornal Público as suas principais críticas ao Acordo Ortográfico (veja-se aqui).

Em rigor, não só não faz sentido acordar sobre ortografia de uma língua, como as alterações realmente e não artificialmente introduzidas são muito mais bem feitas e eficazmente implementadas pela liberdade dos falantes das várias culturas linguísticas da pequena babel do português, que se espraia por esse mundo fora, do que por decreto governamental centralista, que tudo quer normalizar.
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Trata-se, pois, de um acordo político subserviente e sem grandes implicações práticas e não de um efectivamente necessário acordo ortográfico. E depois... as simplificações nem sempre simplificam, sobretudo quando impostas para, neste caso, servir supostos interesses não linguísticos (afirmação política no mundo?!) e deste modo completa e desnecessariamente artificial.

2 comentários:

Aralis disse...

Como Licenciada em Línguas toda a minha vida dependi de etimologia até mesmo para melhor aprender línguas estrangeiras, acho um pefeito ultraje este acordo, que é obviamente uma tentativa política de uma aproximação luso-brasileira... Acho atroz a sugestão inclusivamente da alteração de nomes próprios... Aqui constato a minha indignação não só com este acordo mas também com os recentes desenvolvimentos nacionais.
É refrescante saber que há quem também pense todos os dias. Fico grata por ter "tropeçado neste blog". Obrigada. (que para mulheres deriva de agradecida, sendo que os homens devem dizer obrigado, de agradecido...LOL)

Miguel Portugal disse...

De facto, talvez a língua e o seu carácter profundamente identitário merecesse um outro cuidado no tratamento por parte dos decisores políticos. Agradeço o seu elegante tropeço neste blogue, aralis, e aguardo a sua sapiencial futura visita.