terça-feira, 24 de junho de 2008

Afinal, a Matemática… é fácil!!

Os alunos do 12.º ano realizaram ontem o exame nacional de Matemática. Ao que parece, foi fácil, tal como o exame do 9.º ano, demasiado fácil! Os resultados dos exames à disciplina-rainha do mundo do saber científico e tecnológico, em geral muito baixos no nosso país, têm melhorado nos últimos três anos. A questão é saber se por força de uma melhoria efectiva nas aprendizagens de conhecimentos e competências da Matemática ou se por um abaixamento do nível de exigência dos exames nacionais que os deveriam testar. A questão é levantada pela SPM (Sociedade Portuguesa de Matemática; veja-se aqui a análise que a SPM faz do exame de Matemática do 12.º ano), que invoca, na argumentação de Nuno Crato, o estudo da OCDE (o mais credível a nível mundial) para avaliar conhecimentos e competências – o PISA –, o qual mostra que Portugal não só não está efectivamente a evoluir, como está ainda aquém de resultados satisfatórios para um país que se deseja em desenvolvimento (veja-se aqui).

Mas, para que serve, afinal, um exame de conhecimentos e competências? Serve para três coisas:

1. Serve para, no final de um percurso de aprendizagem, avaliar os conhecimentos e competências obtidos;

2. Serve para incrementar o esforço, a dedicação e responsabilidade, ao longo do processo de aprendizagem de quem quer apreender um conjunto de conhecimentos e competências;

3. Serve para, no final de um percurso de ensino, avaliar o trabalho docente desenvolvido, já que parte do resultado obtido (embora nunca, talvez infelizmente, “todo” o resultado) depende da forma como o professor fez com que o aluno apreendesse, ao longo do percurso, os conhecimentos e competências requeridas.

Assim, o professor deve seguir uma lei programática que dita as competências e os conhecimentos que o aluno, no final de determinado ano ou ciclo de ensino, deve atingir. Quando, no final de um processo de ensino-aprendizagem, o exame nacional de avaliação de conhecimentos e competências, produzido, supostamente, pela mesma pena que produziu o programa, não se funda na exigência ou pressuposto dos mesmos conhecimentos e competências, então é um exame mal elaborado, não cumprindo minimamente a sua função essencial. Essa discrepância constitui, pois, uma falha técnica na elaboração do mesmo, que existe quer se o exame exigir mais do que estava programado, quer se exigir menos do que estava programado. Portanto, o exame de Matemática em análise acaba por não conseguir escapar a esta crítica.

Por outro lado, apresentar, no final de um ano naturalmente exigente (e cuja cultura escolar já tinha consagrado, muito natural e consensualmente, como tal), um exame de conhecimentos e competências injustificadamente fácil é colocar em causa todo um trabalho de rigor e exigência no processo de ensino-aprendizagem e sua avaliação, desenvolvido, ao longo de três anos, por professores empenhados na árdua tarefa de ensinar e fazer aprender Matemática. Se tomarmos em conta os resultados dos exames de Matemática dos últimos três anos, isso quer dizer que o trabalho, em geral, dos professores de Matemática tem sido eficaz no modo como têm feito os alunos aprenderem Matemática ou terão sido antes os resultados naturalmente melhorados pelo decaimento do nível de exigência na testagem de efectivos conhecimentos e competências matemáticas por via do exame nacional? E se os processos de avaliação de conhecimentos utilizados pelos professores forem, em geral, mais rigorosos que o próprio exame nacional – com aquelas falhas técnicas apontadas –, isso significa que são esses processos que estão errados ou será antes o exame que se encontra desajustado face à sua função?

Mas o problema não se fica pela falha técnica, nem pelo desrespeito pelo trabalho de muitos professores (embora não por todos, naturalmente) ou pelo completo falhanço do exame enquanto instrumento de avaliação externa. O problema é que o ME, ao criar exames demasiado facilitadores – não das aprendizagens, mas da obtenção de resultados (que é bem diferente) –, acaba por ser o primeiro responsável pela difusão, já hoje bem notória e generalizada para quem vive o seu quotidiano numa escola, de uma atitude altamente permissivista e facilitista, que é, obviamente, muito negativa para a formação das pessoas dos alunos, bem como para a difícil fase de desenvolvimento do país.

Quando se deveria exigir qualidade, facilita-se; quando se deveria exigir verdade, mascara-se; quando difícil é mudar realmente, altera-se artificialmente. Mas nem todos compreenderão estas análises críticas e, por isso, é muito natural que a estratégia política deste governo – em ante-vésperas de eleições e agora com oposição que se começa a fortalecer – convença muitos incautos, eles próprios já contaminados por esta cultura política demagógica e altamente propagandística da facilidade das leituras de curto prazo, com estatísticas embriagadoras a ajudar.

4 comentários:

Anónimo disse...

Parece que sim...

A propaganda aumenta de tom: Dia do diploma

"No dia 12 de Setembro, as escolas e os agrupamentos que leccionem o ensino secundário deverão promover, envolvendo a respectiva comunidade educativa, uma acção formal de entrega dos certificados e dos diplomas aos alunos que, no ano lectivo anterior, tenham terminado o ensino secundário."

Está tudo ligado. Digo eu...

Manoel

Miguel Portugal disse...

De facto, Manoel, as coisas não são feitas por acaso! A propaganda sempre foi um arma de divulgação de ideias políticas e de sedução do auditório no sentido de com elas se vir a conformar. O problema é que usar a educação, a aprendizagem e o saber de jovens, futuros adultos cidadãos de um país, com a finalidade de fazer passar a ideia de que o governo está a governar bem porque está (supostamente) a fazer melhorar os resultados nas aprendizagens de uma área do saber tão complexa quão fulcral, como é a Matemática, é altamente reprovável eticamente, já que utiliza uma deturpação da verdade sobre tema de importância decisiva para o futuro dos jovens como meio para satisfazer fins apologéticos e, portanto, simplesmente eleitoralistas.

A propaganda é uma arma; mas, como tal, seria necessário ter algum pudor ao usá-la!

João disse...

Vê isto http://professoresramiromarques.blogspot.com/2008/06/spm-versus-gave.html.

Penso que é errado se a tendência destas provas de avaliação dos alunos for baixar a fasquia, até porque numa época de crescente exigência dos mercados, essa tendência tem que ser a oposta.

Agora, quem é convidado a dar um parecer científico e pedagógico acerca de provas de avaliação tem que assumir com seriedade as suas competências.

É inaceitável que uma associação que quer ser respeitada, como a Sociedade Portuguesa de Matemática, não só pela sua competência científica mas também pela sua seriedade e crítica objectiva, se dê ao luxo de dar uma no cravo (na altura do parecer) outra na ferradura (na altura da publicação da prova). Mais parece uma manobra de desinformação.

Abraço,

João Portugal.

Miguel Portugal disse...

Bem apanhada, essa, João! De qualquer modo, tanto quanto julgo saber, a SPM terá dado um parecer sobre a estrutura da prova e não sobre as suas perguntas ou conteúdo concretos. E, por outro lado, o crédito que merece a SPM, com toda a obra intelectual rigorosa e aprofundada feita em prole do ensino da Matemática, talvez não deva desmerecer o crédito que lhe é normalmente concedido, por causa deste tipo de particularidades, que, no essencial, não desvirtuam, neste caso, a crítica objectiva à prova.