quinta-feira, 26 de novembro de 2009


Leituras…
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…de John Gray, A Morte da Utopia e o Regresso das Religiões Apocalípticas, trad. port. Freitas e Silva (Lisboa: Guerra e Paz, 2008), uma obra tão lúcida quanto perturbadora, que coloca em causa alguns dos ideais mais influentes no Ocidente e nos obriga a reler a história das ideias e a repensar criticamente os fundamentos da nossa civilização, bebendo uma sempre benfazeja atitude céptica, que caracteriza o pensamento deste professor de Pensamento Europeu na London School of Economics.

A tese central de Gray é a da que a política moderna é um capítulo da história da Religião. A política da modernidade iluminista está marcada por grandes utopias – o comunismo, o nazismo e mesmo o humanismo liberal –, que o filósofo britânico chama de “religiões seculares”. Estas religiões seculares são teorias do progresso, mas, porque se baseiam mais na fé do que na razão, não deixam de ser mitos, que tentam responder à necessidade humana de sentido. E, apesar de defensor do liberalismo, Gray mostra como a tentativa, designadamente dos neo-conservadores por detrás do governo Bush, de impor a democracia liberal como regime político ao resto do mundo coloca em risco o próprio êxito do liberalismo («ao fazer a guerra para promover os seus valores, na realidade as sociedades liberais existentes são corrompidas» p.255). Afinal, no futuro como no passado, o mundo será governado por muitos tipos de regime e não apenas pelo sonho da bárbara e imposta hegemonia da democracia liberal universal, defende Gray.

Mas estas utopias morreram (Faluja e todo o fracasso da guerra do Iraque, simbolizam, para o autor, o último estertor do utopismo secular), a fé secular perdeu-se e estão a submergir versões primitivas de religiões apocalípticas. A morte da utopia deu lugar à religião apocalíptica, que reaparece como uma força na política mundial.

John Gray conclui com duas ideias centrais: um necessário regresso ao realismo, que não precisa de ser conservador (o utopismo tem que ser substituído pelo realismo); e a importância da religião, que é apresentada como uma necessidade genericamente humana e cujo ponto positivo é o facto, não de se apresentar como esperança de que o mistério seja revelado (erro das religiões reveladas!), mas de ser, no seu melhor, a melhor tentativa que é dada ao homem de lidar com o mistério enquanto mistério.

As utopias políticas modernas pretenderam ocupar o espaço de busca de sentido e desvelar o mistério, outrora função das religiões, e, naturalmente, não o conseguiram. O purgante não pode ser outro, segundo Gray, senão uma aceitação lúcida e céptica do realismo em política.

7 comentários:

Rui Ramos disse...

Confesso, de facto, que o seu post me deixou bastante curioso acerca deste livro. Parece-me pagar num dos temas responsáveis pelo planeta de m**** que temos hoje. Um Grande Abraço

Miguel Portugal disse...

É, de facto, um livro fascinante. Boas leituras, Rui!

Abraço

Edgar disse...

Parece de facto um livro semelhante. Devo dar uma vista de olhos depois de ler a Arte da guerra que já ando para ler há uns tempos.

Abraço

Edgar disse...

Eheh parece ser um livro interessante e não semelhante como disse na última mensagem!

Miguel Portugal disse...

A Arte da Guerra, de Sun Tzu, presumo, Edgar. Grandes leituras... Como um manual de estratégia militar do século IV pode ser tão actual e interessante!

Abraço

Edgar disse...

É o livro do Sun Tzu sim. Já me foi aconselhado pro várias pessoas. Já li um bocado e estou a achar interessante. Realmente é interessante que seja tão actual considerando a altura em que foi escrito.
Abraço

Aldo Rocha disse...

Onde posso conseguir o livro A morte da Utopia de Jonh Gray?