quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Inventar a pólvora

Muitos economistas defedem que cortar 20% nas despesas dos cerca de 350 institutos públicos evitaria o aumento do IVA. Este aumento retrairá o consumo e levará a economia a uma recessão; aquele corte nos institutos, implicaria, por exemplo, racionalizar despesas com jantares e dispensar utilíssimos e competentíssimos quadros, que depois iriam para o desemprego. Esta última situação tornaria o nosso sistema político insustentável, já que diminuiria a moeda de troca para oferecer aos amigos dos partidos, que tanto e tão bem contribuem para a boa governação do país. Bem se vê como só existe uma alternativa: cobrar mais IVA ao povão e retrair a economia. Quem vier a seguir que resolva.

Estes economistas lembram-se de cada uma! Isto é inventar a pólvora!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Fotografias

"Pombas ao pé #1"
(La Madelaine, Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal

"Pombas ao pé #2"
(La Madelaine, Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Filosofia politicamente correcta

A UNESCO parece querer celebrar o próximo Dia Mundial da Filosofia em... Teerão! No entanto, a polémica já estalou: Teerão é justamente uma cidade não é de todo possível uma discussão livre e plural de ideias, essência da filosofia. Como celebrar o dia mundial da livre discussão crítica num país onde não é possível uma livre discussão crítica?

Parece, pelo menos parece, um paradoxo. A não ser que seja um gesto de charme da UNESCO, que com esta iniciativa pretenda contribuir para uma inflexão de atitude por parte do regime fundamentalista iraniano. Os seus porta-vozes vão dizendo que nao têm razões para acreditar que não haverá liberdade de expressão de entre os pensadores iranianos... De qualquer modo, não deixa de ser, pelo menos também, um gesto politicamente correcto, embora filosoficamente discutível, senão contraditório.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Educação ao longo da vida - para o ME

O estado calamitoso em que sobrevive o nosso ME é confrangedor. Veja-se como um professor do ensino superior, da área das ciências da educação, Ramiro Marques, ensina os estrategas educacionais do ME nas coisas mais simples, como redigir um documento em que solicitam aos professores a elaboração de objectivos de aprendizagem, usando a velha taxonomia de Bloom. (Sobre como ensinar para a excelência, Ramiro Marques sugere também isto.)

Ramiro Marques esquece-se, contudo, que tal metodologia é demasiado "antiga" para atrair mentes tão modernas. É que o socialismo funcional orienta-se pela máxima religiosamente inquestionável de que "tudo o que é velho é mau e tudo o que é novo é bom"... desde que seja um socialista a inventar, claro!

Exames - ora sim, ora não!

O ME está em plena forma. Ao que parece, vem agora experimentar (ciência experimental, pois claro, e da boa; nada de citações de citações, isso é só para dissertações) mais um exame de filosofia no ensino secundário, através de um projecto de teste intermédio.

Claro que um exame de filosofia no final do ensino secundário parece-me ser um instrumento de avaliação de conhecimentos e competências do aluno, da forma como os programas estão a ser implementados e, portanto, de avaliação do sistema em geral, extremamente importante. É até um instrumento bastante natural e justificado sem dificuldades, até porque se aplicaria a todos os alunos de todos os cursos de seguimento de estudos e viria a servir de prova específica para acesso a alguns cursos universitários.

A questão de fundo é só esta: o exame já existiu, já desapareceu e agora parece querer voltar à existência e com coisas sérias não se brinca.

Primeiro, esta titubeação irresponsável e quase pueril demonstra uma grande falta de rumo na 5 de Outubro. (Em época de cortes orçamentais, o volume das possibilidades engrossa...)

Depois, quanto ao conteúdo das indicações do GAVE para hipotético exame, ainda ninguém sabe qual a verdadeira intenção do ME: quando será submetido, em 22 de Fevereiro? Mas nessa altura do ano, ainda não se leecionou todas as matérias nele previstas! A que alunos? Aos do 10.º ano (problema atrás referido)? Aos do 11.º ano?

Tirante tais dúvidas, o hipotético exame parece-me relativamente equilibrado, deixando de fora matérias importantes, como temas de filosofia política contemplados no programa, mas que pode não haver tempo para leccionar (?!).

Mas não deixa de estar marcado pela infantilização crescente, que vem orientando a pedagogia deste excelso ME: para além das sempre naturalmente controversas questões de resposta de escolha múltipla e verdadeiro ou falso, contempla também a possibilidade edílica deste tipo de questões poder aparecer sob a forma de "tarefas de completamento".

É uma pena que o ME pareça estar a aplicar no ensino secundário - aliás com uma originalidade oportuníssima e sentido de futuro irrepreensível - extensões conceptuais e metodológicas do lipmaniano projecto "philosophy for children", projecto que faz todo o sentido, naturalmente, quando aplicado a crianças, mesmo, e não a jovens adolescentes que se quer que cresçam, justamente com a própria ajuda de um ensino e aprendizagem da filosofia, adequadas à sua fase etária.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Fotografias


"Win on water"
(Mirandela, Agosto 2009)
© Miguel Portugal

"Yellowish water"
(Mirandela, Setembro 2009)
© Miguel Portugal

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A República ou o longo caminho do poder popular

A República é um tipo de regime político, isto é, uma forma que o poder pode ter, um modo de organizar as relações entre os indivíduos e o estado. Desde a Política de Aristóteles (séc. IV a.C.), os Seis Livros da República (1576) de Jean Bodin ou O Espírito das Leis (1748) de Montesquieu, que a república foi definida como um regime popular, no sentido de que todo o povo participa no exercício do poder, normalmente contrastado com a monarquia, em que o poder é exercido por um só, ou com a aristocracia, em que o poder é exercido por alguns. Hoje é, sobretudo, entendida como um modo de designação do chefe de estado: ao contrário da monarquia – em que existe um chefe de estado hereditário –, a república é uma forma política em que ou não existe chefe de estado ou em que o chefe de estado não é hereditário; normalmente, trata-se de um Presidente (da República) eleito por período limitado.

Porém, o contraponto com a monarquia não é muito interessante, já que, em última análise, as diferenças entre regimes republicanos e modernas monarquias constitucionais acabam por não ser relevantes. A questão fundamental não é a de saber como se designa o chefe de estado, mas sim saber qual é a relação da população com o poder – existe ou não a possibilidade da população adulta ou seus representantes poderem participar directa ou indirectamente na tomada de decisões? Daí que hoje se dê mais atenção à distinção entre regimes ditatoriais ou aristocráticos e regimes democráticos.

Nos regimes ditatoriais ou aristocráticos somente uma fracção da população adulta participa na escolha e controlo governamentais, proveniente ou de um partido, de uma classe social, da administração central ou do exército. Enquanto nos regimes democráticos a totalidade da população adulta pode participar, directa ou indirectamente, nas tomadas de decisão e escolha governamentais.

No caso da participação directa – a democracia directa –, a população participa directamente nas tomadas de decisão, como acontece ainda hoje em três pequenos cantões da Suíça. Mas a democracia directa levanta alguns problemas, como a falta de tempo e qualificação técnica dos indivíduos para estudar os dossiers complexos antes da tomada de decisão ou a grande dimensão dos estados, que inviabiliza o debate e participação directa de todos na tomada de todas as decisões. Para além daquelas regiões suíças, a democracia directa existe apenas quando se usa o instrumento do referendo (um direito de iniciativa popular). Por isso, na esmagadora maioria dos regimes democráticos vigora e democracia representativa, na qual as populações elegem os seus representantes para, eles sim, virem a tomar decisões.

Mas a democracia representativa também não está isenta de problemas, dos quais se destacam o desinteresse da população pela vida pública (abstenção eleitoral) e o facto de serem efectivamente os partidos políticos (e não a população) a escolher os governantes. Claro que sempre se pode dizer que a abstenção eleitoral revela apenas um direito, que faz parte da liberdade individual, e não retira legitimidade à representação democrática. E quanto a serem os partidos a escolher os governantes, sempre podemos dizer que essa escolha é democrática, pois há eleições dentro dos partidos, e tal mostra também, mais uma vez, a liberdade das pessoas em não pertencerem a qualquer partido.

No entanto, isso não resolve os grandes problemas da democracia representativa. «A democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo», na frase lapidar de Abraham Lincoln. Mas como operacionalizar isso? Se olharmos para a história verificamos que, a partir dos anos 40 do séc. XX, os estudos apontaram para o papel fundamental que as elites políticas desempenharam na concepção dos interesses populares e na forma como fizeram com que tivessem peso nas tomadas de decisão. As vantagens para a existência dessas elites governativas eram claras: as pessoas podiam viver as suas vidas sem terem que participar constantemente nas tomadas de decisão e havia maior estabilidade, já que havia menos envolvimento popular («a política é a arte de ajudar o público a não tratar dos assuntos que lhe interessam», nas célebres palavras usadas por Winston Churchill para definir a própria política). Porém, a partir dos anos 60, surgiram as críticas: os baixos níveis de envolvimento dos eleitores foram apontados como uma resposta à sua falta de poder; e, no fundo, a igualdade política universal (iguais direitos de voto, livre acesso a cargos públicos, liberdade de reunião, expressão e organização) era vista como mais formal do que substancial.

Em resposta a estes defeitos da democracia representativa surge a proposta de uma democracia participativa. O objectivo é assegurar que os resultados dos processos políticos reflictam os verdadeiros interesses da população em geral, bem como dar efectiva substância aos direitos políticos, através de uma cidadania mais activa. Uma cidadania mais activa requer uma autonomia adequadamente desenvolvida, uma disposição para sacrificar interesses egoístas e uma preocupação genuína com o bem comum. Os adeptos da democracia participativa encaram estas exigências como uma forma de desenvolver as potencialidades do indivíduo. No entanto, esta aposta na democracia participativa levanta questões importantíssimas para a definição das relações entre indivíduo e estado: república formal ou república substancial? Cidadania formal ou cidadania substancial? Quer dizer: será suficiente o direito de participação política (usado livremente, quando o indivíduo assim o entender) ou será necessário um dever de participação política? Portanto: simples possibilidade de uma cidadania passiva ou terá que existir, necessariamente, uma mais constante cidadania activa? Não é difícil de ver como a democracia participativa pode desembocar em algumas das limitações da velha democracia directa.

É assim que surge, a partir dos anos 80/90, uma outra forma de encarar a democracia, tentando ultrapassar ou pelo menos minimizar estes problemas: a democracia deliberativa. A ideia é a de que não basta mais participação, mas é necessário que haja mais participação por aqueles que são mais afectados pelas tomadas de decisão. Além disso, a democracia é vista não só como um regime que assenta na votação e na regra da maioria, mas também (e sobretudo) na discussão de questões verdadeiramente importantes para as pessoas. A política não é, nesta perspectiva, uma simples competição entre interesses concorrentes, mas sim um processo deliberativo que envolve conversas racionais entre cidadãos, que visam produzir um acordo e, se possível, um consenso.

A república está, portanto, associada à ideia de democracia e a democracia é um processo exigente de tomadas de decisão. Exige uma formação séria e complexa dos cidadãos, que os coloque de frente para o mundo da vida pública, mas sem os privar das suas vidas privadas; exige autonomia suficiente para que o indivíduo possa evitar a manipulação por parte dos sempre atractivos grupos de interesses (partidos ou outros); e exige uma ética de especial entrega à comunidade, à “coisa pública” (do latim res-publica), que pode ser tão difícil quanto controversa, se limitar excessivamente a liberdade individual. Como gostavam de dizer alguns intelectuais franceses do final do século passado, a democracia está sempre, pois, por vir.

Publicado em: Jornal Terra Quente, 1-10-2010.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O povo paga!

1. O Presidente do Banco de Portugal, preocupado com a supervisão das finanças públicas, propõe a criação de uma entidade independente para supervisionar as finanças públicas. Afinal, nem Tribunal de Contas, nem o próprio Banco de Portugal (presidido pelo autor da proposta) dão conta do recado. E argumentou ainda que terá que ser uma entidade independente, de competência técnica capaz. Como as finanças do estado estão em baixo, não há como criar mais jobs for the boys – aumentando a despesa – para resolver o problema. O povo paga.

2. Numa escola básica, os pais, indignados, fecharam-na a cadeado. Razão: para benefício transcendental de alunos e famílias (na realidade, apenas e só para poupar dinheiro ao estado, mas falta coragem para o dizer), o governo encerrou escolas e fez deslocar os alunos para uma mega-escola; mas, as famílias têm agora que pagar os transportes dos filhos, já que as autarquias também têm mais onde gastar o dinheiro! Os iluminados não se aperceberam – lapso atendível, naturalmente (afinal, eles não estão lá para pensar nestas coisas) – que estas medidas prejudicarão os mais desfavorecidos, precisamente aqueles cujos filhos têm, em geral, mais probabilidades de vir a abandonar a escola. O mesmo governo que parecia querer inovar em educação e colocá-la no rumo (estatístico) certo, afinal está a tomar medidas contraditórias. Paga povo.

3. Em suma, o sr. Dr. Almeida Santos – socialista convicto – é que tem razão: não pode ser sempre o governo a esforçar-se; o povo tem agora que fazer o esforço de arcar com as dificuldades. Extraordinário! Os esforçados e sacrificados governantes – os do PS à cabeça, claro – não podem continuar a ser os únicos super-sacrificados; o povo que aguente. A doença espraia-se: não há dúvida que Almeida Santos também anda a beber da mesma água benta (abençoada pela democracia!) que o chefe Sócrates – a da embriagada arrogância, do despudor moral e da irresponsável falta de sentido de realidade. O povo paga.

domingo, 3 de outubro de 2010

Humor negro

O famoso filósofo da Grécia Antiga Diógenes de Sinope – que vivia numa ânfora e defendia que a natureza humana estava corrompida pelos costumes sociais – tinha um discípulo que o seguiu quase na perfeição: Crates de Tebas. Conta-se que um dia, um discípulo do próprio Crates, lhe terá perguntado até quando se devia filosofar, ao que ele lhe terá respondido:

– Até que vejamos os governantes como aquilo que são: condutores de asnos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Despesas na educação

Para racionalizar as despesas na educação sugeriria à dra. Isabel Alçada e ao dr. Teixeira dos Santos a venda de alguns quadros interactivos, que vieram decorar algumas salas de aula, de todas as escolas por esse país fora, muitos colocados no lugar de aquecedores minimamente eficazes ou, coisa curiosa, de estores que minimizassem o impacto da luz solar nas projecções nesses mesmos quadros e noutros (já que além destes quadros interactivos também há projectores multimédia). A ideia era modernaça: atacar os problemas do insucesso na Matemática com tão eficaz instrumento pedagógico e didáctico.

Mas a genialidade pedagógica não se ficou por aqui. Os quadros interactivos (deve ter sido uma promoção) haverão de servir para o ensino do inglês, do português, da filosofia… até para a educação física. Quando o elixir é bom, dá para tudo!

E como o PS quando chegou ao governo achou – e na grande maioria dos casos, bem – que a formação contínua de professores estava uma calamidade (até acções de formação em arraiolos havia!), lembrou-se de substituir essa ausência formativa, por uma formação modernaça – claro está: em TIC. Agora, por exemplo, os professores de filosofia têm à sua disposição acções de formação em “quadros interactivos para o ensino da filosofia”. Muito bem. Os professores de filosofia estavam mesmo a necessitar de se distraírem um pouco, tão ocupados que andavam a pensar na situação calamitosa e deprimente em que se encontra a base antropológica essencial para a vida condignamente humana e para o desenvolvimento, que a educação em Portugal não proporciona aos nossos jovens.

Acções de formação específicas na área da filosofia e da didáctica da filosofia? Poucas e sempre apenas em algumas universidades (Braga, Porto e Lisboa). Lógica e teoria da argumentação? Epistemologia e Filosofia da Ciência? Ética e Filosofia Política? Pagar a generalização da formação contínua nestas áreas? Não, isso só interessa aos tolos dos anglo-saxónicos e outros que tais, povos atrasados e conservadores! A aposta do estado na formação contínua da generalidade dos professores de filosofia é a formação num instrumento tecnológico perfeitamente preterível por uma apresentação em Power Point (facilmente) bem feita. E mesmo a utilização deste instrumento informático ou outro numa aula de filosofia nunca determinou nem nunca vai determinar a eficácia do ensino da filosofia e do filosofar, em nenhuma parte do mundo, por muito útil que possa, por vezes, ser tal instrumento:

«Apesar de todas as proezas tecnológicas, não se observa em filosofia qualquer avanço que suplante a prática socrática de conversar frente a frente com outra pessoa.»
[Alexander George (Org.), Que diria Sócrates?, Gradiva, 2008, pág. 12.]

Bem, talvez noutra galáxia, quem sabe!

Das duas, uma, portanto: ou o governo socialista entende que não é necessário dar verdadeira formação contínua aos professores de filosofia (afinal, ela só serve para criar mentes críticas!) ou então não consegue aperceber-se do ridículo que é promover cursos de quadros interactivos para professores de filosofia, ainda por cima atribuindo a esta formação o epíteto de “formação específica na área científica”. Eis o cúmulo do ridículo, aliás muito comum à política socialista da educação: os professores de filosofia não precisam de actualizar a sua atitude filosófica e contactar eficazmente com abordagens actuais; basta saberem mover-se no jogo de sombras, que ilude e assim vai “alimentando” o espírito dos jovens.

Ora vendam lá uns quadritos interactivos empoeirados (mas ainda em bom estado), quiçá para a Venezuela, e vão ver que ajuda a pagar formação a sério, com efectiva mais-valia para os alunos e, portanto, para o desenvolvimento do país!

Surrealismo interrompido – regresso à terra?!

O discurso surrealista e irresponsavelmente optimista bacoco de José Sócrates, que já só iludia os mais desprevenidos, mas cuja acção subjacente tem delapidado o futuro de todos, parece ter sido interrompido. O orçamento para o próximo ano (e seguintes?) será austero – terá aumentos de impostos e, sobretudo, um pequeno corte nas despesas do estado. Tudo inevitável, tirando talvez a subida do IVA, que afectará sobretudo os mais desfavorecidos.

Podia ter sido mais tarde, caso a sua teimosia permanecesse; deveria ter sido mais cedo, caso tivesse assomado alguma réstia de sentido de realidade. Certamente, deveria ter sido mais contundente nas grandes despesas com o aparelho do estado – institutos, algumas direcções gerais, fundações, empresas municipais… todas elas canalizações para o clientelismo partidário, que não foram tocadas, mas deveriam ter sido. Os analistas nacionais e internacionais dizem todos o mesmo – está bem, mas são precisas reformas estruturais.

Foi agora, não por decisão autónoma e sapiencial de eminente estadista, como se julga Sócrates, que não é, mas porque a situação económica e, sobretudo, o maior partido da oposição assim o pressionou. Mas questionado ontem sobre o que correu mal para que houvesse necessidade destas medidas austeras, Sócrates voltou a fazer o mesmo que fez com o dinheiro dos contribuintes – em vez de usar o tempo para as devidas explicações, desperdiçou-o sem, mais uma vez, dizer a verdade aos portugueses.

Do mal, o menos – bem-vindo de regresso à terra; pelo menos para já, que tem que ser!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Dar a pensar…

2.
«Mas a liberdade económica funciona mesmo? E compensa? O que nos dizem os dados empíricos? (…) A relação [entre democracia económica e o PIB per capita] é estatisticamente significativa: (…) os países mais livres são também os mais ricos.
(…)
Vejamos (…) uma comparação directa entre dois países: Portugal e Irlanda. Há 19 anos, estes dois países tinham valores de PIB per capita semelhantes. Depois a Irlanda passou por uma autêntica revolução de liberdade entre meados e finais dos anos 90. Portugal, pelo contrário, desceu da posição 38, que ocupava em 1995, para o lugar 46.º, em 2004, e para o lugar 62.º, em 2010, no índice de liberdade económica [produzido anualmente, desde os anos 60, pela Fundação Heritage, de Washington]. O resultado? (…) o PIB per capita da Irlanda é agora 167% do de Portugal.
(…)
Primeiro, a liberdade económica não significa regulamentação zero, mas, sim, elevados níveis de concorrência de mercados. Com transparência, o que requer um mínimo de regulamentação, da mesma forma que a democracia política para funcionar exige algumas leis.

Segundo, a liberdade económica funciona: compensa, cria riqueza. Nos países em que a liberdade é escassa, a prosperidade está ausente.

Terceiro, a liberdade económica é um valor essencial. Mas isso não significa que seja o único. A estabilidade também é importante, tal como a solidariedade. Portanto, a partir de um determinado nível de liberdade, é preciso criar espaço para estas últimas.

Quarto, o capitalismo tem defeitos? Por favor, caro leitor… dê-me um exemplo de alguma coisa perfeita neste mundo.

A conclusão final é simples. Como os dados – ou seja, a própria realidade – mostram, é melhor vivermos com os defeitos do capitalismo do que com as pseudo virtudes das economias estatizadas. Por outras palavras, o capitalismo é o pior sistema económico, com a óbvia excepção de todos os outros. É claro!»

Jorge Vasconcellos e Sá, “Quanto vale a liberdade económica – o verdadeiro significado da liberdade económica e a evidência empírica do seu poder” Foreign Policy Ed. FP Portugal n.º 17 (Agosto/Setembro 2010) 81-82.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Dar a pensar…

1.
«(…) A liberdade económica encontra a sua contraparte, o seu equivalente na arena política, na democracia. É por isso que a democracia económica é frequentemente um sinónimo de liberdade económica. A democracia significa essencialmente poder ao povo, enquanto a liberdade económica significa poder ao consumidor.

Na política, temos partidos; no mercado, existem empresas. Na política, temos de ter fluxos livres de informação. Nos mercados, exigimos transparência, ou seja, concorrência baseada no preço, na qualidade e na distribuição, e não em outros factores estranhos – “razões que a razão ignora”, como disse o poeta português Camões. Na política, temos percentagem de voto, enquanto na economia o elemento essencial é a quota de mercado. Os partidos políticos ganham poder; as empresas procuram lucros.

Dado que a minha liberdade acaba onde começa a dos outros, é bastante óbvio que para haver liberdade política precisamos de um mínimo de leis e regras. Caso contrário, os fortes terão mais liberdade do que os fracos e o poder tenderá a concentrar-se – o poder conduzirá a mais poder e a ditadura (ou o poder dominante) virá a seguir.

Daí o velho ditado de Wendell Phillips, advogado norte-americano do séc. XIX defensor abolicionistas, de que “a vigilância eterna é o preço da liberdade”. A vigilância na arena económica recebe o nome de (um certo grau de) regulamentação. Objectivo? Simplesmente para assegurar elevados níveis de concorrência, com transparência – baseada no preço, qualidade e distribuição.

Portanto, a não interferência não garante nem liberdade política, nem tão pouco liberdade económica. É certo que demasiada regulamentação irá abafar ambas. Tal como muito pouca regulamentação irá substituir a democracia e os mercados por selvas, onde habitualmente vale tudo.
(…)
Então, do que é que depende a liberdade económica e, por extensão, a democracia? “Apenas” de regulamentação suficiente: pouco Estado e impostos baixos (ambos são poderes coercivos); um bom sistema de justiça (um país sem uma justiça rápida não é livre); comércio internacional livre; níveis baixos de corrupção; e mercados negros pequenos.»

Jorge Vasconcellos e Sá, “Quanto vale a liberdade económica – o verdadeiro significado da liberdade económica e a evidência empírica do seu poder”, Foreign Policy Ed. FP Portugal n.º 17 (Agosto/Setembro 2010) 80-81.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Escolas privadas melhores no essencial

Um estudo realizado pelas Universidades de Harvard e de Munique, centrado em dados do PISA com 220 mil adolescentes de 29 países, revela, nomeadamente, que alunos que frequentaram escolas privadas têm melhores resultados nos exames, que a existência crescente de escolas privadas a par das públicas melhora a qualidade do ensino de ambas e que a existência de escolas privadas faz descer a despesa com a educação. (Via profblog)

Evidências do estado... social? Não: liberal, com certeza.

Estudar desenvolve o cérebro – “porreiro pá”!

Assim é: estudar desenvolve mesmo o cérebro. É a sra. Ministra da Educação de Portugal que o diz, numa mensagem inédita dirigida aos mais “piquenos”, embora com vontade de se dirigir a todos e mais alguns, a essa massa amorfa que passou, passa e continuará a passar pelas escolas (agora “grandes” escolas) portuguesas. (Nota: este texto é escrito ao abrigo do novo “acordo ortográfico”.) (Vídeos: aqui e aqui)

Entre tomar um bom “piqueno-almoço”, ler bem e comunicar melhor (mal, no caso de haver um teleponto a substituir a face do interlocutor), estudar, estudar “memo” (quererá ter dito: estudar a memorizar, como “antigamente”?) ou «fazer duas coisas ao “memo” tempo»; entre dizer que «comam coisas que lhes fazem bem» (o que em português correcto – sem “acordo ortográfico”! – se diria: que lhes “façam” bem) e «terem muito maus, bons resultados…» (em bom vernáculo: “fugiu-lhe a boca para verdade!”) – a sra. Ministra da Educação (sim, da Educação, modernaça, não da Instrução, que é coisa velha) lá se dirigiu, como pôde, aos infelizes dos alunos, pais e professores que vão assim sendo dirigidos: os primeiros numa actividade fulcral para o resto das suas vidas, os segundos no melhor que têm nas suas vidas e os terceiros…, bem esses não interessam, são simples marionetas (é para isso que lhes pagam) nesta tragicomédia deprimente, em que se está a transformar o ensino, quer dizer, a educação em Portugal.

Como já alguém disse (mais um ilustre homem de proa da nossa República): “porreiro, pá!” É um orgulho!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Dar a pensar...

«O trabalhador que durante doze horas tece, fia, perfura, aperta, constrói, cava, parte pedras, carrega fardos, etc. – achará ele que estas doze horas a tecer, perfurar, apertar, construir, cavar, partir pedras, são uma manifestação da sua vida enquanto vida? Pelo contrário, para ele a vida começa quando esta actividade cessa, à mesa, na taberna, na cama.»
Karl Marx, Manuscritos de 1844, in: David McLellan (org.), Karl Marx: Selected Writings, 2.ª ed. (Oxford: Oxford University Press, 2000) 276.

«Na sociedade comunista, em que ninguém tem uma esfera exclusiva de actividade, mas antes cada um se pode realizar em qualquer ramo que deseje, a sociedade regula a produção geral e torna, portanto, possível que eu faça uma coisa hoje outra amanhã, caçar de manhã, pescar à tarde, criar gado ao anoitecer, criticar depois de jantar, conforme me apeteça, sem nunca me tornar caçador, pescador, vaqueiro ou crítico.»
Karl Marx, A Ideologia Alemã, in: David McLellan (org.), o.c., 185.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O “animal político” na escola “grande”

Em geral os municípios aceitaram fechar escolas e concentrar os alunos (leia-se: recursos!) em mega-agrupamentos. À excepção de alguns, que não aceitaram fechar algumas escolas. A propósito, José Sócrates disse, em mais uma faustosa inauguração do ano lectivo para “povão” ver, que isso eram excepções e ele não liga a excepções. O argumento é este: se a maioria aceitou fechar escolas, é porque isso é uma boa medida (para além de ter sido eu a decidi-la, claro); o que alguns alegaram para o não fazer, não interessa, nem sequer merece atenção – a medida é boa, ponto final.

Quando um argumento é bom funciona em qualquer contexto. Testemos: como a maioria das medidas tomadas pelos governos de José Sócrates (tomemos aqui apenas a área da educação) foram prejudiciais para o país, é porque ele é um mau governante; é certo que foram tomadas algumas boas medidas (plano nacional da leitura, plano de acção para a Matemática, inglês no ensino básico ou alguma dotação tecnológica das escolas), mas isso não interessa – José Sócrates e os seus nem merecem sequer ser ouvidos; são, em absoluto e inapelavelmente, maus governantes; ponto final.

Trata-se de uma generalização precipitada, uma falácia sobejamente conhecida. Até os mais furiosos (emoções!) com o estilo ou com os erros políticos de José Sócrates e acólitos, designadamente na área da educação, devem reconhecer, como é o meu caso, de forma razoável (racionalidade), que entre o grande mau serviço público prestado ao país devem ser reconhecidas algumas excepções benfazejas.

José Sócrates não consegue fazê-lo: o seu estilo arrogante (emoções) não lhe permite sequer dialogar e repensar possíveis atendíveis excepções – seria demasiado razoável (e demasiado democrático, claro).

domingo, 5 de setembro de 2010

Obrigado, Rui Moura!

Faleceu à dois meses (apenas agora tive conhecimento) Rui Moura, engenheiro electrotécnico, assistente e professor convidado da cadeira de Electrotecnia Teórica, Medidas Eléctricas e Alta Tensão do Instituto Superior Técnico (IST) entre 1970 e 1976; serviu na Comissão Europeia de 1987 a 1990 e na Comissão Técnica e Científica do Plano Energético Nacional de 1989 a 1992. Depois de se ter reformado dedicou-se ao estudo dos climas, tornando-se um eminente representante em Portugal da dinãmica dos climas e um protagonista maior no debate em torno daquilo que ele desmascarava, com dedicação e estofo científico ímpares, ser uma impostura intelectual – o, segundo ele, suposto aquecimento global.

Desde que tive a satisfação intelectual de assistir a uma conferência sua, plena de informação científica e referências epistemológicas fundamentais para debater criticamente a questão das alterações climáticas, e com ele pude dialogar sobre a temática, despertou em mim aquela atitude céptica nesta área, que, a não ser reactivada, tende, naturalmente, a esmorecer.

Portugal perdeu um eminente intelectual e um grande crítico do polémico aquecimento global. Foi bom pensar com ele. Obrigado, pois, Rui Moura.

Sem Deus, sem certezas, a caminho

Excelente artigo de Paul Davies, no The Guardian (com uma ampla discussão, próximo das três centenas de comentários!), a propósito do lançamento do último livro de Hawking, sobre o momento actual da cosmologia, em que, por um lado, se reitera a desnecessidade de recurso a um "deus-tapa-buracos" para explicar a origem do universo, mas em que, por outro lado, se sublinha que quando se trata das leis para explicar o prórpio big bang, ainda estamos em águas turvas!
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sábado, 4 de setembro de 2010

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A moda da "desformalização"

Excelente texto de João Boavida, inicialmente publicado no diário As Beiras (via De Rerum Natura), sobre o eclipse das formalidades inter-relacionais, a que chama "desformalização" da educação, em que o autor apela para um reequilíbrio, inevitável, entre os excessos e os defeitos de formalismos na mediação das relações humanas. Para pensar.

Deus não criou o Universo

Stephen Hawking propõe agora que, afinal, o Universo não poderia ter sido criado por Deus (reportagem vídeo SIC). A tese que defendera no seu best seller "Uma Breve História do Tempo", publicado em 1998 -- a criação do universo por Deus não seria incompatível com as leis da Física --, é posta agora em causa pela recente descoberta de um outro sistema solar idêntico ao nosso. O argumento é simples: se Deus tivesse tido a intenção de criar o homem não teria tido necessidade de criar outros universos, outros sistemas solares -- tal seria, argumenta Hawking, redundante.
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A revisibilidade do conhecimento cientifico é uma das suas características epistemológicas centrais, aliás responsável pelo seu crédito enquanto tentativa de conhecimento racional do mundo. Ao contrário da Religião, que muito dificilmente sujeita os seus dogmas à discussão crítica. Particularmente nos E.U.A., onde o debate criacionismo-evolucionismo é uma realidade vívida, esta nova teoria de Hawking, ainda antes da publicação da obra onde a exporá (O Grande Desígnio), já está a empolgar a comunidade científica (Richard Dawkins já felicitou Hawking pelo seu regresso à racionalidade estritamente científica, por muito revisível que tal conceito possa ser!).
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A ciência prossegue, de qualquer modo, o seu caminho em busca da verdade (por muito que os cientistas não gostem do termo!).

quarta-feira, 1 de setembro de 2010


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Dar a pensar…

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«[A origem da divisão de classes] é supostamente explicada quando contada como uma historieta sobre o passado. Em tempos idos havia dois tipos de pessoas: um era a elite diligente, inteligente e, acima de tudo, frugal; o outro, os patifes preguiçosos que gastavam o seu pecúlio e mais ainda, numa vida desregrada. (…) Então o que se passou foi que o primeiro tipo acumulou riqueza e o segundo tipo acabou por ficar sem nada para vender, excepto a própria pele. E deste pecado original data a pobreza da grande maioria que, apesar de todo o seu trabalho, não tem agora nada para vender excepto a si própria, e a riqueza dos poucos que aumenta constantemente apesar de terem há muito deixado de trabalhar. Esta infantilidade insípida é-nos pregada todos os dias em defesa da propriedade (…). Na história real, é notório que a conquista, a escravização, o roubo, o assassínio, em suma, a força, desempenham o papel principal.»

Karl Marx, O Capital in: David McLellan (org.), Karl Marx: Selected Writings, 2.ª ed. (Oxford: Oxford University Press, 2000) 521.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

quarta-feira, 25 de agosto de 2010



Dar a pensar…


3.
«Um dos elementos constitutivos do espírito capitalista moderno, e não apenas deste, mas da própria cultura moderna, a conduta de vida racional baseada na ideia de profissão como vocação, nasceu – é o que esta exposição deveria provar – do espírito do ascetismo cristão. (…) Esta motivação radicalmente ascética do estilo de vida burguês (…) foi o que na sua sabedoria nos quis mostrar Goethe na sua obra Wanderjahre e no fim que deu ao seu Fausto. Para ele esta constatação significava a despedida de um período da humanidade pleno e belo, que na evolução cultural não voltará a repetir-se, como não se repetirá o florescimento ateniense clássico. O puritano queria ser um homem de profissão – nós temos de o ser. O ascetismo, ao ser transplantado das celas conventuais para a vida profissional, começou a dominar a ética secular e deu o seu contributo para a formação do poderoso cosmos da ordem económica moderna; esta, vinculada às condições económicas e técnicas da produção, com uma força irresistível, determina hoje o estilo de vida, não apenas da população activa mas de todos os indivíduos que nascem dentro desta engrenagem. E, provavelmente, isto poderá continuar a acontecer até que o último quintal de combustível fóssil seja queimado. (…) Ao mesmo tempo que se assistia à transformação e influência exercida pelo ascetismo sobre o mundo, estes bens superficiais adquiriram um poder crescente e depois irresistível, sobre os homens, como nunca antes aconteceu na História. Hoje, o seu espírito escapou-se dessa estrutura, quem sabe se para sempre. O capitalismo triunfante, após ter adquirido bases mecânicas, já não precisa desse apoio. E a boa disposição do iluminismo, o seu sorridente herdeiro, também esmoreceu. A ideia do “dever profissional” ronda pela nossa vida como um fantasma dos conteúdos religiosos do passado. Nos casos em que a “realização do dever profissional” não pode ser directamente ligada aos valores espirituais e culturais mais elevados – ou, ao contrário, quando tem de ser compreendida subjectivamente como uma coacção económica –, o indivíduo de hoje acaba por renunciar a qualquer tentativa de justificá-la. A procura de riqueza, no lugar de maior desenvolvimento – os Estados Unidos –, tende, despida do seu sentido ético-religioso, a associar-se a paixões competitivas, que lhe conferem não raro o carácter de desporto. Ainda ninguém sabe quem habitará essa estrutura vazia no futuro e se, ao cabo desse desenvolvimento brutal, haverá novas profecias ou um renascimento vigoroso de antigos pensamentos e ideais. Ou se, não se verificando nenhum deste dois casos, tudo desembocará numa petrificação mecânica, coroada por uma espécie de auto-afirmação convulsiva. Nesse caso, para os “últimos homens” dessa fase civilizacional, tornar-se-ão verdade as seguintes palavras: “Especialistas sem espírito, folgazões sem coração: estes nadas pensam ter chegado a um estádio da humanidade nunca antes atingido.”»

Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, trad. port. Ana Falcão Bastos e Luís Leitão (Lisboa: Presença/Ad Astra et Ultra S.A., 2010) 197, 198-9.