quinta-feira, 19 de junho de 2008


.
Dar a pensar...


«Após o assassínio de dois distintos holandeses, o político Pim Fortuyn em 2002 e o realizador Theo van Gogh em 2004, por extremistas islâmicos como retaliação às suas críticas ao Islão, dois membros do parlamento holandês foram forçados a viver em instalações secretas sob pesada protecção. Um deles, Geert Wilders, tem vivido numa cela de prisão; o outro, Ayaan Hirsi Ali, está confinado a uma base militar. Ambos receberam várias ameaças de morte. Quais são os seus crimes? Criticaram o islamismo extremista, nomeadamente, o tipo de extremismo que levou à morte de Fortuyn e Van Gogh e que os ameaçou a eles de morte. A ironia da sociedade liberal ocidental é que tem de restrigir a liberdade e esconder pessoas inocentes que exerceram o direito à liberdade de expressão, enquanto que aqueles que iriam destruir a nossa liberdade têm as suas liberdades protegidas, de tal modo que andam pelas ruas das nossas cidades e é-lhes permitida ampla oportunidade para exercer actos de violência.»

Louis Pojman, Terrorism, Human Rights, and the Case for World Government (2006), trad. Célia Teixeira, Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial (Lisboa: Ed. Bizâncio, 2007) 45-6.

terça-feira, 17 de junho de 2008


Leituras…


…muito úteis e proveitosas podem ser as de António José Fernandes, Introdução à Ciência Política – teorias, métodos e temáticas (Porto: Porto Editora, 2008). Trata-se de uma introdução equilibrada e acessível à Ciência Política, em que o autor, natural de Múrias, Mirandela, Professor Catedrático da Universidade do Minho (aposentado) e em exercício na Universidade Lusófona do Porto (onde ocupa, desde 2005, o cargo de Reitor), especialista nesta área do saber, que consiste na «observação, análise, comparação, sistematização e explicação dos factos e acontecimentos políticos» (p. 12), propõe uma explanação, com sentido pedagógico, dos principais problemas da ciência política, esclarecendo os seus conceitos nucleares e apresentando as suas principais teorias.

Com o intuito de ser lido por estudiosos que procuram uma abordagem sistemática das temáticas da ciência política, o seu cariz pedagógico coloca-o, no entanto, também à disposição de qualquer leitor interessado em enriquecer a sua cultura de cidadania.

O seu carácter de manual (de “trazer à mão”) permite, assim, consultas fáceis e introduções eficazes a temas como: o conceito, formação e evolução do Estado; os elementos do Estado (povo, nação, território, aparelho do poder); categorias de Estados (não soberanos, semi-soberanos e soberanos); fins e funções dos Estados; os órgãos da direcção do Estado; regimes políticos; grupos de interesse e grupos de pressão; sistemas de partidos; sistemas eleitorais; terminando com uma abordagem sobre as concepções ideológicas de poder.

Há mais vida para além da política; o que quer dizer, porém, que também a há para aquém – e talvez seja mesmo esta, para o bem e para o mal, uma parte da vida mais fundacional, a partir da qual se pode erigir, melhor ou pior, uma vida verdadeiramente humana, livre e justa. Não há como estar consciente, atento e esclarecido acerca desse alicerce.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A “fraqueza” do futebol numa Suíça fortemente atractiva para se viver

Ontem, durante o jogo do Euro 2008 Portugal-Suiça, um comentador de uma televisão portuguesa criticava as condições infra-estruturais que a Suíça apresentava para este Campeonato Europeu: num dos estádios onde decorre o Euro, os jornalistas até têm, para se deslocarem do centro de imprensa até ao estádio, de atravessar uma linha de comboio e uma avenida; “em Portugal não havia um estádio em que isso acontecesse!”, ironizavam. Conclusão?! A Suíça parece ser um país menos desenvolvido que Portugal, já que organiza um campeonato europeu de futebol sem ter construído estádios de raiz, com as excepcionais e condigníssimas condições, absolutamente indispensáveis para uma actividade de transcendente importância!

Talvez seja até verdade que, para um país como Portugal ter condições para ganhar uma organização de um campeonato europeu de futebol, como foi em 2004, seja necessário mais do que a Suíça teria, à partida para oferecer, tendo que aparecer infra-estruturas grandiosas para atrair os decisores da UEFA.

Mas mais importante do que este pormenor (não é líquido que Portugal tenha obrigatoriamente que ter delapidado erário público para tantas e tamanhas obras futebolísticas, com as melhores condições do mundo para o desenrolar de um campeonato como aquele) importa salientar que muitas pessoas em Portugal continuam, infelizmente, a pensar que o desenvolvimento de um país e as condições de vida das pessoas se medem pelo futebol. Se aqueles jornalistas, que proferiram aquela crítica, tivessem pensado um pouco mais e olhado um pouco à sua volta (para além do estreito mundo futebolístico) teriam, com certeza, constatado como a Suíça, apesar de não ter grandes estádios de futebol, tem infra-estruturas estatais e uma organização social capaz de conceder um bom sistema de saúde, um bom sistema de ensino, de justiça e, em suma, uma vida boa a todos aqueles que aí queiram viver e trabalhar, ao contrário do que acontece, de facto, no nosso país!

Como Portugal cresceria – para benefício de todos – se o nosso mundo crescesse para além do futebol, uma de entre muitas das actividades com as quais o ser humano pode preencher a sua existência, embora não, obviamente, a mais fundamental.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Há 120 anos nascia Fernando Pessoa

«Ode Triunfal

(…)

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas tantas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes –
Na minha mente turbulenta e encandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta).

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o mar antigo e solene, lavando as costas
E sendo misteriosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

(…)»

Álvaro de Campos, Ode Triunfal (Junho de 1914/Orpheu, n.º1, 1915)

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Privação da liberdade, pela liberdade

A Câmara dos Comuns aprovou ontem uma alteração à lei anti-terrorista britãnica, que passará de 28 para 42 os dias de prisão preventiva dos suspeitos de actos terroristas, a fim de dar mais tempo à investigação, antes de proferida a acusação. (Veja-se, por exemplo, no The Guardian, mais notícias e o já acesso debate sobre o tema.)

Tal medida é sempre polémica, pois interfere, de forma, pelo menos aparentemente, contraditória, com um dos direitos mais fundamentais que formam as sociedades democráticas liberais, que impede o Estado de privar o indivíduo da sua liberdade sem um julgamento justo. No entanto, os cuidados, com certeza justificados, com este e outros direitos dos indivíduos, não deve impedir as nossas sociedades liberais de, justamente para zelar pela efectiva liberdade de todos, tomarem as ameaças à segurança dos indivíduos como algo muito sério e prioritário e, portanto, alvo de apertadas e rigorosas medidas normativas de prevenção e sanção.

Os estados democráticos e liberais não podem, pois, cair na irónica e também claramente contraditória situação de, por exemplo, privar pessoas ameaçadas por possíveis actos terroristas da sua liberdade escondendo-as, escoltando-as (como aconteceu com políticos holandeses ameaçados, após o caso das polémicas caricaturas de Maomé), enquanto os suspeitos de terem participado ou virem a participar em actos terroristas vêem, por seu turno, as suas liberdades altamente protegidas, permitindo-se que circulem livremente pelas ruas das nossas cidades, proporcionando-lhes assim amplas oportunidades para poderem praticar actos de brutal mega-violência.

terça-feira, 10 de junho de 2008



Dar a pensar...


«(...) Na Antiguidade, a participação de cada indivíduo na soberania nacional não era, como nos nossos dias, uma hipótese abstracta. A vontade de cada um tinha uma influência real; o exercício dessa vontade era uma satisfação viva e repetida. Como tal, os antigos estavam dispostos a fazer grandes sacrifícios para conservarem os seus direitos políticos e a sua participação na administração do Estado. Cada qual, ao sentir com orgulho o valor do seu sufrágio, encontrava na consciência da sua importância pessoal uma profunda recompensa.

Actualmente, tal recompensa já não existe para nós. Perdido na multidão, o indivíduo quase nunca se apercebe da influência que possui: a sua vontade nunca deixa marcas sobre o conjunto, nem vê com os próprios olhos o resultado da sua cooperação. O exercício dos direitos políticos não nos oferece mais do que uma pequena parcela da satisfação que dele retiravam os antigos; ao mesmo tempo, os progressos da civilização, a tendência comercial da nossa época, a comunicação recíproca dos povos, multiplicam até ao infinito os meios de satisfação particular.

Daqui resulta que devemos ligar-nos, mais do que os antigos, à nossa independência pessoal; de facto, os antigos, ao sacrificarem essa independência aos direitos políticos, sacrificavam menos para obter mais; ao passo que, se fizéssemos um sacrifício idêntico, estaríamos a sacrificar mais para obter menos.

O objectivo dos antigos era a partilha do poder social entre todos os cidadãos da mesma pátria; era a isso que chamavam liberdade. O objectivo dos modernos é a segurança do seu bem-estar privado; e chamam liberdade às garantias que as instituições concedem a esse bem-estar.»

Benjamin Constant, La Liberté des Anciens Comparée à celles des Modernes, trad. port. de António de Araújo, A Liberdade dos Antigos Comparada à Liberdade dos Modernos (Coimbra: Edções Tenacitas, 2001) 16-17.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Reacção do MCLT

O Movimento Cívico pela Linha do Tua (MCLT) já reagiu ao último descarrilamento de uma automotora, ocorrido na passada sexta-feira de manhã, na famigerada (e mal-amada por muitos, que parece nunca a terem percorrido!) linha do Tua, acusando o governo de ocultar partes dos relatórios sobre os acidentes e estudos realizados na linha. Veja-se aqui.

domingo, 8 de junho de 2008

Livros em saldo

Envolta pelo bucolismo dos jardins românticos em redor do Pavilhão Rosa Mota, com o Douro ao fundo, cruzado pelos velhos rabelos carregados com a última colheita de turistas, a 78.ª Feira do Livro do Porto é uma das mais bem ambientadas do país.

Ao contrário, por exemplo, da Feira do Livro de Coimbra, que escolheu um figurino que envolveu espectáculos musicais dentro do pavilhão – coisa que, certamente, pouco beneficiava a consulta e leitura dos livros expostos –, a Feira do Livro do Porto manteve um ambiente sóbrio, propício ao que se espera de uma mostra de livros a preços mais acessíveis – a sua consulta criteriosa com vista a uma selecção de compras. Depois da polémica, os livros são sempre os livros!

Apesar dos preços não serem assim tão mais baixos quanto seria desejável para o “devorador” de livros, é sempre uma actividade agradável percorrer os escaparates em busca de proveitosas e deleitosas leituras. Últimos dias – a decorrer até terça-feira.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

O descarrilamento da política do medo

É absolutamente impressionante como a incúria, incompetência e aberrante (para não dizer simiesca) desresponsabilização da empresa responsável (?!) pela manutenção da linha, terá provocado mais um descarrilamento de uma composição na linha ferroviária do Tua.

Parece óbvio que, num país com uma organização ético-política terceiro-mundista, uma linha ferroviária que está condenada a desaparecer não tenha uma manutenção cuidada e exigente (já que vai encerrar...!).

Pior só mesmo o Governador Civil de Bragança aproveitar a ocasião para mostrar que, uma vez que a linha está a dar tantos problemas e, afinal, não é assim tão necessária nem tão-pouco importante, o melhor é mesmo fechá-la! Trata-se de uma grotesca falácia, já que este tipo de acidentes não são propriamente uma inevitabilidade trágica, que obrigasse o homem responsável e tecnologicamente dotado do início do terceiro milénio a desistir de tal empreendimento face às forças da natureza!! Trata-se, pois, de puro terrorismo político, uma vez que gera medo nas pessoas que utilizam ou venham a utilizar aquela linha, procurando levá-las a aceitar a decisão de encerramento como algo absoluta e inquestionavelmente necessário.

domingo, 1 de junho de 2008

Dia Mundial da Criança



.
Dar a pensar...


.
«O mundo está cheio de desigualdades -- dentro dos países e entre os países. Algumas crianças nascem em lares confortáveis e prósperos e crescem bem alimentadas e bem-educadas. Outras nascem pobres, são mal nutridas e nunca têm acesso a uma educação e tratamento médico suficientes. É claro que isto é uma questão de sorte: não somos responsáveis pela classe económica ou social ou pelo país em que nascemos. A questão consiste em saber quão más são as desigualdades que não são culpa das pessoas que as sofrem. Deverão os governos servir-se dos seus poderes para tentarem reduzir as desigualdades deste género, pelas quais as suas vítimas não são responsáveis?

(...) A principal questão quanto à própria desigualdade é esta: que tipos de causas de desigualdade são erradas? A principal questão quanto às soluções é a seguinte: que métodos de interferir com a desigualdade são certos?»

Thomas Nagel, What Does It All Mean (New York: Oxford University Press, 1987), trad. de Teresa Marques, Que Quer Dizer Tudo Isto? (Lisboa: Gradiva, 1995), 71, 74.


Fotografias...



“...Até ao país do nunca!”
(2008; fotografia sobre ecrán de televisão)
© Miguel Portugal


sábado, 31 de maio de 2008

Liberdade económica

A título de curiosidade (ou talvez não!) veja-se aqui um atlas da liberdade económica, produzido pelo Fraser Institute do Canadá (via Causa Liberal).

Vitória da credibilidade

Os militantes do PSD escolheram hoje MFL para líder do partido, que figurará na história como a primeira mulher eleita para a liderança do partido. Jogaram pelo seguro. Talvez tenha sido mesmo a melhor escolha para a revitalização do partido, da política nacional e para o renovar da esperança num país melhor. Esperam-se agora algumas clarificações quanto àquele que me parece o aspecto mais importante da campanha de MFL – as preocupações sociais. É de fulcral importância o modo como arquitecturará a sua harmonização com o rigor económico e financeiro. Aguarda-se, pois, a preparação para as próximas eleições legislativas.

Do outro lado das trincheiras, as preocupações avolumam-se, pois os socialistas sabem a credibilidade nas ideias e na execução que MFL poderá capitalizar junto dos eleitores descontentes, que são muitos.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Escolha difícil entre dois bons candidatos

Do debate de ontem na SIC e SIC-Notícias entre os quatro candidatos à liderança do PSD (e a Primeiro-Ministro de Portugal!) ficou definitivamente claro que:

1. Há dois bons candidatos à liderança -- Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho. Patinha Antão é um bom elemento, representando (e bem) alguma força de alguma sociedade civil interessada em contribuir para a melhoria da governabilidade do país (não esteve bem ao lado de PSL no ataque emotivo a MFL); Pedro Santana Lopes está irremediavelmente fora de questão, dada a retórica artificialista e populista de poder (uma das razões de delapidação do partido) com que continua a apresentar-se aos eleitores e a consequente irremediável falta de confiança que inspira.

2. A escolha centra-se, em termos de fiscalidade, entre jogar pelo seguro e manter, por enquanto, os impostos (designadamente sobre os combustíveis) para não fazer diminuir as receitas do Estado e não criar instabilidade económica e desconfiança nos investidores (MFL) e arriscar diminuir o ISP para aliviar os encargos das famílias e das PMEs, mas sem garantias de que não seja mais um passo atrás na consolidação das contas públicas (PPC).

3. A escolha centra-se, em geral, no rigor, na experiência e sabedoria políticas, no despojamento ideológico e, sobretudo, na frontalidade da verdade e na recusa do populismo da promessa de MFL e na aposta de um candidato promissor, dada a sua juventude, para solidificar um novo rumo e uma nova forma de estar na política de PPC, que poderia ser um bom rival de Sócrates daqui a um ano.

De resto, grosso modo, as diferenças de substância não são muitas, com PPC afirmando, modernamente, o seu liberalismo (com preocupações sociais) de forma mais vincada que MFL, que prefere apostar no pragmatismo, em vez de enveredar por precisões ideológicas.
.
Como candidato a PM que se apresentará ao eleitorado português e não apenas aos militantes do PSD, a questão é saber se, por um lado, não será demasiado tarde para MFL e se as suas políticas irremediavelmente parecidas (e não necessariamente erradas) com as melhores políticas liberais deste PS de Sócrates não a colarão demasiado ao status quo e, por outro lado, se não será demasiado cedo para PPC e se as suas políticas declaradamente mais liberais -- que podem até ser o futuro, mas que colhem os protugueses numa profunda crise de identidade política, social e económica (para vingar numa sociedade mais liberal é necessário ser-se bom profissional, realmente bem qualificado, empenhado e esforçado, coisa que muitos de nós, em geral, não somos!) -- serão bem compreendidas e melhor interpretadas pelos agentes políticos e económicos, mas, sobretudo, pelos agentes sociais.

Em suma: jogar pelo seguro ou arriscar?!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A apatia cancerígena de uma sociedade em crise

Na passada semana, o economista Luís Nazaré escrevia no Jornal de Negócios, a seguinte frase lapidar:

«Que bom seria se (…) trabalhássemos que nem chineses, tivéssemos taxas de aproveitamento escolar que nem indianos e inovássemos que nem finlandeses, sem gastarmos dinheiro em betão.»

É claro que é discutível se seria mesmo bom trabalhar que nem chineses (i.e., arduamente!). Seremos obrigados também – ainda que talvez apenas por mero exercício retórico – a questionar se taxas de aproveitamento escolar idênticas às dos indianos resolveria os nossos principais problemas económicos e sociais! Também podemos sempre questionar outro tanto (e pelas mesmas razões!) acerca da inovação à finlandesa! E como viver sem os empregos sazonais – mais do que precários: ilusórios – criados pelo betão, num país embriagado (qual terceiro mundo) pela opulência arrogante do cargo público, elegível através da fachada e não das ideias que resolvem problemas públicos de fundo?!

Mas o que é certo é que a sociedade portuguesa vai sobrevivendo (mal), sem sequer se questionar muito sobre os fundamentos filosóficos, políticos, económicos e sociais do, pelo menos aparente, modelo único da modernidade, que é o liberalismo, ainda que com preocupações sociais. A sociedade civil, em geral, vive alheada das grandes questões político-sociais de fundo, não desenvolvendo no seu seio, por um lado, reflexão suficiente acerca das possíveis alternativas, a existirem, ao modelo económico e social liberal, nem tão pouco (coisa igualmente exigente) adaptando-se a esse modelo, que se tem vindo a consolidar, apesar das críticas e tentativas de correcção, como o modelo característico da modernidade política, económica e social, hoje mais ou menos disseminado pelos cinco continentes. E do lado do timoneiro também não têm soprado bons e, muito menos, orientadores ventos: os sucessivos governos não têm conseguido resolver os problemas estruturais económicos e sociais, nem têm conseguido minimamente motivar uma absolutamente necessária mudança de mentalidades.

A apatia intelectual e, portanto, política, económica e social da sociedade portuguesa é um cancro mortífero, que nos tem vindo a tolher nas últimas décadas e a descolorir completa e paulatinamente a velha (demasiado velha?!) perseverança e entusiasmo portugueses. O grande problema da sociedade portuguesa (diferentemente das grandes economias em ascensão, como a Índia e a China, bem como de outros pequenos países semelhantes ao nosso, como, por exemplo, a Irlanda) é, pois, a falta de consciência de mundo e de iniciativa reflexiva, mas, sobretudo, a falta de empreendedorismo, de esforço e empenho responsáveis na acção… quer para superar o sistema (o que seria, hoje, tão improvável quão genial e salvífico!), quer tão-só para, simplesmente, nos adaptarmos a ele.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Petróleo $130

O facto das reservas de barris de petróleo extraído, por exemplo pela Arábia Saudita, se terem esgotado nos últimos anos, devido ao forte incremento da procura, explica naturalmente, à luz da lei da oferta e da procura, o aumento dos preços ditados pelo cartel dos produtores (OPEP) às grandes “Big Oil” mundiais (como já aqui referi). Os preços do barril de crude continuam, por esta via, a subir.

Contudo, esta explicação está longe de explicar o fenómeno altamente especulativo dos preços do “ouro negro” no mercado português. A cartelização das pequenas “Big Oil” nacionais, com a Galp à cabeça, da importação, refinação e distribuição dos combustíveis parece, isso sim, estar na origem de subidas de preços que vão muito além das leis do mercado e estão a prejudicar enormemente a economia nacional.

Mesmo para os mais liberais, parece óbvia a necessidade de intervenção da entidade reguladora para investigar a formação dos preços dos combustíveis em Portugal.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Palma(s) para Manoel de Oliveira!

Quase tão velho quanto o próprio cinema, Manoel de Oliveira foi ontem galardoado, numa sessão muito especial, com a Palma de Ouro do Festival de Cannes, um dos mais conceituados festivais de cinema do mundo. Não se tratou apenas de um prémio de carreira; foi uma merecidíssima admiração por tamanho portento criador da sétima arte.

Longe da pressão das bilheteiras e dos críticos, sem se deixar enredar na teia da superficialidade populista do tempo, o cineasta português continua a fazer cinema com uma leveza quase pueril, mas com a profundidade apenas acessível aos mestres criadores. Motivo de orgulho deve ser um português com lugar de destaque para sempre na história do cinema.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Acordo ortográfico para quê?

"Torre de Babel"
(Bruegel)

Uma das questões que me parece mais controversa no novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é o facto deste acordo fazer tábua rasa da origem etimológica como explicação da ortografia das palavras alteradas. Como educador não posso deixar de lamentar a supressão de uma explicação racional (amiúde utilizada com elevada eficácia compreensiva) em favor de uma explicação convencionalista mais superficial, com base em razões políticas que escolhem a fonética estrita como fonte explicativa ilusória. A etimologia é uma rica arma de apredizagem da semântica e ortografia das línguas, muito útil quando se trata de mostrar aos aprendizes da língua por que razão, por exemplo, se escreve ação (e não acção). Pode até surgir a questão: por que não escrever com dois "s"?!
.
Grande favor (ou nem por isso!) vai fazer o acordo para quem não estava de bem com a distintiva grafia de verbos como o "vir" e "ver" na terceira pessoa do plural do presente do indicativo ou do conjuntivo, que antes se grafavam, respectivamente, "vêm" (verbo "vir") e "vêem" (verbo "ver"), quando agora o último passará a grafar-se simplesmente "veem", sem acento circunflexo!

Mas há outras razões para rejeitar este acordo, que são bem mais prosaicas. No passado dia 22 de Abril, Desidério Murcho sintetizou no jornal Público as suas principais críticas ao Acordo Ortográfico (veja-se aqui).

Em rigor, não só não faz sentido acordar sobre ortografia de uma língua, como as alterações realmente e não artificialmente introduzidas são muito mais bem feitas e eficazmente implementadas pela liberdade dos falantes das várias culturas linguísticas da pequena babel do português, que se espraia por esse mundo fora, do que por decreto governamental centralista, que tudo quer normalizar.
.
Trata-se, pois, de um acordo político subserviente e sem grandes implicações práticas e não de um efectivamente necessário acordo ortográfico. E depois... as simplificações nem sempre simplificam, sobretudo quando impostas para, neste caso, servir supostos interesses não linguísticos (afirmação política no mundo?!) e deste modo completa e desnecessariamente artificial.

sexta-feira, 16 de maio de 2008


Leituras…



…de esperança, com Olivier Reboul, A Filosofia da Educação, trad. port. de António Rocha e Artur Morão (Lisboa: Edições 70, 2000). Olivier Reboul (1925-1992), um dos mais importantes filósofos da educação do séc. XX, apresenta-nos, numa pequena obra editada em 1971 na conhecida colecção das P.U.F. "Que sais je?", uma estimulante síntese introdutória à Filosofia da Educação, na qual percorre, num estilo mais questionador do que resolutivo, as principais questões e aporias da educação: desde a definição da própria educação e das antinomias da pedagogia (constrangimento e desejo, transmissão e espontaneidade, incerteza e tecnicidade, ruptura e continuidade), passando pelas questões centrais da autoridade e do rigor e desembocando no húmus problemático essencial da filosofia da educação, que é a questão da relação entre educação e valores, analisando as tentações do positivismo, do relativismo e da indiferença e interpelando-se/nos sobre o que vale a pena ensinar.

A resposta de Reboul, para suscitar o interesse:

«Podemos então propor esta dupla resposta: vale a pena ensinar o que une e o que liberta.
O que une: sim, o que vale a pena ensinar é o que integra cada indivíduo, de um modo duradouro, numa comunidade tão vasta quanto possível. E é por isso que se ensina uma língua em vez de um dialecto, as ciências em vez do ocultismo, o autor seleccionado pela história em lugar de um romance que está na moda.
(…)
O que liberta, tal é o segundo critério. Ao fim e ao cabo o que há de comum entre as diversas disciplinas, entre a educação física, técnica, artística, intelectual e até entre os diversos ramos desta, o científico e literário? Justamente isso. A ginástica, a dança, o desporto libertam-nos das nossas durezas, faltas de jeito, crispações, desperdícios de energia. O ensino artístico: tem por objectivo formar imitadores ou criadores? Na nossa opinião, a oposição é fictícia, e o verdadeiro objectivo do ensino artístico é permitir a cada um fazer o que quer, pintar o que quer pintar e como quer pintar. O ensino intelectual, ao libertar dos chavões e dos preconceitos, permite expressar-se e pensar por si mesmo. Quanto à educação moral, ela não consiste em tornar as pessoas “conformes”, mas em libertá-las daquilo que as domina e as cega.» (pp.81-82)

A Filosofia da Educação é uma das áreas da reflexão filosófica que detém uma particular importância para educadores e professores, sobremaneira num tempo de crises e reformas educacionais em Portugal. (Como seria bom se estivesse integrada no curriculum de formação de professores!) A esperança renascerá para quantos tiverem acesso a este pequeno opúsculo de estilo problematológico e inquietante, mas profundamente esclarecedor da teia que entretece uma das mais nobres quão exigentes e complexas actividades humanas, que é a alimentação inacabada da liberdade com outros!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Como o fantástico pode ser deprimente!

É absolutamente fantástico como o PM José Sócrates, o ME Manuel Pinho e outros membros da comunitiva que acompanhou o PM à Venezuela violaram a lei do tabaco a bordo de um avião da TAP. Mas, de facto, esta situação (que se transformou já em mais uma historieta política com uma beleza portuguesa muito própria), completamente surrealista (pelo menos segundo critérios objectivos de avaliação da actuação política de qualquer político numa democracia esclarecida e madura), é, infelizmente, deprimente.

Quando a falta de confiança dos portugueses para com os políticos e o consequente afastamento da política continua a aumentar é necessário não escamotear responsabilidades: são, sem dúvida, este tipo de actuações eticamente deploráveis e vergonhosas, protagonizadas pelos mais importantes titulares de cargos públicos (do poder central ao local), as principais e maiores causas para essa quebra de confiança, destruidora do mais elementar vínculo de sentido entre governados e governantes. E são deploráveis e vergonhosos estes comportamentos pelo simples facto de um PM de um país que atravessa uma importante fase de derradeira implementação de rigor ético na atitude perante o trabalho, a lei, as responsabilidades, os outros, não ter sido capaz de evitar tão grosseira violação da lei.
.
Ao invés, pois, de uma atitude nobre de serviço, muitos políticos (cada vez mais?!) escancaram no rosto dos seus representados, eleitores soberanos (pelo menos de 4 em 4 anos!), uma atitude de prepotência e completa falta de caracter indispensável para exercer cargos públicos. A acção política séria é uma coisa séria e, portanto, não se compadece com estes "deslizes"!
.
Agora, José Sócrates, para emendar a mão, pede desculpa, e, para manter a pose, lá terá que deixar de fumar! Mas este pedido de desculpa (com um tocante apelo à santa ignorância!) e este golpe de mestre retor não colhem mais. Já poucos são aqueles que têm condições para aceitar estes cínicos pedidos de desculpa e estes encenados pseudo-sacrifícios pessoais!

terça-feira, 13 de maio de 2008

Requiem por Rauschenberg

"Bicycle - National Gallery"

Morreu Robert Rauschenberg (22 Outubro 1925 - 12 Maio 2008), um dos artistas plásticos, fotógrafos e performers mais estimulantes e criativos da pop art e da arte contemporânea em geral, cuja vida criativa foi um desafio constante dos limites da imaginação e da criatividade, consubstanciado numa sempre provocatória obra de arte em busca do infinito, ainda que a partir dos mais elementares materiais.

"8th-Van-Cliburn-International-Piano-Comeptition-1989"

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Acontecimento editorial

A revista norte-americana Foreign Policy começou a ser editada em português. Trata-se de uma revista bi-mensal de Relações Internacionais, que tem a colaboração de filósofos, economistas, cientistas políticos e outros especialistas académicos de gabarito. É daquelas revistas que se lêem com grande interesse do primeiro ao último artigo. Um excelente acontecimento editorial e um excelente instrumento de formação e informação política de qualidade indispensável para compreender o nosso mundo.

O seu terceiro número em português traz, como tema de capa, um artigo sobre o Islão, da autoria do especialista em Médio Oriente Graham E. Fuller, que foi vice-presidente do National Intelligence Council na CIA e é actualmente professor-adjunto de História na Simon Fraser University de Vancouver. Fuller defende a inteligente, informada e despreconceituosa tese de que o mundo não só não seria melhor sem o Islão (outras estruturas ideológico-religiosas fariam o contraponto conflituoso com o Ocidente), como se trata de uma religião, cuja força unificadora, talvez possa permitir um patamar mais seguro para um melhor entendimento no futuro com o Ocidente. Obrigatório.

Petróleo $125

O preço do barril de crude voltou a bater recordes nos últimos dias. O preço aumenta, aumenta a preocupação dos consumidores e, com isso, as dificuldades em compreender o que se está a passar.

Uma das teses explicativas mais divulgada é a de que o preço tenderá a aumentar porque o petróleo está a acabar. Nada de mais errado, segundo alguns analistas: há hoje mais reservas comprovadas de petróleo do que há três décadas, dois terços do petróleo que se sabe existir está ainda por explorar e as tecnologias de extracção e refinação estão a ser apuradas, atirando, assim, para mais longe o fim.

Mas a que se deve esta subida de preços? Uma explicação adianta que se trata do efeito natural da lei da oferta e da procura, visível também noutros mercados: a procura aumentou bastante (em países em desenvolvimento, com a China à cabeça) e as reservas de petróleo extraído, por exemplo da Arábia Saudita, estão a esgotar-se. O cartel do “ouro negro” mantido pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), tinha, até há pouco tempo, conseguido extrair mais petróleo do que aquele que enviava para o mercado, mantendo assim os preços baixos (designadamente, a Arábia Saudita, o maior produtor mundial). Agora, devido à súbita elevada procura, já não o conseguem fazer, o que provocou alguma escassez de petróleo extraído e o consequente aumento dos preços.

Outra ideia que parece, pois, errada é a de que são as grandes multinacionais petrolíferas compradoras, refinadoras e extractoras a ganhar rios de dinheiro com a especulação dos preços. Mas, afinal, estas limitam-se a aceitar os preços que lhes são impostos pelos maiores detentores da extracção e reservas de petróleo – a OPEP.

A solução política que se tem vindo a sustentar – quer para o problema económico, quer de dependência face ao petróleo, quer para o problema ecológico – é bem sintetizado pelo correspondente da revista The Economist Vijay V. Vaitheeswaran num artigo esclarecedor da Foreign Policy de Jan./Fev. 2008:

«O papel muito importante dos governos, as mais das vezes negligenciado, é o nivelamento no campo das políticas. Os governos têm o poder de regular as forças que podem influenciar os mercados de energia mas não se reflectem nos preços dos mercados. Impondo limites às emissões de gases, instituindo novas taxas, ou terminando com os subsídios às indústrias alimentadas a combustíveis fósseis podem impelir os inovadores em energias limpas a saírem da sombra e vir à luz do dia. Criar um ambiente em que novas tecnologias possam prosperar e permitir que os mercados façam o que melhor sabem – compensar a inovação e a eficiência – devia ser o objectivo dos governos. Felizmente existem cada vez mais evidências de uma procura, por parte dos cidadãos e de empreendedores, para uma tal revolução de políticas centradas no mercado. É essa a revolução que nos levará, finalmente, à vida para além do petróleo.»
.
(Para análise crítica desta perspectiva veja-se aqui.)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

No dia da Europa...(2)

No dia da Europa era interessante pensar como seria de todo desejável que se produzisse uma reflexão mais profunda sobre o Tratado Constitucional Europeu e a construção europeia. Se a ratificação do Tratado de Lisboa através do instituto do referendo (forma ainda sobrevivente de democracia directa!) pudesse ter sido um verdadeiro risco político, que talvez Portugal não devesse correr neste momento (dada a ainda alguma falta de formação política generalizada), teria constituído, no entanto, a circunstância ideal para que esse debate tivesse efectivamente acontecido no nosso país.

De qualquer modo, celebrar o dia da Europa em Portugal deveria fazer recordar essa necessidade -- a necesidade de uma verdadeira, aprofundada e rigorosa reflexão/(in)formação sobre a construção europeia, para que as pessoas se começassem a habituar a outras ideias de futuro, como a hipótese do federalismo e a tese do governo mundial.