quinta-feira, 24 de março de 2011

Preocupações

A preocupação maior é, agora, não estrita e directamente política, mas financeira. A imprensa estrangeira assim o destaca. A ajuda financeira é inevitável (Le Figaro). Os líderes europeus terão que se empenhar em acalmar os mercados, como destaca, em primeira linha, o El Pais. Será que Portugal vai conseguir financiar-se (sobreviver) até às eleições -- perguntamos nós? Quanto vai custar aos parceiros da UE tantos erros, que nos precipitaram para a irremediável ajuda internacional -- perguntam, por exemplo, os ingleses?

Vivemos, por cá, os primeiros momentos (naturalmente de agitação) a seguir à grande explosão primordial. Que se forme um universo novo!

Finalmente... Do mal, o menos!

Finalmente. O PM ilusionista, mestre de retórica, mestre da manipulação, que ilude tudo e quase todos, caiu -- digo: precipitou a queda. Uma crise política agora é negativa para o país. Prosseguir seria surrealisticamente terrífico. Do mal o menos.

Chegou a hora de começar de novo. De começar, não do zero, mas de algures abaixo do nada (como se em termos económicos e de bem-estar social tivesse sido quase agora o 25 de Abril!). Resta agora esperar pela competência política e técnica para recomeçar a resolver os problemas estruturais do país, através de reformas sérias e com futuro.

Solução? A ideal seria, obviamente, um governo de união nacional que congregasse os três maiores partidos. A solução possível é uma óbvia vitória minoritária do PSD e uma coligação pós-eleitoral com o PP. E esperemos que a vontade seja mesmo reformista e congregadora de uma maioria à espera de um verdadeiro governo ("condutor") do país.

Não podemos estar radiantes, porque a situação é grave. Mas, pelo menos, livrámo-nos de José Sócrates, o que, para (re)começar, já não é nada mau.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ainda há ideias sobre Educação. Faltam as acções!

Eis um artigo de opinião sobre o sistema de ensino que defende uma tese aparentemente controversa.

Controversa por duas ordens de razões.

1. A primeira, porque se baseia numa análise fundada em estudos empíricos, com garantia científica. Paradoxalmente, estas análises chocam, em geral, com o destinatário desta opinião , que, em geral, não valoriza este tipo de argumentação, porque não possui cultura científica suficiente para reflectir nestes termos, o que nos arreda para os confins de um caótico lodaçal educativo, político, cívico.

2. Depois, controversa, agora com uma base mais discutível, por se basear numa comparação com países com melhores resultados, como a Finlândia e alguns "tigres da Ásia" (Singapura, Coreia do Sul), cujas culturas estão alicerçadas numa valorização do saber e do ensino bem mais forte do que aquela que somos capazes, devido a influências histórico-culturais decisivas (a primeira, fortemente influenciada pela cultura protestante, que privilegia o esforço, o empenho, o dever rigoroso e valoriza o saber; os segundos, influenciados pelo confucionismo, que valoriza a sabedoria do idoso, abrindo-se o neófito religiosa e empenhadamente à veneração dessa sabedoria).

A tese central, concreta, seria turmas maiores e muito bons professores, com remuneração elevada para atrair os melhores. Elementar. Mas: turmas maiores com estes alunos, com esta forma de estar da sociedade perante a disciplina, o rigor, o esforço? Melhores professores implicaria regular novamente a acreditação das universidades para a formação de professores, instituir provas de acesso à profissão e implementar modelos rigorosos, objectivos de avaliação de desempenho! E coragem e competência (política e técnica) para isto?

Não deixa de ser, no entanto, uma análise corajosa e um bom rumo possível a seguir, no meio de tanta superficialidade e falta de ideias e princípios orientadores de uma política verdadeiramente educativa e salvadora das próximas gerações, que podem estar perdidas.

Mas, o que é necessário é pensar o que na cultura histórica portuguesa existe (se existe!) no qual se possa ancorar tal atitude positiva, pro-activa, da sociedade, em geral (políticos, pais, empresários, professores), para com a educação. O principal problema da educação em Portugal é, como há muito referem estudos sociológicos, a fraca valorização que a sociedade portuguesa faz do saber e da educação. Só depois vêm: a completa irresponsabilidade e ignorante perspectiva que os políticos têm tido, nas últimas décadas e apesar de melhorias pontuais (nunca de fundo), de tão fulcral base político-social (por muito que estes tenham sempre a responsabilidade de orientar politicamente e de dar o exemplo!); o papel sectarista e pobre de perspectiva dos sindicatos; e a, alguma (pelo menos a espaços), mediocridade cultural e política de muitos professores, que após o 25 de Abril se pavonearam na sociedade como aqueles que ganhavam algum dinheirito sem trabalhar e hoje (muitos deles bons profissionais -- onde é que estaríamos se assim não fossem?!) se sentem num campo de batalha de uma guerra sem móbiles nem comandantes.

Muito há a fazer, pois. Não será fácil. As mentalidades sempre foram o mais difícil de mudar.

terça-feira, 15 de março de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[3]

«Em terceiro lugar, a predisposição à inovação. Se há competências que têm vindo a ser valorizadas nas últimas décadas, são aquelas que sustentam atitudes favoráveis à inovação em contextos culturais de gestão de mudança. Trata-se de uma consequência das alterações profundas operadas nos sistemas de produção e de criação cultural, especialmente na busca incessante de novas soluções, quer de carácter tecnológico, quer organizacional, quer mesmo na concepção do produto.

(…) A pressão sobre a inovação tende a ser cada vez mais intensa, contínua e necessariamente planeada.

Inovar para competir, desde a escala local à escala global, parece ser o sentido do desenvolvimento das sociedades modernas.

Como nos preparamos para estes desafios?

A educação tem um contributo a dar, mas não através de uma pseudocultura de inovação educacional que dominou a reflexão pedagógica nas últimas décadas. O entusiasmo acrítico pela inovação educacional, porque não reflectido em função dos problemas de base e não processada pelo conhecimento, conduziu ao mimetismo de experiências estranhas, à adopção voluntarista de experiências não avaliadas e à replicação no ensino de práticas e lógicas de inovação tecnológica e organizacional que pouco ou nada tinham que ver com a educação.

O experimentalismo voluntarista, mas descontrolado, generalizou-se a muitas escolas portuguesas, sem que se avaliassem os efeitos directos sobre as crianças – que não são “produtos” – e sem que se monitorizassem os resultados e os efeitos. Desde a distribuição dos lugares na sala de aula, ao “aprender, brincando”, tudo eram “boas práticas” e confesso que nunca tive a oportunidade de ver alguém dizer, por exemplo, que esta experiência falhou, que foi um erro, ou seja, que foi uma “má prática”. É mais útil difundir uma má prática como forma de alertar e dissuadir a sua replicação do que banalizar a inovação e as boas práticas. Por isso começo a defender, sem grande sucesso, diga-se, e realização de “seminários de más práticas”.

(…) A inovação educativa é algo de enorme delicadeza porque estamos a trabalhar com crianças, requer reflexão aturada e não a adesão entusiástica, a monitorização dos processos e a avaliação comparada dos resultados. Sem isso, o risco de ficar tudo na mesma é bem menor que o insucesso.

O que precisamos de desenvolver nas novas gerações são as atitudes favoráveis à inovação e à capacidade empreendedora associadas à afirmação da autonomia reflexiva e responsável. Isso requer recentrar as aprendizagens na capacidade de formular e resolver problemas, sem prejuízo do domínio prévio, por exemplo na Matemática, dos algoritmos e dos conceitos fundamentais. Essa particular maneira de pensar não pode ficar confinada à Matemática, vai muito para além dela para estar presente nos mais variados domínios, desde o ambiente à história, da literatura às ciências.

Muitos educadores dão uma especial ênfase ao desenvolvimento da capacidade criativa junto dos seus alunos, nomeadamente nos primeiros anos de escolaridade. Esse é um bom exemplo do que não se deve fazer. Ninguém cria a partir da ignorância, ninguém inova sem conhecimento adquirido. Tal como o ensinar, criar e inovar dá muito trabalho e requer muito conhecimento. Por isso falamos em desenvolver atitudes favoráveis à criação e à inovação e não da pretensa prática precoce de o fazer.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 97-9.

sábado, 12 de março de 2011

À rasca -- humanamente?!

Terá acontecido hoje uma das maiores manifestações jamais havidas um pouco por todo o país, sobretudo em Lisboa. Milhares de pessoas manifestaram-se contra as enormes incertezas laborais - de futuro - em que vivem. Estamos a atravessar um período negro da nossa democracia.

Isto é assim, porque nas últimas décadas Portugal foi governado por políticos estupidamente optimistas, infantilmente idealistas e, sobremaneira, por políticos descaradamente oportunistas, que coleccionaram incompetências e irresponsabilidades, quando foram aumentando salários e admitindo pessoal na função pública, investindo em estradas e auto-estradas desfasadas da nossa economia, até ao cúmulo do TGV, e foram criando espectativas surrealistas a uma população ignorante, inconsciente e política e culturalmente imberbe, que se habituou a sonhar com o el dorado, o totoloto e o euromilhões, sem que nunca nenhum político tivesse tido a capacidade e coragem de incutir ideias de esforço, empenho, serviço, indústria, qualidade, conquista, orgulho, competência, rigor e... paciência.

Esta geração tem muitos jovens adultos à rasca, mas pior estavam os pais, mais ainda os avós, pior ainda estarão os seus filhos... A não ser que essa mesma geração comece por fazer um pouco mais e melhor do que se encontrar na rua depois de uns cliques indiscretos nas modais redes sociais, que são óptimas, ao que parece, para passar o tempo.

Provavelmente, era melhor começar a votar, nem que fosse em branco. Talvez fosse melhor começar a exigir uma educação básica, secundária e (em certo sentido, sobretudo) superior de qualidade, em vez de continuar a trapassa do "tirar/roubar" um curso, qualquer que seja, mesmo que seja uma "engenharia da defecação" - engenharia sem Física nem Matemática, claro, que isso é chato - ou umas relações internacionais sem saber Inglês ou com Inglês técnico ao Domingo! Talvez não fosse má ideia começar a querer saber mesmo, a desenvolver competências cognitivas, sociais, culturais e políticas a sério, para que comecem a aparecer ideias comerciais, económicas, sociais, políticas novas, que contribuam para resolver problemas.

É tempo, iremediavelmente, de encarar a realidade, de deixar o facilitismo da casa dos pais, do consumismo fútil, do emprego para toda a vida (que já não se pode viver sem isto, aquilo e ainda mais aqueloutro)... e correr mundo. É chegada a hora do realismo.

Que faria esta geração à rasca se tivesse que governar o país? Faria melhor que os meninos do papá e da mamã das juventudes partidárias que se têm "desenrascado" recriando poder(es) para si e para os seus, no lugar de servir o país? Fariam melhor que os políticos locais que de Câmara em Câmara, da esquerda à dreita, inventam empregos (não trabalho, claro) aos amigos com cartão, à custa do dinheiro de quem produz e paga impostos? Que ideias para a organização política da sociedade (para a economia, para a educação, saúde e justiça) tem esta geração dita "à rasca"?

Toda a gente está seduzida por este protesto dos "jovens". É um protesto, que a altura é de indignação. Mas também é demasiado fácil, politicamente correcto. No entanto, a situação do país, de todos nós, sobretudo das gerações vindouras, é demasiado séria para nos limitarmos à simples indignação e para não sermos substancialmente críticos na análise.

O pai que alimentou falsas espectativas, tem culpa. Mas o filho que comodamente não quer crescer não pode ser triunfalmente ilibado como um inocente.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[2]

«Em segundo lugar, a abundância de informação. Hoje há mais informação disponível, mas provavelmente vivemos numa fase que eu classificaria de imatura ao que se projecta para daqui a quinze ou vinte anos. O ritmo de produção de informação tenderá a acelerar-se, a globalização do acesso vai acentuar-se e a acumulação dessa informação atingirá escalas inimagináveis.

De há muito se fala de excesso de informação e dois problemas que apresenta, mas para além dessa abundância coloca-se também o problema da obsolescência, informação que “mata” ou desvaloriza a informação, a um ritmo crescente, tornando o “mercado” uma amálgama de ofertas perante procuras potencialmente insuficientes.

Neste contexto, surge a necessidade premente de avaliação da sua utilidade e da sua validade. Ora, essa avaliação exige capacidades cognitivas redobradas: saber definir muito bem a utilidade e a finalidade da busca de informação, saber questionar e analisar criticamente, ter capacidade de a apropriar com vista a tomar uma decisão ou a produzir nova informação.
É previsível um melhoramento das tecnologias de informação, desde os motores de pesquisa à gestão de bases de dados, mas esse avanço não irá dispensar a boa utilização das ferramentas, a capacidade análise, de reflexão e síntese por parte do utilizador. Ora estas capacidades exigem formação prolongada e sistemática, integrando o que atrás designámos por “saber pensar”. Não bastará o domínio dos operadores lógicos, é necessário saber questionar, formular bem os problemas, construir hipóteses e identificar com rigor o objecto da pesquisa.

Mas há um outro desafio, o da passagem da perspectiva do utilizador para a do criador, do produtor de nova informação. Só assim poderá haver utilidade social e valor acrescentado. A informação, por isso só, não passa de uma matéria-prima. Acrescentar-lhe valor implica processá-la e torná-la socialmente reconhecida.

Como lá chegar através da educação? Começando, desde os primeiros anos de escolaridade, com as coisas mais simples: a leitura, análise e interpretação de textos, por exemplo, ou da prática de análise de fontes históricas, das operações mais simples de raciocínio lógico associados aos primeiros exercícios de estatística ou ao hábito de medida, registo, leitura e interpretação de observações de fenómenos quotidianos (temperatura do ar, humidade, tensão arterial, entre tantos outros exemplos possíveis).»
David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 96-7.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Fotografias

“Viagem #1”
(Lisboa, Junho 2009)
© Miguel Portugal
“Viagem #2”
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal
“Viagem #3”
(Bilbao, Abril 2009)
© Miguel Portugal

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[1]

«Que tipo de sociedade vamos ter em 2025? Não será fácil responder de forma objectiva e suficientemente ampla a esta questão. Mas conhecemos algumas tendências.

Em primeiro lugar, a incerteza. Os últimos vinte anos da história mundial recolocaram o problema da reduzida visibilidade prospectiva, dificuldade característica dos períodos de obsolescência e aceleração dos processos de mudança. Fenómenos como a globalização, a inovação tecnológica contínua, as novas formas de competitividade nos mercados internacionais, o aumento de mobilidade das diferentes formas de capital, especialmente de capital humano, estão a transformar as bases da organização social, das economias e dos Estados.
(…)
É necessário preparar e educar as novas gerações para a incerteza. Como? Centrando o ensino e as aprendizagens no adquirido fundamental, a saber: diversificada formação cultural (as línguas, as literaturas, a historia, a filosofia, as artes) combinada com uma sólida cultura científica (a matemática e as ciências).
(…)
A incerteza exige, antes de mais, solidez de conhecimentos e capacidade de os mobilizar para situações novas. Essa solidez adquire-se com esforço – nomeadamente de memorização –, treino, trabalho sistemático e disciplina. A capacidade de mobilizar o conhecimento desenvolve-se através da prática de resolução de problemas, do incentivo à reflexão, do raciocínio demonstrativo, do confronto as soluções. Os dois requisitos completam-se e tornam-se indispensáveis principalmente quando sustentados em atitudes favoráveis aos processos de mudança e adaptação, nomeadamente de carácter organizacional.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 94-5.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O génio maligno

«(…) Há sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida.»
(Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Tiro ao lado ou uma questão de perspectiva

A canção de intervenção “Parva que sou”, dos Deolinda, tem feito furor. Não admira, é um pequeno gritito de dor. Mas quiçá a perspectiva não seja assim tão acertada: afinal, colocar sobre os ombros dos jovens a responsabilidade das condições económicas e sociais actuais é não ter uma consciência política plenamente objectiva. Os políticos que têm ocupado o poder, só os temos porque alguém os escolheu; mas não foram outros senão eles mesmos a cavar a nossa sepultura. Se houve populismo, e não foi pouco, foi porque o povo assim o permitiu; mas sempre foram os políticos na posse do poder a desperdiçar a oportunidade de enveredar por caminhos mais firmes e certeiros, mesmo que menos populares.

Compare-se a letra (que talvez tenha atirado ao lado) do original, com esta versão “à direita” de Rui Passos Rocha, do Douta Ignorância.

“Parva que Sou”, Deolinda:

«Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!

Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!

E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'casinha dos pais',
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!

Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!

E fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'vou queixar-me p'ra quê?'
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!

Sou da geração 'eu já não posso mais!'
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!

E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.»

Versão “à direita” de Rui Passos Rocha, do Douta Ignorância:

«Sou da geração sem remuneração
e sei que me tentam vender uma ilusão.
Os parvos que lá estão!

Porque isto vai mal e está p'ra piorar.
Não é assim tão mau eu poder estagiar.
Que parvos que eles são!

Assim posso demonstrar
que tenho valor
e que, quando for possível,
quererei assinar.

Sou da geração «casinha dos pais».
Como ficaram com tudo, vou exigir-lhes mais.
Que parvos que eles são!

Filhos, esposas, estou sempre a adiar
E a culpa é de quem nos quis deslumbrar.
Que parvos que eles são!

E fico a pensar,
endividar os mais novos,
assim, cada vez mais,

só pode acabar mal.

Sou da geração «vou queixar-me p'ra quê?»
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parvos que eles são!

Sou da geração «eu já não posso mais»,
que esta situação dura há tempo demais.
E parvos eles não são!
 

Isso faz-me desejar
que quem me governa
pense mais na minha
do que na sua geração.»

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Americanização da cultura?

Um dos argumentos mais fortemente críticos do fenómeno da globalização, entrados que estamos numa fase altamente acelerada no último meio século, é o do perigo da homogeneização cultural – uma cultura (a ocidental, em particular a americana) disseminar-se-ia de tal modo, que se tornaria dominante, acabando por elidir toda a diversidade cultural, antropologicamente tão rica.

Mas antes de considerações axiológicas (ser bom ou mau), devemos atender a questões de facto – essa homogeneização parece não estar a acontecer, pelo menos nos moldes algo simplistas como os seus críticos inicialmente denunciavam.

Joel Waldfogel e Fernando Ferreira, da Wharton School (escola de gestão da Universidade da Pensilvânia), examinaram as canções que estiveram nas tabelas de música pop mais vendidas de 22 países, entre 1960 e 2007, e depois compararam a quota de cada país no mercado da música pop com a dimensão da sua economia.

Claro que os sucessos americanos dominavam, representando 51% dos discos vendidos durante este período. Mas ajustado ao PIB, a Suécia (quem não se lembra dos bem sucedidos ABBA?) lidera, seguida da Grã-Bretanha. Ao contrário da crítica que alerta para uma americanização da cultural, o que está a acontecer é que há mais pessoas em todo o mundo a ouvir música dos seus países de origem – os artistas estrangeiros representam agora, segundo o estudo, apenas 30% do top de cada país, bem menos do que os 50% registados nos anos 80.

É certo que os artistas mais populares em todo o mundo fazem música rock e hip hop com uma sonoridade tipicamente americana e ainda há uma nítida vantagem em cantar em inglês. Mas o referido estudo mostra que, no lugar de uma monocultura americanizada, os países mais pequenos estão a tornar-se intervenientes significativos no mercado mundial da música.

Fonte:
Joshua Keating, “O poder do soft rock. Terá o domínio cultural americano encontrado a sua Waterloo?”, Foreign Policy - Edição FP Portugal, n.º 18 (Outubro/Novembro 2010) 16.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre a felicidade]

«Valorizamos a felicidade por si mesma e não apenas por ser instrumental. Mas o próprio conceito de felicidade esconde algumas armadilhas. Uma concepção subjectivista da felicidade considera que na felicidade só conta o que uma pessoa sente, interiormente, sendo irrelevante a origem do que a faz sentir-se feliz. Isto é implausível, porque, a ser verdadeira, significaria que seria para nós irrelevante se a fonte da nossa felicidade é a realidade ou uma fantasia. Mas isto não é irrelevante para nós: se uma fonte importante da minha felicidade é a amizade dos meus amigos, é para mim muitíssimo relevante se a amizade deles é genuína ou fingida.

Outra concepção implausível da felicidade é crer que se trata de algo que podemos fazer. Pelo contrário, a felicidade é algo que resulta de muitas actividades a que nos dedicamos, mas não é em si algo que possamos fazer. Porque não é algo que possamos fazer, é também implausível uma terceira ideia comum sobre a felicidade: que é algo que se pode obter fazendo algo momentoso especial, findo o qual ficamos felizes – mais ou menos como alguém que, depois de muito esforço, ganha uma medalha. (…)

A felicidade é um valor fundamental para todos nós, mas não se pode ser feliz visando a felicidade. É-se feliz cultivando-se actividades de valor e alargando a compreensão dos nossos talentos e limites. É-se feliz acrescentando valor ao mundo e apreciando o valor que encontramos no mundo. Mas isto não se faz senão fazendo coisas muito diversas – essas coisas banais que todos fazemos todos os dias e que incluem ser médico e curar pessoas, ou ser escritor e contar histórias, ou ser pai, mãe, filho ou amante carinhoso, ou cozinheiro de talento, ou professor paciente. Entregarmo-nos a actividades de valor é uma condição necessária para a nossa felicidade e há muitas actividades de valor. A verdadeira dificuldade é evitar atribuir valor ao que o não tem e não dar suficiente valor ao que o tem. Mas isso é algo que só aprendemos com a experiência, a reflexão e o estudo. Não há receitas mágicas.

Outra ilusão a evitar quando se reflecte sobre a felicidade é esquecermo-nos de quem realmente somos: mamíferos com certas peculiaridades, e ao mesmo tempo seres cognitivamente sofisticados. Nem deuses, nem bestas – mas um pouco de ambos, num certo sentido. Isto significa que vidas que privilegiem apenas as nossas preferências de mamíferos – a alimentação e o sexo, por exemplo – ou que privilegiem as nossas preferências cognitivas – o estudo e o conhecimento – terão poucas probabilidades de serem realmente compensadoras. Os seres humanos são tão incapazes de uma vida realizada vivendo como porcos como são vivendo como deuses. Daqui conclui-se que a ânsia de imortalidade, que está provavelmente no cerne do impulso religioso de algumas pessoas, pode ser uma tremenda ilusão: sendo nos o que somos – e somos seres intrinsecamente temporais – uma existência sem fim ou atemporal poderá parecer uma promessa paradisíaca, mas é bem mais razoável crer que será, na verdade, diabólica.

Precisamos de ser judiciosos na descoberta do valor, e isto implica dar uma grande atenção à realidade do que somos. (...)»

Desidério Murcho, A Filosofia em Directo (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011) 61-2.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Do Egipto para o mundo

Um governo serve para gerir o bem público. Nesse sentido, deve ser formado por pessoas capazes de o fazer bem. Nesta ordem de ideias não é logicamente necessário retirar a consequência de que tal governo tenha de ser democrático. Afinal, um ditador benevolente e competente servia perfeitamente este desígnio – governaria bem e ainda com a vantagem de deixar mais tempo livre aos cidadãos para conduzirem as suas próprias vidas sem preocupações políticas. Além disso, quando os cidadãos não são suficientemente capazes de tomar decisões para escolher os seus representantes, alguém terá de assumir essa nobre função por eles.

É nestes termos que mais ou menos todos os ditadores, como Hosni Mubarak e tantos outros, a nível internacional, nacional ou local, pretendem justificar o seu poder intocável e perpétuo. Afinal, é muito comum um qualquer coisa como “tudo farei, mas para vos salvar!” ou “seria o caos se deixasse o governo”. Há por esse mundo fora muitas democracias suspensas por oportunismos que servem “castas”; nenhuma por razões atendíveis, certamente.

Mas será esta justificação da ditadura aceitável? Não. Peca, antes de mais, por pressupor erradamente que o ditador seria incorruptivelmente benevolente, interessado apenas no bem público e não nos seus interesses ou dos seus. Além disso, pressupõe que há indivíduos sumamente competentes, perfeitamente capazes de exercer, sem mácula, as funções governativas. Mas o que é facto é que todo o ser humano é falível – ser humano e não um autómato é, justamente, ser falível. E, assim, não existe tal ditador benevolente e perfeitamente competente. Logo, a ditadura não pode ser a melhor forma de governo.

Aliado a esta falsa infalibilidade de alguns divinos eleitos, os defensores do sistema ditaturial erram, embora em graus variáveis, quando pressupõem que os cidadãos não estão preparados para assumir autonomamente as decisões de escolha dos seus representantes. Afinal, isso é talvez pressupor demasiado. Se pode ser verdade nalguns casos, que é certamente, não é verdade para todos e, em muitas sociedades, até pode ser uma interessada generalização precipitada.

De qualquer modo, sendo o ser humano falível, nada melhor do que arquitectar um sistema de governo capaz de lidar com essa falibilidade. É o caso da democracia. Se por acaso se erra na escolha dos líderes, há sempre a possibilidade de escolher outros. Para além de um conjunto de mecanismos que se desenvolveram ao longo da história, como a separação de poderes e o escrutínio público através de uma imprensa livre, tornarem o sistema democrático bastante bem fortalecido contra uma falibilidade humana nefasta.

Claro que a democracia também tem os seus defeitos. Mas, como dizia o velho Churchill, não deixa de ser «the worst form of government except from all those other forms that have been tried from time to time.» Apenas quem se ilude ainda com a possibilidade de existência do ser humano perfeito é que não está em posição de compreender este raciocínio claro: por muito benévolos e competentes que sejamos, não estamos imunes ao erro; sendo assim, há que permitir que, da sã e aberta concorrência aos lugares da governação, surjam os mais bem posicionados para os ocupar; logo, só um sistema de eleição democrática, plural e livre de representantes dos cidadãos pode atenuar esta falibilidade humana. Tanto quanto sabemos hoje, só a democracia preenche estes requisitos.

Pena é que os ditadores, com excepções desconhecidas, não se apercebam disto senão tarde demais, quase sempre depois de derramado muito sangue e com perdas sacrificiais altamente despropositadas e absurdamente injustas.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Fotografias

“Três taças de gelatina #1”
(Janeiro 2011)
© Miguel Portugal
“Três taças de gelatina #2”
(Janeiro 2011)
© Miguel Portugal
“Três taças de gelatina #3”
(Janeiro 2011)
© Miguel Portugal

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre educação e equidade social]

[3]

«Curiosamente, terá sido nos períodos áureos de afirmação do romantismo educativo, sintetizado na expressão corrente de “eduquês”, que as taxas de reprovação atingiram os níveis mais elevados. Talvez se explique esse facto pela forma como se gerem as expectativas educacionais: se forem baixas, ajustando-se à baixa auto-estima do aluno, decerto se produzirão resultados fracos; se forem altas, aumenta-se a probabilidade de sucesso educativo. É reconhecido o facto de o esforço e as expectativas das crianças e dos jovens se ajustarem facilmente aos objectivos que lhes são colocados. Se lhes pedimos pouco, eles naturalmente darão pouco, se, pelo contrário, lhes pedimos muito, darão muito mais. (…)
É evidente que as taxas de retenção e desistência têm vindo a baixar desde o princípio da década, facto que contradiz algumas das visões mais pessimistas aquando da introdução dos exames nacionais do 12.º ano (1997) e do 9.º ano de escolaridade (2005) que previam, de acordo com a lógica de que os exames só servem para aumentar o insucesso, um aumento da retenção e da desistência. Afinal o que se passou foi exactamente o contrário. Podemos facilmente concluir que os exames são perfeitamente compatíveis com o sucesso escolar.

Um bom professor, tal como uma boa escola, é aquele que consegue contrariar o determinismo sociológico do estatuto socioeconómico familiar pela qualidade do seu ensino, pela forma como potencia as aprendizagens, pelas expectativas que consegue criar e pelas capacidades que consegue desenvolver nos alunos. Por isso dá tanto trabalho ser professor!

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 90-92.

Quatro anos

Há quatro anos dava início a este blog, com o intuito de dar a pensar, na ocasião, sobre o aborto, na altura objecto de referendo. Os temas de teoria política e de educação e ensino compõem o cardápio. A actividade de reflexão e escrita que me impulsiona tem continuado e, por isso, o blog se tem mantido. Feliz ou infelizmente, não sei muito bem, motivos para pensar e escrever criticamente sobre política e educação não têm faltado. Não vão continuar a faltar, certamente.

Continuarei a privilegiar o texto mais cuidado e a argumentação minimamente exigente para tratar temas e problemas políticos e educacionais -- recorrendo, por vezes, aos conceitos, teorias e argumentos filosóficos --, em detrimento do comentário rápido e diário. A finalidade não é marcar uma presença diária -- é pensar.

Agradeço aos que me têm visitado, cujo número tem aumentado (agora numa média de 27 visitantes diários), aos que o fazem com regularidade e aos que ainda gastam algum tempo a deixar um comentário.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Filosofia em directo

Vem amanhã a acompanhar o Público, Filosofia em Directo, de Desidério Murcho, uma pequena obra de divulgação da filosofia. A Fundação Francisco Manuel dos Santos, que a edita, tem publicado um conjunto de pequenas obras, que pretendem ser sínteses essenciais, em várias áreas do conhecimento e da acção, para ajudar o grande público a melhor compreender Portugal (uma das que também saiu entretanto foi A Ciência em Portugal, do conceituado físico português Carlos Fiolhais).

Foi entregue ao filósofo Desidério Murcho, professor na Universidade Federal de Ouro Preto, no Brasil, a tarefa de trazer ao grande público o essencial sobre a filosofia. A ideia é «fazer o leitor assistir em directo, pela força do exemplo e sem mediações históricas nem academismos, ao raciocínio filosófico intenso» (p.12). Consequentemente, trata-se de convencer as pessoas de que ter “umas tintas de filosofia”, na expressão do britânico Bertrand Russell, é importantíssimo para uma vida verdadeiramente humana e até mesmo útil para uma vida bem sucedida numa era cada vez mais exigente: «Ter uma formação elementar em filosofia é importante porque nos ensina a pensar melhor sobre problemas de tal modo complexos que a tentação é desistir de tentar resolvê-los» (p.11). Estilo fácil e atraente, embora sem perder o rigor e a contundência do pensamento filosófico, Filosofia em Directo promete ser uma deliciosa introdução à filosofia e ao filosofar, percorrendo, entre outros, tópicos como democracia, liberdade, valor, sentido, realidade, raciocínio e verdade.

Membro da direcção da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Desidério Murcho é autor de várias obras, designadamente sobre o ensino da filosofia, escreve crónicas na imprensa e dirige a revista Crítica. Com raras excepções, em Portugal não abundam títulos deste género assinados por autores portugueses e o país real vive ainda sob o jugo de infundadas ideias feitas sobre o que seja a filosofia e pesados preconceitos sobre a sua utilidade. Por isso, apesar de pequeno, é um acontecimento editorial, pois trata-se de uma importante contribuição de um académico português para o esclarecimento do público não especializado acerca do que é a filosofia e da mais-valia que competências e conhecimentos filosóficos podem trazer a todos.

Já não há desculpas para não saber (nem sequer pelo preço: €3,15)!

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Análise imperdível

Este texto de António Barreto no Público é uma síntese surpreendentemente realista do sistema político português e mostra claramente a podridão bafienta do sistema que nos aprisiona. Mesmo para quem é adepto de reformas, uma "revolução" é cada vez mais a consequência lógica!

Algumas notas sobre as presidenciais

Cavaco. Dos que votaram, a maioria votou nele. Ganhou. As suas palavras de vitória foram descomedidas. Em contraste com a sua campanha serena e elevada, em que não respondeu às críticas, algumas legítimas, contra o seu carácter ético, Cavaco atirou, finalmente (e a matar!), contra os seus delatores. Estes, por sua vez, não conseguiram, durante a campanha, mostrar como qualquer candidato a qualquer cargo público, notavelmente ao cargo de mais alto magistrado da nação, deve manter uma integridade ética à prova de qualquer suspeita. Cavaco não o conseguiu. Os seus opositores não conseguiram mostrar se isso era ou não verdadeiramente importante politicamente neste contexto actual (que é sempre, resta saber em que medida).

Mas se a integridade ética deveria ser condição necessária para aceder a um cargo político (uma questão de confiança), não é certamente uma condição suficiente. Os eleitores mostraram isso mesmo. Afinal, era necessário também um garante de que o país possa retomar algum rumo ou, pelo menos, uma segurança de que não irá fugir-lhe demasiado. Cavaco mostrou ser essa garantia. Mais ninguém.

Alegre fez uma campanha estranhíssima, com o apoio do PS e contra o governo PS, com o apoio do BE, grande crítico do governo PS. Não poderia ter funcionado. Não conseguiu evitar o populismo da busca algo desesperada de casos que abalassem a integridade ética de Cavaco e, paradoxalmente ou não, foi exasperantemente incapaz de demonstrar como essa falta de integridade poderia ser má para o actual momento do país.

Nobre, uma nobre “vitória”. O Alegre de 2011, o independente que confirmou a tese de que a política democrática não se faz, exclusivamente, (tóxico)dependente de associações partidárias. Afinal, os movimentos cívicos de cidadãos, que se não reconhecem justamente com as máquinas partidárias, por vezes carregadas de seguidismos acéfalos e, certamente, com pouca capacidade crítica e oportunismo quanto baste em lugar de autonomia, são uma realidade em qualquer sistema político democrático sadio. Com um problema: não conseguem ser, pelo menos ainda, forças suficientemente mobilizadoras de poder.

A abstenção. Claramente uma derrota da esquerda, normalmente mais empenhada no acto político popular do voto, e do centro esquerda, que poderia ter reafirmado a sua convicção socialista! Derrota com Alegre à cabeça. Se era altura para mostrar que o contraponto do governo PS estava errado, era agora. Não foi. Porque não estava errado. Cavaco continuará a mostrar o caminho e a apontar os erros, à espera que o governo de Sócrates caia pelo seu pé. A sua cooperação poderá até ser, assim o status quo o exija, mais actuante, mas não será nenhuma bomba-atómica, porque Cavaco é um homem de paz, na sua prudência. Sócrates terá que cair pelo seu pé. E nisso há aparente acordo no PSD (talvez não tanto no PP), que espera a sua vez, aparentemente a resguardar os interesses do país a um linchamento socrático.

Para o fim, o pior: José Manuel Coelho e os cartões de cidadão. Coelho teve 4,5% dos votos. O mega-populista e demagogo, candidato disfarçado de homem do povo (como se, no caso do nosso povo, isso fosse salvífico!), o quase “Tiririca português”, mostra como a cultura, tout court, e a cultura política, em particular, de muitos portugueses continua a ser uma das forças de bloqueio da mudança necessária, neste aferrolhamento sócio-político-civilizacional em que encalhámos. É lamentável pensar como muitos há ainda que “pensam” que votar “Coelhos” é a melhor forma de exercer o seu direito cívico.

O pior dos piores, a abstenção provocada pela vergonhosa incompetência administrativa relativa a eleitores portadores de cartão de cidadão. Própria de terceiro mundo, esta imagem de um país modernaço sem capacidade para operar com as máquinas e se organizar é confrangedora. Devia sê-lo sobretudo para o governo, que protagoniza mais uma calamitosa incompetência, a denegrir ainda mais a imagem do país e a defraudar direitos políticos básicos dos cidadãos. Inaceitável, embora já tudo seja, por ora, expectável.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Pela estabilidade política

Mesmo apesar dos “casos” BPN e BPP, em que o actual Presidente da República não esteve nada bem, Cavaco Silva ainda assim arrasa a concorrência, com Alegre a ser uma desilusão, o PS que o apoia a confirmar a curva descendente no que toca à sua base de apoio para ocupar o poder e Fernando Nobre a erigir-se como uma democraticamente saudável surpresa.

Sem surpresas, o povo português reelegerá, no próximo Domingo, a uma só volta, um Presidente da República que se apresentou como um garante de um rumo certo a servir, ainda que apesar da sua cooperação estratégica, de contrapeso aos desvarios dos governos de José Sócrates.

A estabilidade política é mesmo um valor sério em alturas de séria conturbação nacional e de preparação de um novo e decisivo rumo para o país.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre educação e equidade social]

[2]

«Há inquestionavelmente um processo de democratização do ensino que se expressou timidamente ainda durante o Estado Novo e que explode de forma quase incontrolável nas duas primeiras décadas do regime democrático. Nesta perspectiva, não tem comparação a dimensão desse acesso nos dois regimes.

Porém, se o regime autoritário seleccionava na passagem do ensino primário para o liceal, o sistema de ensino “democrático” não deixa de o fazer de forma mais imperceptível: selecciona ao longo do trajecto escolar do aluno através das reprovações e das desistências, bem expressas pelas mais elevadas taxas de reprovação e de abandono escolar que são registadas no conjunto dos países europeus. Ou seja, cria-se a ilusão de um fácil acesso, mas depois enfrenta-se um sistema de ensino que não está concebido para ter sucesso.

Só existem duas formas extremas de responder a este efeito de discriminação: fazer baixar os níveis de exigência em nome da equidade social ou, mantendo os níveis de exigência, melhorar os métodos de ensino e mobilizar todos os recursos para prevenir essa discriminação. Como é evidente, o primeiro tipo de solução é o mais fácil de concretizar, mas a prazo rapidamente se conclui que não passa de uma perigosa e irrecuperável ilusão.

É no contexto desta tensão entre equidade social e qualidade de ensino que se criam as condições para a afirmação das visões “românticas” que tendem a confundir a consequência com a causa ou a desvalorizar os meios em função de um fim superior. Esquecem que a melhor forma de atingir esse fim não será “descer” ao aluno, mas fazê-lo “subir” a um nível superior de capacidade intelectual. As deficiências culturais só se superam com mais trabalho, maior capacitação e não iludindo a sua existência. Por isso, na maior parte dos casos, a preocupação de discriminar positivamente os mais fracos traduz-se num reforço dessa mesma fragilidade.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 89-90.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O que não interessou divulgar do PISA

Leia-se este artigo de opinião sobre alguns resultados do PISA, que os nossos opinion makers e a comunicação social irresponsavelmente ignoraram. Ou não se deram ao trabalho de procurar? É que, afinal, Sócrates não terá, decididamente, razão quando afirma que os bons resultados a leitura se deveram, não aos professores (que interessa contiunar a denegrir junto da opinião pública ilusionisticamente paralisada e ainda muito pouco crítica), mas às suas políticas extraordinárias. É claramente falso!

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre educação e equidade social]

[1]

«Nas últimas décadas e um pouco por todo o mundo reconhece-se que as desigualdades educativas tendem a reproduzir as desigualdades sociais. O problema nem se deverá colocar entre os alunos das famílias com maiores rendimentos e património face aos alunos provenientes de famílias pobres. Coloca-se sim entre os alunos cujas famílias têm um elevado nível de escolaridade e de “capital cultural” e aquelas que o não têm.

Para muitos não é a escola que faz a diferença, é o nível de escolaridade dos pais dos alunos qe sustenta a diferença entre a maior ou menor probabilidade de sucesso educativo. Se assim fosse, a escola e a educação como instrumentos de ascensão social não passariam de uma ilusão rapidamente desfeita pelo grilhão cultural da família de origem. Seríamos um mero produto do sucesso ou insucesso dos nossos pais, sem direito a sonhar ou a lutar por um estatuto social mais elevado.

Mas não será bem assim. O que hoje sabemos da investigação científica neste articular domínio é que, para além do papel preponderante do capital familiar no sucesso dos alunos, há outros factores que fazem a diferença, desde a escola à qualidade e competência dos seus professores, a organização do sistema de ensino, o papel da comunidade e das relações sociais de proximidade e, não menos importante, a capacidade de todos poderem gerar expectativas elevadas e oportunidades sociais que as realizem.

O determinismo que faz do futuro de uma criança um produto do seu estatuto económico-social teremos de o confrontar com a capacidade que algumas sociedades revelam de contrariar essa dependência e abrir caminhos de equidade e de promoção social e cultural. Quanto mais o conseguirem, mais desenvolvidas se tornam.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 87-8.

sábado, 8 de janeiro de 2011

A certificação do bom candidato a profissional

Não me parece que o estilo de Marinho Pinto seja o mais adequado para Bastonário da Ordem dos Advogados – excessivamente belicoso e incómodo por definição, peca, muitas vezes, pelos excessos que empresta aos alertas que faz aos atropelos ao exercício da justiça.

De qualquer modo, pelo menos numa coisa parece ter razão: diante de uma suficientemente díspar qualidade da formação inicial em Direito dos inúmeros candidatos; diante de um número talvez mesmo excessivo para as necessidades; diante, sobretudo, de uma alteração substancial à estrutura das licenciaturas em Direito, através do processo de Bolonha, com o legítimo indício de eventual perda de qualidade dessas licenciaturas – é muito natural, sensato e, porventura necessário, fazer uma selecção prévia ao estágio profissional, por via de testagem de conhecimentos básicos mínimos indispensáveis, à candidatura a advogado.

A existência dessa selecção inicial na candidatura à profissão serviria mesmo como um factor de incremento da qualidade dos licenciados por cada Universidade, que teria assim de aumentar o nível de exigência para que os seus licenciados podessem estar mais bem preparados que outras instituições.

Deixar ao “mercado” livre a selecção natural dos melhores em detrimento dos menos capazes não seria justo. Ao contrário do que defendem alguns iluminados modernaços, que advogam serem um entrave ao acesso às profissões (só se for um entrave para os que não sabem!), as ordens profissionais fazem todo o sentido, justamente, se fizerem prevalecer a qualidade do exercício das profissões que regulam. Sobremaneira no caso da advocacia, deixar que seja a satisfação dos clientes a seleccionar os mais aptos em detrimento dos menos capazes seria demasiado injusto. O cliente, que viria a sofrer consequências demasiado graves para a sua vida pelo facto de ter entregue o patrocínio a um advogado menos capaz, não merece correr este risco, já que a justiça é um valor demasiado fundamental.

O mesmo serve para outras profissões demasiado importantes para os seus clientes ou utentes, que devem ter uma selecção séria e rigorosa dos candidatos (munidos de formação académica inicial) que a ela concorrem, como sejam médico, professor, engenheiro, entre outras.

A criação da existência de um exame de conhecimentos de acesso ao estágio de advocacia (ou outro) até pode ser inconstitucional, por ser da competência exclusiva da Assembleia da República legislar sobre direitos, liberdades e garantias (art.º 165.º, n.º 1, al. b) da CRP). Mas o problema não deixa de subsistir. E, por isso, talvez seja necessário insistir no controlo de qualidade de acesso a profissões fulcrais. E para tal, não podendo uma ordem profissional fazê-lo por iniciativa própria, deverá a Assembleia da República ter a coragem de o fazer. Em alternativa, ou até cumulativamente, há que rever o modelo de certificação de instituições de ensino superior, cuja qualidade é, muitas vezes, claramente duvidosa, mas que continuam a conceder licenças para exercer profissões.

Não se vê como aumentar o rigor no acesso a profissões cujo exercício é tão vital para as pessoas possa ser, em si mesmo, mau (até para os próprios candidatos!).

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Bandeira da vergonha

Num país tão electronicamente dotado, graças a um choque tecnológico eficientíssimo, de Novas Oportunidades salvíficas e de tanta competência… como é possível um presidente de um banco (Francisco Bandeira - BPN) não saber operar com uma agenda electrónica? O que marcava não era de somenos importância – uma audição na Assembleia da República, órgão magno da nossa república democrática, responsável por fiscalizar a gestão da “coisa pública”. Afinal, o agendamento era tão importante, que até se enganou! Mas, a existir mesmo um lapso(!), o compromisso nos Açores seria mesmo mais importante e inadiável do que prestar esclarecimentos à Assembleia da República sobre matéria tão fulcral em época de crise económica e asfixia financeira do Estado?! A inteligência e a cultura política é tanta, o respeito pelas instituições maiores do país é tão elevada, que o senhor Francisco Bandeira nem percebeu que, ainda mais numa altura destas, esta decisão teria repercussões públicas desastrosas!

Há cada vez mais actos descaradamente irresponsáveis e desrespeitosos da “coisa pública”, que já não há paciência – houvesse coragem e verticalidade ética dos responsáveis (ao invés de oportunismo político e luta por meros interesses pessoais e partidários) e o senhor presidente seria elegantemente “afastado” do cargo, por tamanha leviandade demonstrada (de tal modo, que até terá provocado, estou certo, vergonha nos accionistas do BPN)!