domingo, 10 de abril de 2011

Houve um congresso do PS? Que festa!


O chamado “Congresso” do PS – um partido pluralista, como gostam de o apelidar! – não parecia, de todo, um congresso. Foi mais uma festa. O unanimismo era tal, que de congresso do PS não teve praticamente nada. Um líder de saída, mas aclamado em sinal de que agora “estamos contigo, Zé!”, embora seja mais: “óh Zé!”, não nos queremos enterrar contigo! E, depois, não se percebe muito bem como não se tenha falado da situação grave do país, das negociações com Bruxelas e com o FMI, do futuro próximo de austeridade… Foi um "congresso" de um partido apostado em ludibriar até ao estertor final de Sócrates. Um congresso ficcional, num país ficcionado!

Salvo talvez as excepções de Jaime Gama, que lembrou a responsabilidade de um partido que, apesar de estar em campanha, também ainda é governo num altura extremamente complexa, e de Ana Gomes (para quem «a rosa não cheira bem»), que apresentou as principais críticas a esse mesmo governo, que poderiam ter sido assinadas por qualquer outro político minimamente atento ao interesse público, o que aconteceu este fim-de-semana mais parecia, como alguém disse, uma missa da IURD! E com um momento alto, de rasgado recorte místico – António Vitorino em êxtase, “Óh Zé! Óh Zé! Óh Zé!”

É, pois, com naturalidade que o Ministro das Finanças do governo PS afirme que o pacote de austeridade deve ser negociado com os partidos da oposição (!) e que um comissário europeu tenha que mandar calar esta gente! Este é o partido, agora ainda aturdido aos pés de Sócrates, que pretende fazer passar a mensagem do bom samaritano, único guardião nacional face ao suposto ataque dos bárbaros e, mais importante, fonte inesgotável de ideias (todas verdades absolutas, claro) para uma fase decisiva para o país, agora que terá mesmo que findar o limbo de embustes e retórica manipuladora.

Não é de estranhar que, ao olhar para Portugal, os leitores de “Astérix” por essa Europa e mundo civilizado fora soltem um estarrecido “estes portugueses são loucos!!” Mas ao contrário da lendária aldeia gaulesa, que resistiu heroicamente ao invasor romano, este cantinho da Europa ficará para a história como um magote de crianças, que, às turras, escarneciam do seu povo, enquanto deixavam os financiadores à espera!

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Política de teleponto

Sócrates é, como sempre foi, o político espectáculo. Usa e abusa das velhas, mas revitalizadas e bem evoluídas técnicas retóricas. Manipula a bel-prazer. Faz o que quer da vida pública portuguesa. Banqueteia(m)-se.


Como profere o seu homónimo grego no texto platónico, a retórica apenas manipula um auditório ignorante, que não sabe o suficiente para julgar criticamente – «a retórica não tem necessidade de conhecer a realidade das coisas, basta-lhe uma certa técnica de persuasão que ela inventou para parecer, perante os ignorantes, mais sábia do que os sábios» (Platão, Górgias 459c).

O “nosso” Sócrates e assessores sabem-no bem! «Não é uma maravilhosa facilidade, Sócrates, sem qualquer estudo das outras artes, graças unicamente a esta, poder estar à altura de todos os especialistas?» (Idem.)

E Sócrates pode, como sempre pôde, brincar com as pessoas, jogar com o presente e o futuro de todos os portugueses, em troca de uma vida faustosa como político (e não só), para si e para os seus, mais directos ou indirectos colaboradores.

Mas isso não tem importância – ainda há 33% que gostam que brinquem com eles, que os manipulem, que os enganem… que os iludam – qual «ópio do povo». Marx defendia que, para o povo, o “ópio” mais atordoante era a religião; hoje, o “ópio” é a ilusão de uma vida cómoda, consumista e fácil! E quem melhor parece poder dar-nos tal paraíso nublado?!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O teclado e a caneta

Eis um debate interessante e actualíssimo, com a proliferação avassaladora das TIC na vida quotidiana do ser humano: será que ainda tem algum valor pedagógico continuar a ensinar caligrafia? Se escrevemos cada vez mais num teclado de computador e de forma mais rápida e comunicacionalmente mais eficaz, fará algum sentido continuar a ensinar as crianças a desenhar adequadamente as letras para que as suas palavras possam vir a ser eficazmente lidas por outros? Desenvolverá, ainda assim, outras competências indispensáveis, que o salvífico computador não desenvolve? E a importância e valor da estética? Discute-se nos EUA. (Via Profblog)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Boas razões para esperar um bom modelo

Santana Castilho esclareceu ontem no Público a conturbada e arriscada, mas corajosa, iniciativa parlamentar do PSD, BE, PCP e PEV para suspenderem o actual modelo de avaliação de desempenho docente, bem como clarifica os princípios orienadores da proposta do PSD para o futuro modelo, bem mais consistente e substancialmente bem mais próximo de um bom modelo, sejamos francos, do que o modelo (até me apetecia escrever "rasca") de pseudo-avaliação do PS!

Dar a pensar...

[Sobre a importância (prática) da filosofia política]

2.

«To simplify extravagantly, political views used to come in blocks, pre-packaged. If you were on the left, right, or somewhere in the middle, you knew what you thought about a wide range of issues, and you knew what your opponents thought too. This made life must easier. It was easier for politicians because they didn’t have to grope around trying to work out their precise position on difficult questions – the kind where competing considerations pulled in different directions. They just referred to their block of views, which usually supplied an answer. It was easier for voters because we knew which block politician subscribed to and could judge them by seeing what we thought about them, without getting involved in the messy details. (What we thought about it often depended on our identification with a particular party – usually the one we had inherited from our parents so there wasn’t all that much thinking going on in any case.)

Today we are suspicious to these pre-package blocks. Politicians are keen to leave behind the old dogmas and orthodoxies, to move beyond left and right, to adopt a mix-and-match approach. They have to make it up as they go along. They are willing to look at what works, to borrow good ideas from the other side. The centre-left seeks a “Third Way”. The right goes in for “compassionate conservatism”. This brings the charge of opportunism, of lacking any clear guiding principles. Politicians reply that they are not selling out; rather, they are adapting the traditional values of their party to a new context, which many include a electorate less sympathetic to those values than it used to be. Meanwhile, the parties converge, both rhetorically and in terms of policies, which makes it harder for voters to work out what they stand for. Political philosophy provides the tools that politicians, and the rest of us, require to work out what they – and we – really think about the values and principles that can guide us through these complexities.»

Adam Swift, Political Philosophy. A beginners’ guide for students and politicians (Cambridge: Polity Press, 2006, 2nd ed.) 2-3.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Claro como água

O ex-dirigente socialista e sociólogo António Barreto fez o ponto da situação da actual crise política e financeira do estado português (via Diário Económico):

«um golpe de Sócrates que provocou eleições para tentar continuar no deslize e no agravamento em que estávamos»;

«uma ideia do primeiro-ministro, de provocar uma crise na qual ele possa, eventualmente, passar por vítima»;

acusa ainda José Sócrates de «caluniar» as entidades internacionais «a quem pede ajuda» e de «caluniar os credores» depois de pedir empréstimos;

«esta duplicidade é um péssimo sinal para o exterior»;

se tivessemos pedido ajuda há um ano estaríamos em muito melhor posição para o fazer e para cumprir reformas económicas que teremos que fazer;

«agora estamos em situação praticamente desesperada».

Claro como água. Só mesmo os fundamentalistas (é mais é teimosia!) é que persistirão -- muitos deles, interesseiramente! -- no embuste do teatro de sombras socrático-narcísico, destruidor dos mais elementares e fundamentais valores democráticos da confiança pública, interna e externa, que deve existir pelos dirigentes políticos de um país.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Mais uma coligação “negativa”… tão positiva!

O governo decretou o aumento (em muitos casos, em cerca de 500%!) dos limites das adjudicações directas do estado (ministérios, autarquias, institutos públicos), com o argumento de que se trata de uma actualização natural, já que a última actualização já era, nas sapientes palavras do secretário de estado das finanças, do século passado (1999)! Bem vistas as coisas, era mesmo do milénio passado, o que a torna ainda mais obsoleta!

Aumentar, por exemplo, o limite concedido às autarquias de 150.000€ para 900.000€ pode parecer uma medida natural para o mais incauto (parecerá mesmo?). Mas, na realidade, é (como a suspensão da avaliação dos professores?) descaradamente eleitoralista, já que permitiria “convencer” mais eleitores a votar, num país cujas pequenas cidades e vilas do interior vivem numa escancarada promiscuidade simiesca entre política democrática e criação de emprego (ajuda social).

O PSD e os outros partidos da oposição votarão a revogação desse decreto-lei, que entraria em vigor na próxima sexta-feira. Ainda bem que há uma coligação “negativa” na Assembleia da República, que se prepara para chumbar esta iniciativa legislativa brutalmente injusta, de tão irresponsavelmente despesista que é e, portanto, atentatória do interesse nacional.

Como uma coisa que se chama teoricamente “negativa” pode ser tão positiva na prática, para um país atolado numa crise profunda! Por muito que muitos não gostem -- quando não lhes dá geito --, isto também é democracia.

É mandá-los todos embora!

No último Quadratura do Círculo, na SIC Notícias, a propósito da suspensão da avaliação docente, António Costa, indignado com tal medida supostamente eleitoralista, profere uma declaração admirável (do tipo “vale tudo”): “até a minha mulher [que é professora] está toda contente”, por ter sido suspensa a avaliação!
Para além da possibilidade do “rolo da massa em acção”, não se percebe muito bem como é que um putativo candidato a secretário-geral de um partido tão moralmente responsável, como o PS, de um putativo candidato a PM de Portugal, possa ter invocado um argumento falacioso e tão popularucho!
A falácia é simples: trata-se de uma generalização precipitada – pressupõe-se, errada e maliciosamente, que nenhum professor deseja ser avaliado, quando talvez a esmagadora maioria não admite ser avaliado por este modelo, tão ineficaz e, ainda por cima, tão negativamente perturbador de um sector crucial da vida sócio-cultural de qualquer país civilizado.
A demagogia é clara: ardilosamente inventado por José Sócrates, o argumento de que os professores são todos os mandriões, incompetentes e irresponsáveis, tem um forte poder persuasivo e elevado grau de adesão junto de uma população que valoriza pouco o saber e a aprendizagem, dá-se muito mal com o esforço e o empenho para aprender e, de forma ressentida, abomina, justamente, ser avaliado (quem gosta de professores, que nos dizem que ainda não fizemos bem e que devemos fazer mais isto e aquilo para realmente virmos a saber?)!
Com professores destes (como a mulher de António Costa?!) a solução é mesmo mandá-los embora, despedi-los – com justa causa, pois então, já que não querem fazer nada! – e colocar nas escolas portuguesas esta nova geração de licenciados ao Domingo, das Novas Oportunidades, em suma, de quem está cada vez mais habituado à ilusão do mundo virtual pseudo-socialista!

segunda-feira, 28 de março de 2011

Destes é que o povo (socialista) gosta!

O Nobel da Economia de 2008, Paul Krugman é um autêntico oráculo para os socialistas aflitos: advoga, com a sua sapiência, aparentemente incontestável, que as políticas de austeridade que estão a ser seguidas um pouco por todo o lado, são um erro, pois fazem estagnar a economia -- deveríamos era aumentar a despesa pública e preocupar-nos com o défice depois.

Isto é que é bom de ouvir: adiar ainda mais o esforço e continuar a viver na ilusão do pântano. Não se compreende é como se pode continuar a aumentar ainda mais a despesa pública em Portugal. Krugman não diz. 

domingo, 27 de março de 2011

Dar a pensar...

[Sobre a importância (prática) da filosofia política]

1.

«Politics is a confusing business. It’s hard to tell who believes in what. Sometimes it’s hard to tell whether anybody believes in anything. Politicians converge on the middle ground, worrying about focus groups, scared to say things that might be spun into ammunition by their opponents. There is some serious debate about policies, but little about the values that underlie them. When it comes to principles, we have to make do with rhetoric, the fuzzy invocation of feel-good concepts. Who is against community, democracy, justice, or liberty? This makes it look as if values are uncontroversial. Politics comes to seem a merely technical matter: politicians disagree about how best to achieve agreed goals and voters try to decide which of them has got it right.

The reality is different. Beneath the surface, concealed by the vagueness of these grand ideals, lurk crucial disagreements. Politicians who share the view that liberty matters, or that community is important, may have very different ideas about what they involve. Even where they agree about what values mean, they may weight them differently. These disagreements feed through into policy. What we ought to do about tax rates, welfare, education, abortion, pornography, drugs, and everything else depends, in part, on how and what we think about values. Some politicians may be clear about which interpretations of which ideals guide their policy preferences, and how important each is compared to the others. Many are not. And even where they are, that doesn’t necessarily help those of us whose job it is to choose between them. To do that we need to be clear about our own principles. We need to be aware of the different interpretations of these ideals. We need to see where claims presented in their terms conflict and, when they conflict, we need to decide which is right. We need political philosophy.»

Adam Swift, Political Philosophy. A beginners’ guide for students and politicians (Cambridge: Polity Press, 2nd ed., 2006) 1-2.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Melhoria da avaliação docente... finalmente!

Um dos principais problemas do actual modelo de avaliação docente (supostamente "aperfeiçoado"), consiste no facto de esta ser uma avaliação interpares: num grupo de professores, por exemplo, de Matemática de uma escola, um deles avalia os outros; o problema é o de saber se existem as condições para haver a imparcialidade e objectividade necessárias a um processo verdadeiramente eficaz de avaliação. É bem fácil de ver que não (ou são amigos e é difícil avaliar negativamente, ou são inimigos e é difícil avaliar positivamente -- e juntem-se mais prerrogativas, que as há...).

A proposta de suspensão do actual modelo de avaliação, do PSD, vai, pois, neste sentido: acabar com o regime actual de avaliação interpares e substituí-lo por um regime em que seja uma comissão independente a avaliar os professores. Acertado: é preciso aumentar a objectividade e eficácia avaliativa. (Aguardamos pela forma de que se revistirá tal comissão.)

Porquê agora? Não será irresponsável interromper o processo a meio do ano lectivo, em pleno decurso do processo de avaliação? Embora tal seja usado como se o PSD se estivesse a aproveitar para fazer a vontade aos professores, pressupondo-se sempre, erradamente, que os professores não querem ser avaliados (por muito que alguns assim o desejassem), o argumento do PSD é, no entanto, bastante aceitável: a medida é neste momento oportuna, pois o objectivo é que o novo modelo de avaliação de desempenho de professores tenha efeitos a partir do próximo ano. Acertado: é preciso, finalmente, ganhar tempo.

Espero que se tenha começado a arrumar a casa.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Preocupações

A preocupação maior é, agora, não estrita e directamente política, mas financeira. A imprensa estrangeira assim o destaca. A ajuda financeira é inevitável (Le Figaro). Os líderes europeus terão que se empenhar em acalmar os mercados, como destaca, em primeira linha, o El Pais. Será que Portugal vai conseguir financiar-se (sobreviver) até às eleições -- perguntamos nós? Quanto vai custar aos parceiros da UE tantos erros, que nos precipitaram para a irremediável ajuda internacional -- perguntam, por exemplo, os ingleses?

Vivemos, por cá, os primeiros momentos (naturalmente de agitação) a seguir à grande explosão primordial. Que se forme um universo novo!

Finalmente... Do mal, o menos!

Finalmente. O PM ilusionista, mestre de retórica, mestre da manipulação, que ilude tudo e quase todos, caiu -- digo: precipitou a queda. Uma crise política agora é negativa para o país. Prosseguir seria surrealisticamente terrífico. Do mal o menos.

Chegou a hora de começar de novo. De começar, não do zero, mas de algures abaixo do nada (como se em termos económicos e de bem-estar social tivesse sido quase agora o 25 de Abril!). Resta agora esperar pela competência política e técnica para recomeçar a resolver os problemas estruturais do país, através de reformas sérias e com futuro.

Solução? A ideal seria, obviamente, um governo de união nacional que congregasse os três maiores partidos. A solução possível é uma óbvia vitória minoritária do PSD e uma coligação pós-eleitoral com o PP. E esperemos que a vontade seja mesmo reformista e congregadora de uma maioria à espera de um verdadeiro governo ("condutor") do país.

Não podemos estar radiantes, porque a situação é grave. Mas, pelo menos, livrámo-nos de José Sócrates, o que, para (re)começar, já não é nada mau.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Ainda há ideias sobre Educação. Faltam as acções!

Eis um artigo de opinião sobre o sistema de ensino que defende uma tese aparentemente controversa.

Controversa por duas ordens de razões.

1. A primeira, porque se baseia numa análise fundada em estudos empíricos, com garantia científica. Paradoxalmente, estas análises chocam, em geral, com o destinatário desta opinião , que, em geral, não valoriza este tipo de argumentação, porque não possui cultura científica suficiente para reflectir nestes termos, o que nos arreda para os confins de um caótico lodaçal educativo, político, cívico.

2. Depois, controversa, agora com uma base mais discutível, por se basear numa comparação com países com melhores resultados, como a Finlândia e alguns "tigres da Ásia" (Singapura, Coreia do Sul), cujas culturas estão alicerçadas numa valorização do saber e do ensino bem mais forte do que aquela que somos capazes, devido a influências histórico-culturais decisivas (a primeira, fortemente influenciada pela cultura protestante, que privilegia o esforço, o empenho, o dever rigoroso e valoriza o saber; os segundos, influenciados pelo confucionismo, que valoriza a sabedoria do idoso, abrindo-se o neófito religiosa e empenhadamente à veneração dessa sabedoria).

A tese central, concreta, seria turmas maiores e muito bons professores, com remuneração elevada para atrair os melhores. Elementar. Mas: turmas maiores com estes alunos, com esta forma de estar da sociedade perante a disciplina, o rigor, o esforço? Melhores professores implicaria regular novamente a acreditação das universidades para a formação de professores, instituir provas de acesso à profissão e implementar modelos rigorosos, objectivos de avaliação de desempenho! E coragem e competência (política e técnica) para isto?

Não deixa de ser, no entanto, uma análise corajosa e um bom rumo possível a seguir, no meio de tanta superficialidade e falta de ideias e princípios orientadores de uma política verdadeiramente educativa e salvadora das próximas gerações, que podem estar perdidas.

Mas, o que é necessário é pensar o que na cultura histórica portuguesa existe (se existe!) no qual se possa ancorar tal atitude positiva, pro-activa, da sociedade, em geral (políticos, pais, empresários, professores), para com a educação. O principal problema da educação em Portugal é, como há muito referem estudos sociológicos, a fraca valorização que a sociedade portuguesa faz do saber e da educação. Só depois vêm: a completa irresponsabilidade e ignorante perspectiva que os políticos têm tido, nas últimas décadas e apesar de melhorias pontuais (nunca de fundo), de tão fulcral base político-social (por muito que estes tenham sempre a responsabilidade de orientar politicamente e de dar o exemplo!); o papel sectarista e pobre de perspectiva dos sindicatos; e a, alguma (pelo menos a espaços), mediocridade cultural e política de muitos professores, que após o 25 de Abril se pavonearam na sociedade como aqueles que ganhavam algum dinheirito sem trabalhar e hoje (muitos deles bons profissionais -- onde é que estaríamos se assim não fossem?!) se sentem num campo de batalha de uma guerra sem móbiles nem comandantes.

Muito há a fazer, pois. Não será fácil. As mentalidades sempre foram o mais difícil de mudar.

terça-feira, 15 de março de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[3]

«Em terceiro lugar, a predisposição à inovação. Se há competências que têm vindo a ser valorizadas nas últimas décadas, são aquelas que sustentam atitudes favoráveis à inovação em contextos culturais de gestão de mudança. Trata-se de uma consequência das alterações profundas operadas nos sistemas de produção e de criação cultural, especialmente na busca incessante de novas soluções, quer de carácter tecnológico, quer organizacional, quer mesmo na concepção do produto.

(…) A pressão sobre a inovação tende a ser cada vez mais intensa, contínua e necessariamente planeada.

Inovar para competir, desde a escala local à escala global, parece ser o sentido do desenvolvimento das sociedades modernas.

Como nos preparamos para estes desafios?

A educação tem um contributo a dar, mas não através de uma pseudocultura de inovação educacional que dominou a reflexão pedagógica nas últimas décadas. O entusiasmo acrítico pela inovação educacional, porque não reflectido em função dos problemas de base e não processada pelo conhecimento, conduziu ao mimetismo de experiências estranhas, à adopção voluntarista de experiências não avaliadas e à replicação no ensino de práticas e lógicas de inovação tecnológica e organizacional que pouco ou nada tinham que ver com a educação.

O experimentalismo voluntarista, mas descontrolado, generalizou-se a muitas escolas portuguesas, sem que se avaliassem os efeitos directos sobre as crianças – que não são “produtos” – e sem que se monitorizassem os resultados e os efeitos. Desde a distribuição dos lugares na sala de aula, ao “aprender, brincando”, tudo eram “boas práticas” e confesso que nunca tive a oportunidade de ver alguém dizer, por exemplo, que esta experiência falhou, que foi um erro, ou seja, que foi uma “má prática”. É mais útil difundir uma má prática como forma de alertar e dissuadir a sua replicação do que banalizar a inovação e as boas práticas. Por isso começo a defender, sem grande sucesso, diga-se, e realização de “seminários de más práticas”.

(…) A inovação educativa é algo de enorme delicadeza porque estamos a trabalhar com crianças, requer reflexão aturada e não a adesão entusiástica, a monitorização dos processos e a avaliação comparada dos resultados. Sem isso, o risco de ficar tudo na mesma é bem menor que o insucesso.

O que precisamos de desenvolver nas novas gerações são as atitudes favoráveis à inovação e à capacidade empreendedora associadas à afirmação da autonomia reflexiva e responsável. Isso requer recentrar as aprendizagens na capacidade de formular e resolver problemas, sem prejuízo do domínio prévio, por exemplo na Matemática, dos algoritmos e dos conceitos fundamentais. Essa particular maneira de pensar não pode ficar confinada à Matemática, vai muito para além dela para estar presente nos mais variados domínios, desde o ambiente à história, da literatura às ciências.

Muitos educadores dão uma especial ênfase ao desenvolvimento da capacidade criativa junto dos seus alunos, nomeadamente nos primeiros anos de escolaridade. Esse é um bom exemplo do que não se deve fazer. Ninguém cria a partir da ignorância, ninguém inova sem conhecimento adquirido. Tal como o ensinar, criar e inovar dá muito trabalho e requer muito conhecimento. Por isso falamos em desenvolver atitudes favoráveis à criação e à inovação e não da pretensa prática precoce de o fazer.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 97-9.

sábado, 12 de março de 2011

À rasca -- humanamente?!

Terá acontecido hoje uma das maiores manifestações jamais havidas um pouco por todo o país, sobretudo em Lisboa. Milhares de pessoas manifestaram-se contra as enormes incertezas laborais - de futuro - em que vivem. Estamos a atravessar um período negro da nossa democracia.

Isto é assim, porque nas últimas décadas Portugal foi governado por políticos estupidamente optimistas, infantilmente idealistas e, sobremaneira, por políticos descaradamente oportunistas, que coleccionaram incompetências e irresponsabilidades, quando foram aumentando salários e admitindo pessoal na função pública, investindo em estradas e auto-estradas desfasadas da nossa economia, até ao cúmulo do TGV, e foram criando espectativas surrealistas a uma população ignorante, inconsciente e política e culturalmente imberbe, que se habituou a sonhar com o el dorado, o totoloto e o euromilhões, sem que nunca nenhum político tivesse tido a capacidade e coragem de incutir ideias de esforço, empenho, serviço, indústria, qualidade, conquista, orgulho, competência, rigor e... paciência.

Esta geração tem muitos jovens adultos à rasca, mas pior estavam os pais, mais ainda os avós, pior ainda estarão os seus filhos... A não ser que essa mesma geração comece por fazer um pouco mais e melhor do que se encontrar na rua depois de uns cliques indiscretos nas modais redes sociais, que são óptimas, ao que parece, para passar o tempo.

Provavelmente, era melhor começar a votar, nem que fosse em branco. Talvez fosse melhor começar a exigir uma educação básica, secundária e (em certo sentido, sobretudo) superior de qualidade, em vez de continuar a trapassa do "tirar/roubar" um curso, qualquer que seja, mesmo que seja uma "engenharia da defecação" - engenharia sem Física nem Matemática, claro, que isso é chato - ou umas relações internacionais sem saber Inglês ou com Inglês técnico ao Domingo! Talvez não fosse má ideia começar a querer saber mesmo, a desenvolver competências cognitivas, sociais, culturais e políticas a sério, para que comecem a aparecer ideias comerciais, económicas, sociais, políticas novas, que contribuam para resolver problemas.

É tempo, iremediavelmente, de encarar a realidade, de deixar o facilitismo da casa dos pais, do consumismo fútil, do emprego para toda a vida (que já não se pode viver sem isto, aquilo e ainda mais aqueloutro)... e correr mundo. É chegada a hora do realismo.

Que faria esta geração à rasca se tivesse que governar o país? Faria melhor que os meninos do papá e da mamã das juventudes partidárias que se têm "desenrascado" recriando poder(es) para si e para os seus, no lugar de servir o país? Fariam melhor que os políticos locais que de Câmara em Câmara, da esquerda à dreita, inventam empregos (não trabalho, claro) aos amigos com cartão, à custa do dinheiro de quem produz e paga impostos? Que ideias para a organização política da sociedade (para a economia, para a educação, saúde e justiça) tem esta geração dita "à rasca"?

Toda a gente está seduzida por este protesto dos "jovens". É um protesto, que a altura é de indignação. Mas também é demasiado fácil, politicamente correcto. No entanto, a situação do país, de todos nós, sobretudo das gerações vindouras, é demasiado séria para nos limitarmos à simples indignação e para não sermos substancialmente críticos na análise.

O pai que alimentou falsas espectativas, tem culpa. Mas o filho que comodamente não quer crescer não pode ser triunfalmente ilibado como um inocente.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[2]

«Em segundo lugar, a abundância de informação. Hoje há mais informação disponível, mas provavelmente vivemos numa fase que eu classificaria de imatura ao que se projecta para daqui a quinze ou vinte anos. O ritmo de produção de informação tenderá a acelerar-se, a globalização do acesso vai acentuar-se e a acumulação dessa informação atingirá escalas inimagináveis.

De há muito se fala de excesso de informação e dois problemas que apresenta, mas para além dessa abundância coloca-se também o problema da obsolescência, informação que “mata” ou desvaloriza a informação, a um ritmo crescente, tornando o “mercado” uma amálgama de ofertas perante procuras potencialmente insuficientes.

Neste contexto, surge a necessidade premente de avaliação da sua utilidade e da sua validade. Ora, essa avaliação exige capacidades cognitivas redobradas: saber definir muito bem a utilidade e a finalidade da busca de informação, saber questionar e analisar criticamente, ter capacidade de a apropriar com vista a tomar uma decisão ou a produzir nova informação.
É previsível um melhoramento das tecnologias de informação, desde os motores de pesquisa à gestão de bases de dados, mas esse avanço não irá dispensar a boa utilização das ferramentas, a capacidade análise, de reflexão e síntese por parte do utilizador. Ora estas capacidades exigem formação prolongada e sistemática, integrando o que atrás designámos por “saber pensar”. Não bastará o domínio dos operadores lógicos, é necessário saber questionar, formular bem os problemas, construir hipóteses e identificar com rigor o objecto da pesquisa.

Mas há um outro desafio, o da passagem da perspectiva do utilizador para a do criador, do produtor de nova informação. Só assim poderá haver utilidade social e valor acrescentado. A informação, por isso só, não passa de uma matéria-prima. Acrescentar-lhe valor implica processá-la e torná-la socialmente reconhecida.

Como lá chegar através da educação? Começando, desde os primeiros anos de escolaridade, com as coisas mais simples: a leitura, análise e interpretação de textos, por exemplo, ou da prática de análise de fontes históricas, das operações mais simples de raciocínio lógico associados aos primeiros exercícios de estatística ou ao hábito de medida, registo, leitura e interpretação de observações de fenómenos quotidianos (temperatura do ar, humidade, tensão arterial, entre tantos outros exemplos possíveis).»
David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 96-7.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Fotografias

“Viagem #1”
(Lisboa, Junho 2009)
© Miguel Portugal
“Viagem #2”
(Paris, Agosto 2010)
© Miguel Portugal
“Viagem #3”
(Bilbao, Abril 2009)
© Miguel Portugal

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre finalidades da educação]

[1]

«Que tipo de sociedade vamos ter em 2025? Não será fácil responder de forma objectiva e suficientemente ampla a esta questão. Mas conhecemos algumas tendências.

Em primeiro lugar, a incerteza. Os últimos vinte anos da história mundial recolocaram o problema da reduzida visibilidade prospectiva, dificuldade característica dos períodos de obsolescência e aceleração dos processos de mudança. Fenómenos como a globalização, a inovação tecnológica contínua, as novas formas de competitividade nos mercados internacionais, o aumento de mobilidade das diferentes formas de capital, especialmente de capital humano, estão a transformar as bases da organização social, das economias e dos Estados.
(…)
É necessário preparar e educar as novas gerações para a incerteza. Como? Centrando o ensino e as aprendizagens no adquirido fundamental, a saber: diversificada formação cultural (as línguas, as literaturas, a historia, a filosofia, as artes) combinada com uma sólida cultura científica (a matemática e as ciências).
(…)
A incerteza exige, antes de mais, solidez de conhecimentos e capacidade de os mobilizar para situações novas. Essa solidez adquire-se com esforço – nomeadamente de memorização –, treino, trabalho sistemático e disciplina. A capacidade de mobilizar o conhecimento desenvolve-se através da prática de resolução de problemas, do incentivo à reflexão, do raciocínio demonstrativo, do confronto as soluções. Os dois requisitos completam-se e tornam-se indispensáveis principalmente quando sustentados em atitudes favoráveis aos processos de mudança e adaptação, nomeadamente de carácter organizacional.»

David Justino, Difícil é Educá-los (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2010) 94-5.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O génio maligno

«(…) Há sempre uma caterva de ingénuos prontos a escrever a história da última idiotice, a solenizar as tolices, a encontrar significados recônditos nas nulidades, a conceder entrada às imbecilidades no ensino de todas as ordens e graus, pensando que fazem obra democrática e progressista, que vão ao encontro dos jovens e do povo, que realizam a reunião da escola com a vida.»
(Mario Perniola, professor de Estética da Universidade Tor Vergata de Roma)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Tiro ao lado ou uma questão de perspectiva

A canção de intervenção “Parva que sou”, dos Deolinda, tem feito furor. Não admira, é um pequeno gritito de dor. Mas quiçá a perspectiva não seja assim tão acertada: afinal, colocar sobre os ombros dos jovens a responsabilidade das condições económicas e sociais actuais é não ter uma consciência política plenamente objectiva. Os políticos que têm ocupado o poder, só os temos porque alguém os escolheu; mas não foram outros senão eles mesmos a cavar a nossa sepultura. Se houve populismo, e não foi pouco, foi porque o povo assim o permitiu; mas sempre foram os políticos na posse do poder a desperdiçar a oportunidade de enveredar por caminhos mais firmes e certeiros, mesmo que menos populares.

Compare-se a letra (que talvez tenha atirado ao lado) do original, com esta versão “à direita” de Rui Passos Rocha, do Douta Ignorância.

“Parva que Sou”, Deolinda:

«Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!

Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!

E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'casinha dos pais',
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou!

Filhos, marido, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!

E fico a pensar
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'vou queixar-me p'ra quê?'
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!

Sou da geração 'eu já não posso mais!'
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!

E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.»

Versão “à direita” de Rui Passos Rocha, do Douta Ignorância:

«Sou da geração sem remuneração
e sei que me tentam vender uma ilusão.
Os parvos que lá estão!

Porque isto vai mal e está p'ra piorar.
Não é assim tão mau eu poder estagiar.
Que parvos que eles são!

Assim posso demonstrar
que tenho valor
e que, quando for possível,
quererei assinar.

Sou da geração «casinha dos pais».
Como ficaram com tudo, vou exigir-lhes mais.
Que parvos que eles são!

Filhos, esposas, estou sempre a adiar
E a culpa é de quem nos quis deslumbrar.
Que parvos que eles são!

E fico a pensar,
endividar os mais novos,
assim, cada vez mais,

só pode acabar mal.

Sou da geração «vou queixar-me p'ra quê?»
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parvos que eles são!

Sou da geração «eu já não posso mais»,
que esta situação dura há tempo demais.
E parvos eles não são!
 

Isso faz-me desejar
que quem me governa
pense mais na minha
do que na sua geração.»

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Americanização da cultura?

Um dos argumentos mais fortemente críticos do fenómeno da globalização, entrados que estamos numa fase altamente acelerada no último meio século, é o do perigo da homogeneização cultural – uma cultura (a ocidental, em particular a americana) disseminar-se-ia de tal modo, que se tornaria dominante, acabando por elidir toda a diversidade cultural, antropologicamente tão rica.

Mas antes de considerações axiológicas (ser bom ou mau), devemos atender a questões de facto – essa homogeneização parece não estar a acontecer, pelo menos nos moldes algo simplistas como os seus críticos inicialmente denunciavam.

Joel Waldfogel e Fernando Ferreira, da Wharton School (escola de gestão da Universidade da Pensilvânia), examinaram as canções que estiveram nas tabelas de música pop mais vendidas de 22 países, entre 1960 e 2007, e depois compararam a quota de cada país no mercado da música pop com a dimensão da sua economia.

Claro que os sucessos americanos dominavam, representando 51% dos discos vendidos durante este período. Mas ajustado ao PIB, a Suécia (quem não se lembra dos bem sucedidos ABBA?) lidera, seguida da Grã-Bretanha. Ao contrário da crítica que alerta para uma americanização da cultural, o que está a acontecer é que há mais pessoas em todo o mundo a ouvir música dos seus países de origem – os artistas estrangeiros representam agora, segundo o estudo, apenas 30% do top de cada país, bem menos do que os 50% registados nos anos 80.

É certo que os artistas mais populares em todo o mundo fazem música rock e hip hop com uma sonoridade tipicamente americana e ainda há uma nítida vantagem em cantar em inglês. Mas o referido estudo mostra que, no lugar de uma monocultura americanizada, os países mais pequenos estão a tornar-se intervenientes significativos no mercado mundial da música.

Fonte:
Joshua Keating, “O poder do soft rock. Terá o domínio cultural americano encontrado a sua Waterloo?”, Foreign Policy - Edição FP Portugal, n.º 18 (Outubro/Novembro 2010) 16.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dar a pensar...

[Sobre a felicidade]

«Valorizamos a felicidade por si mesma e não apenas por ser instrumental. Mas o próprio conceito de felicidade esconde algumas armadilhas. Uma concepção subjectivista da felicidade considera que na felicidade só conta o que uma pessoa sente, interiormente, sendo irrelevante a origem do que a faz sentir-se feliz. Isto é implausível, porque, a ser verdadeira, significaria que seria para nós irrelevante se a fonte da nossa felicidade é a realidade ou uma fantasia. Mas isto não é irrelevante para nós: se uma fonte importante da minha felicidade é a amizade dos meus amigos, é para mim muitíssimo relevante se a amizade deles é genuína ou fingida.

Outra concepção implausível da felicidade é crer que se trata de algo que podemos fazer. Pelo contrário, a felicidade é algo que resulta de muitas actividades a que nos dedicamos, mas não é em si algo que possamos fazer. Porque não é algo que possamos fazer, é também implausível uma terceira ideia comum sobre a felicidade: que é algo que se pode obter fazendo algo momentoso especial, findo o qual ficamos felizes – mais ou menos como alguém que, depois de muito esforço, ganha uma medalha. (…)

A felicidade é um valor fundamental para todos nós, mas não se pode ser feliz visando a felicidade. É-se feliz cultivando-se actividades de valor e alargando a compreensão dos nossos talentos e limites. É-se feliz acrescentando valor ao mundo e apreciando o valor que encontramos no mundo. Mas isto não se faz senão fazendo coisas muito diversas – essas coisas banais que todos fazemos todos os dias e que incluem ser médico e curar pessoas, ou ser escritor e contar histórias, ou ser pai, mãe, filho ou amante carinhoso, ou cozinheiro de talento, ou professor paciente. Entregarmo-nos a actividades de valor é uma condição necessária para a nossa felicidade e há muitas actividades de valor. A verdadeira dificuldade é evitar atribuir valor ao que o não tem e não dar suficiente valor ao que o tem. Mas isso é algo que só aprendemos com a experiência, a reflexão e o estudo. Não há receitas mágicas.

Outra ilusão a evitar quando se reflecte sobre a felicidade é esquecermo-nos de quem realmente somos: mamíferos com certas peculiaridades, e ao mesmo tempo seres cognitivamente sofisticados. Nem deuses, nem bestas – mas um pouco de ambos, num certo sentido. Isto significa que vidas que privilegiem apenas as nossas preferências de mamíferos – a alimentação e o sexo, por exemplo – ou que privilegiem as nossas preferências cognitivas – o estudo e o conhecimento – terão poucas probabilidades de serem realmente compensadoras. Os seres humanos são tão incapazes de uma vida realizada vivendo como porcos como são vivendo como deuses. Daqui conclui-se que a ânsia de imortalidade, que está provavelmente no cerne do impulso religioso de algumas pessoas, pode ser uma tremenda ilusão: sendo nos o que somos – e somos seres intrinsecamente temporais – uma existência sem fim ou atemporal poderá parecer uma promessa paradisíaca, mas é bem mais razoável crer que será, na verdade, diabólica.

Precisamos de ser judiciosos na descoberta do valor, e isto implica dar uma grande atenção à realidade do que somos. (...)»

Desidério Murcho, A Filosofia em Directo (Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011) 61-2.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Do Egipto para o mundo

Um governo serve para gerir o bem público. Nesse sentido, deve ser formado por pessoas capazes de o fazer bem. Nesta ordem de ideias não é logicamente necessário retirar a consequência de que tal governo tenha de ser democrático. Afinal, um ditador benevolente e competente servia perfeitamente este desígnio – governaria bem e ainda com a vantagem de deixar mais tempo livre aos cidadãos para conduzirem as suas próprias vidas sem preocupações políticas. Além disso, quando os cidadãos não são suficientemente capazes de tomar decisões para escolher os seus representantes, alguém terá de assumir essa nobre função por eles.

É nestes termos que mais ou menos todos os ditadores, como Hosni Mubarak e tantos outros, a nível internacional, nacional ou local, pretendem justificar o seu poder intocável e perpétuo. Afinal, é muito comum um qualquer coisa como “tudo farei, mas para vos salvar!” ou “seria o caos se deixasse o governo”. Há por esse mundo fora muitas democracias suspensas por oportunismos que servem “castas”; nenhuma por razões atendíveis, certamente.

Mas será esta justificação da ditadura aceitável? Não. Peca, antes de mais, por pressupor erradamente que o ditador seria incorruptivelmente benevolente, interessado apenas no bem público e não nos seus interesses ou dos seus. Além disso, pressupõe que há indivíduos sumamente competentes, perfeitamente capazes de exercer, sem mácula, as funções governativas. Mas o que é facto é que todo o ser humano é falível – ser humano e não um autómato é, justamente, ser falível. E, assim, não existe tal ditador benevolente e perfeitamente competente. Logo, a ditadura não pode ser a melhor forma de governo.

Aliado a esta falsa infalibilidade de alguns divinos eleitos, os defensores do sistema ditaturial erram, embora em graus variáveis, quando pressupõem que os cidadãos não estão preparados para assumir autonomamente as decisões de escolha dos seus representantes. Afinal, isso é talvez pressupor demasiado. Se pode ser verdade nalguns casos, que é certamente, não é verdade para todos e, em muitas sociedades, até pode ser uma interessada generalização precipitada.

De qualquer modo, sendo o ser humano falível, nada melhor do que arquitectar um sistema de governo capaz de lidar com essa falibilidade. É o caso da democracia. Se por acaso se erra na escolha dos líderes, há sempre a possibilidade de escolher outros. Para além de um conjunto de mecanismos que se desenvolveram ao longo da história, como a separação de poderes e o escrutínio público através de uma imprensa livre, tornarem o sistema democrático bastante bem fortalecido contra uma falibilidade humana nefasta.

Claro que a democracia também tem os seus defeitos. Mas, como dizia o velho Churchill, não deixa de ser «the worst form of government except from all those other forms that have been tried from time to time.» Apenas quem se ilude ainda com a possibilidade de existência do ser humano perfeito é que não está em posição de compreender este raciocínio claro: por muito benévolos e competentes que sejamos, não estamos imunes ao erro; sendo assim, há que permitir que, da sã e aberta concorrência aos lugares da governação, surjam os mais bem posicionados para os ocupar; logo, só um sistema de eleição democrática, plural e livre de representantes dos cidadãos pode atenuar esta falibilidade humana. Tanto quanto sabemos hoje, só a democracia preenche estes requisitos.

Pena é que os ditadores, com excepções desconhecidas, não se apercebam disto senão tarde demais, quase sempre depois de derramado muito sangue e com perdas sacrificiais altamente despropositadas e absurdamente injustas.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Fotografias

“Três taças de gelatina #1”
(Janeiro 2011)
© Miguel Portugal
“Três taças de gelatina #2”
(Janeiro 2011)
© Miguel Portugal
“Três taças de gelatina #3”
(Janeiro 2011)
© Miguel Portugal