sábado, 31 de maio de 2008

Liberdade económica

A título de curiosidade (ou talvez não!) veja-se aqui um atlas da liberdade económica, produzido pelo Fraser Institute do Canadá (via Causa Liberal).

Vitória da credibilidade

Os militantes do PSD escolheram hoje MFL para líder do partido, que figurará na história como a primeira mulher eleita para a liderança do partido. Jogaram pelo seguro. Talvez tenha sido mesmo a melhor escolha para a revitalização do partido, da política nacional e para o renovar da esperança num país melhor. Esperam-se agora algumas clarificações quanto àquele que me parece o aspecto mais importante da campanha de MFL – as preocupações sociais. É de fulcral importância o modo como arquitecturará a sua harmonização com o rigor económico e financeiro. Aguarda-se, pois, a preparação para as próximas eleições legislativas.

Do outro lado das trincheiras, as preocupações avolumam-se, pois os socialistas sabem a credibilidade nas ideias e na execução que MFL poderá capitalizar junto dos eleitores descontentes, que são muitos.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Escolha difícil entre dois bons candidatos

Do debate de ontem na SIC e SIC-Notícias entre os quatro candidatos à liderança do PSD (e a Primeiro-Ministro de Portugal!) ficou definitivamente claro que:

1. Há dois bons candidatos à liderança -- Manuela Ferreira Leite e Pedro Passos Coelho. Patinha Antão é um bom elemento, representando (e bem) alguma força de alguma sociedade civil interessada em contribuir para a melhoria da governabilidade do país (não esteve bem ao lado de PSL no ataque emotivo a MFL); Pedro Santana Lopes está irremediavelmente fora de questão, dada a retórica artificialista e populista de poder (uma das razões de delapidação do partido) com que continua a apresentar-se aos eleitores e a consequente irremediável falta de confiança que inspira.

2. A escolha centra-se, em termos de fiscalidade, entre jogar pelo seguro e manter, por enquanto, os impostos (designadamente sobre os combustíveis) para não fazer diminuir as receitas do Estado e não criar instabilidade económica e desconfiança nos investidores (MFL) e arriscar diminuir o ISP para aliviar os encargos das famílias e das PMEs, mas sem garantias de que não seja mais um passo atrás na consolidação das contas públicas (PPC).

3. A escolha centra-se, em geral, no rigor, na experiência e sabedoria políticas, no despojamento ideológico e, sobretudo, na frontalidade da verdade e na recusa do populismo da promessa de MFL e na aposta de um candidato promissor, dada a sua juventude, para solidificar um novo rumo e uma nova forma de estar na política de PPC, que poderia ser um bom rival de Sócrates daqui a um ano.

De resto, grosso modo, as diferenças de substância não são muitas, com PPC afirmando, modernamente, o seu liberalismo (com preocupações sociais) de forma mais vincada que MFL, que prefere apostar no pragmatismo, em vez de enveredar por precisões ideológicas.
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Como candidato a PM que se apresentará ao eleitorado português e não apenas aos militantes do PSD, a questão é saber se, por um lado, não será demasiado tarde para MFL e se as suas políticas irremediavelmente parecidas (e não necessariamente erradas) com as melhores políticas liberais deste PS de Sócrates não a colarão demasiado ao status quo e, por outro lado, se não será demasiado cedo para PPC e se as suas políticas declaradamente mais liberais -- que podem até ser o futuro, mas que colhem os protugueses numa profunda crise de identidade política, social e económica (para vingar numa sociedade mais liberal é necessário ser-se bom profissional, realmente bem qualificado, empenhado e esforçado, coisa que muitos de nós, em geral, não somos!) -- serão bem compreendidas e melhor interpretadas pelos agentes políticos e económicos, mas, sobretudo, pelos agentes sociais.

Em suma: jogar pelo seguro ou arriscar?!

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A apatia cancerígena de uma sociedade em crise

Na passada semana, o economista Luís Nazaré escrevia no Jornal de Negócios, a seguinte frase lapidar:

«Que bom seria se (…) trabalhássemos que nem chineses, tivéssemos taxas de aproveitamento escolar que nem indianos e inovássemos que nem finlandeses, sem gastarmos dinheiro em betão.»

É claro que é discutível se seria mesmo bom trabalhar que nem chineses (i.e., arduamente!). Seremos obrigados também – ainda que talvez apenas por mero exercício retórico – a questionar se taxas de aproveitamento escolar idênticas às dos indianos resolveria os nossos principais problemas económicos e sociais! Também podemos sempre questionar outro tanto (e pelas mesmas razões!) acerca da inovação à finlandesa! E como viver sem os empregos sazonais – mais do que precários: ilusórios – criados pelo betão, num país embriagado (qual terceiro mundo) pela opulência arrogante do cargo público, elegível através da fachada e não das ideias que resolvem problemas públicos de fundo?!

Mas o que é certo é que a sociedade portuguesa vai sobrevivendo (mal), sem sequer se questionar muito sobre os fundamentos filosóficos, políticos, económicos e sociais do, pelo menos aparente, modelo único da modernidade, que é o liberalismo, ainda que com preocupações sociais. A sociedade civil, em geral, vive alheada das grandes questões político-sociais de fundo, não desenvolvendo no seu seio, por um lado, reflexão suficiente acerca das possíveis alternativas, a existirem, ao modelo económico e social liberal, nem tão pouco (coisa igualmente exigente) adaptando-se a esse modelo, que se tem vindo a consolidar, apesar das críticas e tentativas de correcção, como o modelo característico da modernidade política, económica e social, hoje mais ou menos disseminado pelos cinco continentes. E do lado do timoneiro também não têm soprado bons e, muito menos, orientadores ventos: os sucessivos governos não têm conseguido resolver os problemas estruturais económicos e sociais, nem têm conseguido minimamente motivar uma absolutamente necessária mudança de mentalidades.

A apatia intelectual e, portanto, política, económica e social da sociedade portuguesa é um cancro mortífero, que nos tem vindo a tolher nas últimas décadas e a descolorir completa e paulatinamente a velha (demasiado velha?!) perseverança e entusiasmo portugueses. O grande problema da sociedade portuguesa (diferentemente das grandes economias em ascensão, como a Índia e a China, bem como de outros pequenos países semelhantes ao nosso, como, por exemplo, a Irlanda) é, pois, a falta de consciência de mundo e de iniciativa reflexiva, mas, sobretudo, a falta de empreendedorismo, de esforço e empenho responsáveis na acção… quer para superar o sistema (o que seria, hoje, tão improvável quão genial e salvífico!), quer tão-só para, simplesmente, nos adaptarmos a ele.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Petróleo $130

O facto das reservas de barris de petróleo extraído, por exemplo pela Arábia Saudita, se terem esgotado nos últimos anos, devido ao forte incremento da procura, explica naturalmente, à luz da lei da oferta e da procura, o aumento dos preços ditados pelo cartel dos produtores (OPEP) às grandes “Big Oil” mundiais (como já aqui referi). Os preços do barril de crude continuam, por esta via, a subir.

Contudo, esta explicação está longe de explicar o fenómeno altamente especulativo dos preços do “ouro negro” no mercado português. A cartelização das pequenas “Big Oil” nacionais, com a Galp à cabeça, da importação, refinação e distribuição dos combustíveis parece, isso sim, estar na origem de subidas de preços que vão muito além das leis do mercado e estão a prejudicar enormemente a economia nacional.

Mesmo para os mais liberais, parece óbvia a necessidade de intervenção da entidade reguladora para investigar a formação dos preços dos combustíveis em Portugal.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Palma(s) para Manoel de Oliveira!

Quase tão velho quanto o próprio cinema, Manoel de Oliveira foi ontem galardoado, numa sessão muito especial, com a Palma de Ouro do Festival de Cannes, um dos mais conceituados festivais de cinema do mundo. Não se tratou apenas de um prémio de carreira; foi uma merecidíssima admiração por tamanho portento criador da sétima arte.

Longe da pressão das bilheteiras e dos críticos, sem se deixar enredar na teia da superficialidade populista do tempo, o cineasta português continua a fazer cinema com uma leveza quase pueril, mas com a profundidade apenas acessível aos mestres criadores. Motivo de orgulho deve ser um português com lugar de destaque para sempre na história do cinema.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Acordo ortográfico para quê?

"Torre de Babel"
(Bruegel)

Uma das questões que me parece mais controversa no novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é o facto deste acordo fazer tábua rasa da origem etimológica como explicação da ortografia das palavras alteradas. Como educador não posso deixar de lamentar a supressão de uma explicação racional (amiúde utilizada com elevada eficácia compreensiva) em favor de uma explicação convencionalista mais superficial, com base em razões políticas que escolhem a fonética estrita como fonte explicativa ilusória. A etimologia é uma rica arma de apredizagem da semântica e ortografia das línguas, muito útil quando se trata de mostrar aos aprendizes da língua por que razão, por exemplo, se escreve ação (e não acção). Pode até surgir a questão: por que não escrever com dois "s"?!
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Grande favor (ou nem por isso!) vai fazer o acordo para quem não estava de bem com a distintiva grafia de verbos como o "vir" e "ver" na terceira pessoa do plural do presente do indicativo ou do conjuntivo, que antes se grafavam, respectivamente, "vêm" (verbo "vir") e "vêem" (verbo "ver"), quando agora o último passará a grafar-se simplesmente "veem", sem acento circunflexo!

Mas há outras razões para rejeitar este acordo, que são bem mais prosaicas. No passado dia 22 de Abril, Desidério Murcho sintetizou no jornal Público as suas principais críticas ao Acordo Ortográfico (veja-se aqui).

Em rigor, não só não faz sentido acordar sobre ortografia de uma língua, como as alterações realmente e não artificialmente introduzidas são muito mais bem feitas e eficazmente implementadas pela liberdade dos falantes das várias culturas linguísticas da pequena babel do português, que se espraia por esse mundo fora, do que por decreto governamental centralista, que tudo quer normalizar.
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Trata-se, pois, de um acordo político subserviente e sem grandes implicações práticas e não de um efectivamente necessário acordo ortográfico. E depois... as simplificações nem sempre simplificam, sobretudo quando impostas para, neste caso, servir supostos interesses não linguísticos (afirmação política no mundo?!) e deste modo completa e desnecessariamente artificial.

sexta-feira, 16 de maio de 2008


Leituras…



…de esperança, com Olivier Reboul, A Filosofia da Educação, trad. port. de António Rocha e Artur Morão (Lisboa: Edições 70, 2000). Olivier Reboul (1925-1992), um dos mais importantes filósofos da educação do séc. XX, apresenta-nos, numa pequena obra editada em 1971 na conhecida colecção das P.U.F. "Que sais je?", uma estimulante síntese introdutória à Filosofia da Educação, na qual percorre, num estilo mais questionador do que resolutivo, as principais questões e aporias da educação: desde a definição da própria educação e das antinomias da pedagogia (constrangimento e desejo, transmissão e espontaneidade, incerteza e tecnicidade, ruptura e continuidade), passando pelas questões centrais da autoridade e do rigor e desembocando no húmus problemático essencial da filosofia da educação, que é a questão da relação entre educação e valores, analisando as tentações do positivismo, do relativismo e da indiferença e interpelando-se/nos sobre o que vale a pena ensinar.

A resposta de Reboul, para suscitar o interesse:

«Podemos então propor esta dupla resposta: vale a pena ensinar o que une e o que liberta.
O que une: sim, o que vale a pena ensinar é o que integra cada indivíduo, de um modo duradouro, numa comunidade tão vasta quanto possível. E é por isso que se ensina uma língua em vez de um dialecto, as ciências em vez do ocultismo, o autor seleccionado pela história em lugar de um romance que está na moda.
(…)
O que liberta, tal é o segundo critério. Ao fim e ao cabo o que há de comum entre as diversas disciplinas, entre a educação física, técnica, artística, intelectual e até entre os diversos ramos desta, o científico e literário? Justamente isso. A ginástica, a dança, o desporto libertam-nos das nossas durezas, faltas de jeito, crispações, desperdícios de energia. O ensino artístico: tem por objectivo formar imitadores ou criadores? Na nossa opinião, a oposição é fictícia, e o verdadeiro objectivo do ensino artístico é permitir a cada um fazer o que quer, pintar o que quer pintar e como quer pintar. O ensino intelectual, ao libertar dos chavões e dos preconceitos, permite expressar-se e pensar por si mesmo. Quanto à educação moral, ela não consiste em tornar as pessoas “conformes”, mas em libertá-las daquilo que as domina e as cega.» (pp.81-82)

A Filosofia da Educação é uma das áreas da reflexão filosófica que detém uma particular importância para educadores e professores, sobremaneira num tempo de crises e reformas educacionais em Portugal. (Como seria bom se estivesse integrada no curriculum de formação de professores!) A esperança renascerá para quantos tiverem acesso a este pequeno opúsculo de estilo problematológico e inquietante, mas profundamente esclarecedor da teia que entretece uma das mais nobres quão exigentes e complexas actividades humanas, que é a alimentação inacabada da liberdade com outros!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Como o fantástico pode ser deprimente!

É absolutamente fantástico como o PM José Sócrates, o ME Manuel Pinho e outros membros da comunitiva que acompanhou o PM à Venezuela violaram a lei do tabaco a bordo de um avião da TAP. Mas, de facto, esta situação (que se transformou já em mais uma historieta política com uma beleza portuguesa muito própria), completamente surrealista (pelo menos segundo critérios objectivos de avaliação da actuação política de qualquer político numa democracia esclarecida e madura), é, infelizmente, deprimente.

Quando a falta de confiança dos portugueses para com os políticos e o consequente afastamento da política continua a aumentar é necessário não escamotear responsabilidades: são, sem dúvida, este tipo de actuações eticamente deploráveis e vergonhosas, protagonizadas pelos mais importantes titulares de cargos públicos (do poder central ao local), as principais e maiores causas para essa quebra de confiança, destruidora do mais elementar vínculo de sentido entre governados e governantes. E são deploráveis e vergonhosos estes comportamentos pelo simples facto de um PM de um país que atravessa uma importante fase de derradeira implementação de rigor ético na atitude perante o trabalho, a lei, as responsabilidades, os outros, não ter sido capaz de evitar tão grosseira violação da lei.
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Ao invés, pois, de uma atitude nobre de serviço, muitos políticos (cada vez mais?!) escancaram no rosto dos seus representados, eleitores soberanos (pelo menos de 4 em 4 anos!), uma atitude de prepotência e completa falta de caracter indispensável para exercer cargos públicos. A acção política séria é uma coisa séria e, portanto, não se compadece com estes "deslizes"!
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Agora, José Sócrates, para emendar a mão, pede desculpa, e, para manter a pose, lá terá que deixar de fumar! Mas este pedido de desculpa (com um tocante apelo à santa ignorância!) e este golpe de mestre retor não colhem mais. Já poucos são aqueles que têm condições para aceitar estes cínicos pedidos de desculpa e estes encenados pseudo-sacrifícios pessoais!

terça-feira, 13 de maio de 2008

Requiem por Rauschenberg

"Bicycle - National Gallery"

Morreu Robert Rauschenberg (22 Outubro 1925 - 12 Maio 2008), um dos artistas plásticos, fotógrafos e performers mais estimulantes e criativos da pop art e da arte contemporânea em geral, cuja vida criativa foi um desafio constante dos limites da imaginação e da criatividade, consubstanciado numa sempre provocatória obra de arte em busca do infinito, ainda que a partir dos mais elementares materiais.

"8th-Van-Cliburn-International-Piano-Comeptition-1989"

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Acontecimento editorial

A revista norte-americana Foreign Policy começou a ser editada em português. Trata-se de uma revista bi-mensal de Relações Internacionais, que tem a colaboração de filósofos, economistas, cientistas políticos e outros especialistas académicos de gabarito. É daquelas revistas que se lêem com grande interesse do primeiro ao último artigo. Um excelente acontecimento editorial e um excelente instrumento de formação e informação política de qualidade indispensável para compreender o nosso mundo.

O seu terceiro número em português traz, como tema de capa, um artigo sobre o Islão, da autoria do especialista em Médio Oriente Graham E. Fuller, que foi vice-presidente do National Intelligence Council na CIA e é actualmente professor-adjunto de História na Simon Fraser University de Vancouver. Fuller defende a inteligente, informada e despreconceituosa tese de que o mundo não só não seria melhor sem o Islão (outras estruturas ideológico-religiosas fariam o contraponto conflituoso com o Ocidente), como se trata de uma religião, cuja força unificadora, talvez possa permitir um patamar mais seguro para um melhor entendimento no futuro com o Ocidente. Obrigatório.

Petróleo $125

O preço do barril de crude voltou a bater recordes nos últimos dias. O preço aumenta, aumenta a preocupação dos consumidores e, com isso, as dificuldades em compreender o que se está a passar.

Uma das teses explicativas mais divulgada é a de que o preço tenderá a aumentar porque o petróleo está a acabar. Nada de mais errado, segundo alguns analistas: há hoje mais reservas comprovadas de petróleo do que há três décadas, dois terços do petróleo que se sabe existir está ainda por explorar e as tecnologias de extracção e refinação estão a ser apuradas, atirando, assim, para mais longe o fim.

Mas a que se deve esta subida de preços? Uma explicação adianta que se trata do efeito natural da lei da oferta e da procura, visível também noutros mercados: a procura aumentou bastante (em países em desenvolvimento, com a China à cabeça) e as reservas de petróleo extraído, por exemplo da Arábia Saudita, estão a esgotar-se. O cartel do “ouro negro” mantido pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), tinha, até há pouco tempo, conseguido extrair mais petróleo do que aquele que enviava para o mercado, mantendo assim os preços baixos (designadamente, a Arábia Saudita, o maior produtor mundial). Agora, devido à súbita elevada procura, já não o conseguem fazer, o que provocou alguma escassez de petróleo extraído e o consequente aumento dos preços.

Outra ideia que parece, pois, errada é a de que são as grandes multinacionais petrolíferas compradoras, refinadoras e extractoras a ganhar rios de dinheiro com a especulação dos preços. Mas, afinal, estas limitam-se a aceitar os preços que lhes são impostos pelos maiores detentores da extracção e reservas de petróleo – a OPEP.

A solução política que se tem vindo a sustentar – quer para o problema económico, quer de dependência face ao petróleo, quer para o problema ecológico – é bem sintetizado pelo correspondente da revista The Economist Vijay V. Vaitheeswaran num artigo esclarecedor da Foreign Policy de Jan./Fev. 2008:

«O papel muito importante dos governos, as mais das vezes negligenciado, é o nivelamento no campo das políticas. Os governos têm o poder de regular as forças que podem influenciar os mercados de energia mas não se reflectem nos preços dos mercados. Impondo limites às emissões de gases, instituindo novas taxas, ou terminando com os subsídios às indústrias alimentadas a combustíveis fósseis podem impelir os inovadores em energias limpas a saírem da sombra e vir à luz do dia. Criar um ambiente em que novas tecnologias possam prosperar e permitir que os mercados façam o que melhor sabem – compensar a inovação e a eficiência – devia ser o objectivo dos governos. Felizmente existem cada vez mais evidências de uma procura, por parte dos cidadãos e de empreendedores, para uma tal revolução de políticas centradas no mercado. É essa a revolução que nos levará, finalmente, à vida para além do petróleo.»
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(Para análise crítica desta perspectiva veja-se aqui.)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

No dia da Europa...(2)

No dia da Europa era interessante pensar como seria de todo desejável que se produzisse uma reflexão mais profunda sobre o Tratado Constitucional Europeu e a construção europeia. Se a ratificação do Tratado de Lisboa através do instituto do referendo (forma ainda sobrevivente de democracia directa!) pudesse ter sido um verdadeiro risco político, que talvez Portugal não devesse correr neste momento (dada a ainda alguma falta de formação política generalizada), teria constituído, no entanto, a circunstância ideal para que esse debate tivesse efectivamente acontecido no nosso país.

De qualquer modo, celebrar o dia da Europa em Portugal deveria fazer recordar essa necessidade -- a necesidade de uma verdadeira, aprofundada e rigorosa reflexão/(in)formação sobre a construção europeia, para que as pessoas se começassem a habituar a outras ideias de futuro, como a hipótese do federalismo e a tese do governo mundial.

No dia da Europa...(1)

No dia da Europa talvez fosse bom reflectir sobre o quão longe ainda estamos de um modelo de desenvolvimento europeu ao nível das mentalidades, da formação de efectiva qualidade, do desenvolvimento económico sustentado e mesmo ao nível da própria organização e funcionamento do Estado, bem como a forma de estar na cidade.

O modo como se continua a encarar o desempenho de cargos públicos, a cavar o fosse entre governantes e governados e a erudir a nobreza do exercício da política; o modo como a sociedade civil continua a titubear, a hesitar na hora de participar na vida pública e jogar os seus "trunfos", que são os direitos; o modo como continuamos, em geral, a encarar o esforço, o trabalho e o elevado desempenho, em vários sectores da actividade produtiva e, designadamente, no sector público... são características que nos continuam a empurrar para a cauda da Europa, cauda esta que há muito teima em pousar sobre o deserto do Saara e ligar-nos ao terceiro mundo do subdesenvolvimento.

E as fantasias político-propagandistas não resolvem, claro, o essencial: a falta de exigência na formação inicial escolar, na formação contínua a vários níveis, na formação técnico-profissional e a falta de um verdadeiro e sincero incentivo para a real qualificação das pessoas, para o empreendedorismo e a vida participada de valores éticos e políticos capazes de, senão já recuperar a autenticidade existencial, pelo menos obviar ao pauperismo económico, cultural e social em cuja crise nos afundamos enquanto sociedade.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Tuberculose, comunicação social e política

Mirandela, Trás-os-Montes, Portugal... União Europeia. Ano de 2008. Perante alguns casos de tuberculose pulmonar (contagiosa) em escolas do concelho, a Delegação Regional de Saúde procede, num jardim-de-infância, em Novembro de 2007, a rastreio em adultos e crianças. Foi, entretanto, detectado um caso num adulto daquele jardim-de-infância.

O Agrupamento de Escolas não comunicou absolutamente nada aos pais, alegando o Conselho Executivo não ter tido conhecimento do que se estaria a passar (apenas mais tarde ficou a saber) e as próprias educadoras julgaram, inicialmente, tratar-se de mais uma acção clínico-pedagógica, como outras, ao abrigo de protocolos com o Centro de Saúde da cidade. O Agrupamento não terá tido, alegadamente, conhecimento que havia casos de tuberculose em algumas das suas escolas (para além daquele jardim-de-infância), nem que equipas médicas iriam proceder a testes de tuberculina em jardins-de-infância e escolas do primeiro ciclo, porque… o comunicado da Delegação de Saúde foi enviado para a Câmara Municipal e, nesta, pressupôs-se (e parece-me que bem!) que também teria sido dado conhecimento ao Conselho Executivo do Agrupamento! Alegadamente, não foi!!

Entretanto, quando o Conselho Executivo do Agrupamento veio a saber que havia casos de tuberculose em algumas das suas escolas, incluindo num dos seus jardins-de-infância, sugeriu à Delegação de Saúde local que se promovesse uma sessão de esclarecimento aos pais e encarregados de educação das crianças (alguns – os que sabiam – já preocupados), ao que lhes terá sido respondido “que boa ideia, ainda não nos tinha ocorrido”, mas terão alegado qualquer coisa genérica como ainda não terem condições para realizar tal sessão!

Sabe-se lá porquê(!), os órgãos de comunicação social, coisa estranha e inédita(!), vieram a obter a informação dos casos de tuberculose, já no adiantado mês de Abril de 2008, designadamente num jardim-de-infância da cidade. Alguns pais ficaram, então, a saber que os seus filhos estavam a frequentar uma escola em que uma funcionária se encontrava de baixa médica, desde Janeiro, por lhe ter sido diagnosticada tuberculose pulmonar e que tinham sido alvo de testes de tuberculina… através das notícias dos órgãos de comunicação social, designadamente através de reportagens televisivas e isto, portanto, em Abril de 2008!
Apenas sob pressão efectiva de alguns pais e, (infelizmente) principalmente, sob a pressão da tão incómoda comunicação social acabou por se realizar, em 7 de Maio (ontem!), uma sessão de esclarecimento sobre tuberculose, em que estiveram presentes o Delegado de Saúde de Mirandela o Adjunto do Delegado Regional de Saúde e mais dois médicos.

Esta sessão de esclarecimento permitiu esclarecer:

1. que talvez tenham sido tomadas todas as medidas clinicamente previstas para tratar, prevenir e despistar casos de tuberculose pulmonar e que talvez seja mesmo seguro manter as crianças naquele ambiente, que até talvez seja mesmo privilegiado, uma vez que está a ser monitorizado;

2. que foi, contudo, sonegada informação fundamental aos pais – primeiros e maiores responsáveis pela educação, segurança e saúde dos seus filhos menores –, durante 5 meses, tornando assim impossível uma legítima e importante tomada de decisão de forma livre e, portanto, responsável, independentemente de qual fosse.

3. que as instituições responsáveis pela administração da política de saúde, pelo menos local e na região Norte (será só aqui?!), não estão minimamente preparadas, do ponto de vista organizacional, para produzir decisões politicamente modernas, que privilegiam efectivamente os valores ético-políticos mais fundamentais das sociedades democráticas-liberais, que é o que a nossa quer ser(?!), como seja o da igualdade de acesso a informação relevante acerca de menores ao cuidado dessas mesmas instituições;
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4. que as pessoas que ocupam lugares públicos, portanto com uma inegável dimensão política – como sejam as de delegados de saúde – demonstraram não ter sensibilidade e preparação política para tomar decisões verdadeiramente competentes (do ponto de vista político) acerca de um caso de saúde pública numa escola, designadamente num jardim-de-infância, que passaria por uma informação de qualidade técnica e atempada;
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5. que se continua a fazer política (porque os delegados de saúde, desde o regional ao local, são cargos políticos!) como se fazia há 40 anos atrás, tratando-se os cidadãos como se de atrasados mentais se tratasse, abusando de um paternalismo perfeitamente pacóvio e provinciano, como se as instituições estatais tivessem que tomar todas as decisões pelos cidadãos livres (característica, isso sim, de países do chamado terceiro mundo, sob sistemas políticos totalitários!).
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6. que continua a fazer-se em Portugal uma política de pura e simples propaganda de um governo que não pode ter mácula (como isso fosse, sequer em tese, possível!), que teima em governar impondo e ocultando, na fria distância da sua maioria absoluta, confundindo maioria absoluta com poder absoluto;
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7. e que (coisa perfeitamente inacreditável!) as pessoas que ocupam cargos públicos continuam, inexplicavelmente, a não saber lidar com a comunicação social, quando, neste infeliz caso teria sido muito mais dignificante para governadores e governados, se se tivesse evitado o pânico e a telenovela sempre produzida pelos órgãos de comunicação social usando e abusando da vida privada das pessoas, antecipando a sua entrada em cena, retirando-lhe completamente a oportunidade de criar mais uma sensacionalista "notícia";
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8. Que, desgraçadamente para quem ocupa cargos públicos, mais uma vez é no palco e sob a batuta da comunicação social que se cava o fosso entre a política e os cidadãos;
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9. Que a confiança que os cidadãos têm nas instituições estatais continua a decrescer graças à inacreditável falta de competência, sensibilidade e formação política de pessoas que ocupam cargos públicos demasiado importantes na vida das pessoas;
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10. E que, consequentemente, há quem continue a contribuir para o atoleiro das mentalidades e do modus operandi da sociedade portuguesa em direcção a um terceiro-mundismo altamente preocupante.

Como evitar tudo isto? Era só e apenas ter informado, esclarecido e aconselhado os pais daquelas crianças... ATEMPADAMENTE!!!

segunda-feira, 5 de maio de 2008



Fotografias...


“Brigth Big Brother/Reflection du Mai '68”
(fotografia sobre gravura “Untitled #52”, de Richard Caldicott)
© Miguel Portugal

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Valor da Filosofia reconhecido por jovens americanos

Na secção de educação do The New York Times foi publicado (na edição de 6-4--2008) um artigo que dá conta do incremento bastante elevado da procura da Filosofia em vários cursos de várias universidades americanas, com depoimentos de jovens estudantes que reconhecem o valor, pelo menos instrumental, das competências e conhecimentos filosóficos.

Não resisto a citar aqui um excerto desse artigo:

«Once scoffed at as a luxury major, philosophy is being embraced at Rutgers and other universities by a new generation of college students who are drawing modern-day lessons from the age-old discipline as they try to make sense of their world, from the morality of the war in Iraq to the latest political scandal. The economic downturn has done little, if anything, to dampen this enthusiasm among students, who say that what they learn in class can translate into practical skills and careers. On many campuses, debate over modern issues like war and technology is emphasized over the study of classic ancient texts.» (Winnie Hu, "In a New Generation of College Students, Many Opt for the Life Examined")

A aprendizagem da Filosofia (mesmo que não recorrendo, necessariamente, aos grandes textos antigos da filosofia, embora tal suscite outro debate!) é, de facto, central num curriculum moderno, completo e equilibrado, dada a sua vocação organizadora dos saberes, orientadoras de vivências e formadora de competências críticas, problematizadoras, analíticas e compreensivas, que em muito engrandecem o ser humano enquanto ser humano, mas também o preparam para a vida activa profissionalmente hoje intelectualmente bastante exigente, mesmo em áreas que, tradicionalmente, não seriam, supostamente, tão exigentes.

Uma forma de reconhecer adequadamente em Portugal esse – afinal hoje realmente incontestável – valor formativo da Filosofia passaria por um reconhecimento institucional inequívoco da importância da disciplina no ensino secundário, através:

1. da sua inclusão como opção no 12.º ano dos cursos científico-tecnológicos,

2. bem como pela inclusão de um exame nacional de conhecimentos e competências filosóficas, no final do ensino secundário (11.º ano). (Medidas já propostas pela Sociedade Portuguesa de Filosofia.)

No caso da primeira medida, as competências e conhecimentos filosóficos seriam justamente alargados aos alunos dos cursos científico-tecnológicos do 12.º ano, que muito beneficiariam com um programa que envolvesse o aprofundamento de, por exemplo, temáticas de Ética Aplicada e Filosofia da Ciência e da Tecnologia.

No caso da segunda medida, ser examinado a uma disciplina de Português ou Matemática é uma exigência ditada pela importância destas disciplinas na formação dos alunos no final daquele ciclo de ensino; fazer o mesmo na disciplina de filosofia seria conceder-lhe, por aquela via, a mesma importância, cada vez mais reconhecida internacionalmente, não só pelos meios académicos, como também empresarias e, agora também, pelos próprios jovens, que sentem a necessidade de estar munidos de instrumentos intelectuais que os tornem capazes de melhor compreender o mundo, bem como para estarem mais bem preparados para evoluir na sua carreira profissional.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Indisciplina e autoridade

Eis aqui mais um desmentido esclarecedor do sociologismo da educação preferido por este ME: afinal os problemas da indisciplina não são apenas problemas sociais; existem também em jovens oriundos de classes sociais menos desfavorecidas, o que remete o problema para os estilos educativos exibidos tanto por professores como por pais. (Recorde-se aqui síntese sobre estilos parentais na educação das crianças e jovens.)

Afinal, a questão central da (boa) autoridade é de tal modo complexa e ainda errada e preconceituosamente colada a determinada orientação ideológica mais conservadora, que se esgueira irresponsavelmente por entre os dedos de quem manuseia as políticas da educação em Portugal; coisa fácil, aliás, já que a noção pouco esclarecida de liberdade que por aí circula, conduziu à cega erradicação generalizada das acções de autoridade educativa (e da própria palavra!), com que se nutre, porém, a verdadeira educação/libertação humana.

Os jovens e a política

O PR mostrou, no seu discurso comemorativo dos 34 anos do 25 de Abril, alguma indignação pela ignorância revelada pelos jovens portugueses face aos importantes acontecimentos de Abril de 74 e pelo alheamento muito generalizado face à política.

Estes dados recolhidos em estudo realizado pela Universidade Católica mereceriam uma análise sociológica mais aprofundada. Mas poder-se-iam destacar algumas ideias, que parecem estar com isto relacionadas:

1. Muitos jovens estão alheados da política, como estão alheados de outras áreas culturais centrais, como a ciência, as humanidades e até as artes. A única área que parece prender a atenção dos jovens, em geral, são as tecnologias, ainda assim por via da diversão.

2. Este alheamento face à política deve-se, obviamente, às práticas políticas que observam nos adultos, pouco orientadas por princípios éticos -- a política portuguesa encontra-se, desde há algum tempo, enredada num esvaziamento ideológico (sem ideias, portanto!) e tem-se resumido mais ou menos a meros jogos de interesses particulares, corrupções (activas ou passivas) e outras artimanhas, que dificilmente atraiem, por exemplo, adolescentes, que vivem precisamente uma fase de desenvolvimento intelectual e moral que os torna demasiado exigentes do ponto de vista ético para se apaixonarem pelas actuais "problemáticas" políticas e, muito menos, tomarem parte activa em tão "vil" actividade!

3. Mas o alheamento pela política enquadra-se, pois, num alheamento mais generalizado face à "alta" cultura -- à ciência, às artes, às humanidades, que são áreas do pensamento e da acção humana suficientemente complexas e árduas (por muito apaixonantes que possam efectivamente ser), que facilmente se tornam num profundo aborrecimento para todos (adultos incluídos!).

4. Problema de formação, portanto. Solução? A demagogicamente fácil é hoje apontar armas à escola. É claro que da escola depende uma boa parte da motivação para os jovens se interessarem pelos vários âmbitos do saber (política incluída). Mas para a escola cumprir este seu papel é necessário não só mais empenhamento dos professores, mas também orientações pedagógicas de qualidade e não ideologicamente marcadas por um sociologismo da educação castrador, porque avassaladoramente monológico, que tem dominado o ME nas últimas décadas. Além disso, é necessário não esquecer também como um ambiente social generalizado (veiculado eficazmente pelos mass media, através da música, da publicidade...) de bem-estar, lazer, fuga ao esforço, ao trabalho e à responsabilidade, procura da acção fácil e consumismo compulsivo esvazia completamente o ser humano das nossas sociedades contemporâneas, portuguesa muito em particular, e extraviam-no do caminho do inter-esse ("no meio do ser", envolvimento) por actividades intelectualmente tão atractivas quão necessárias, como a ciência, a política, as artes e as humanidades.

Se este alheamento preocupante é também um problema de formação é-o, sobretudo, de mentalidades. Mudar estas mentalidades (políticas incluídas!) pouco efectivamente modernas e, portanto, avessas ao verdadeiro (árduo!) desenvolvimento político, económico, social e cultural, não se consegue com ainda mais facilitismos. Se há que melhorar desempenhos, por exemplo dos professores nas escolas, há também que melhorar desempenhos de políticos, que, no caso dos que ocupam o poder, deveriam ter (tido) a coragem de implentar medidas, designadamente na área crucial da formação, que promovessem o esforço e o envolvimento da sociedade em geral, ao invés de criar a ideia (facilmente eleitoralista!) de que a formação (já nem se fala de qualidade!!) é coisa fácil!

sábado, 26 de abril de 2008

Celebrar a democracia – pensar a democracia

"Contemplação do pluralismo 2"
(Sagres, Agosto 1999)
© Miguel Portugal

Quando se fala em democracia tem-se, normalmente, em conta dois sentidos: 1. o regime político em que a totalidade da população adulta pode participar, directa ou indirectamente (geralmente através de votação), na tomada de decisões e na escolha do governo; 2. o regime político que deve reflectir os verdadeiros interesses do povo, mesmo que o próprio povo ignore quais os seus verdadeiros interesses.

Quando se fala de democracia no primeiro sentido (e deixemos o segundo, que levantaria outro tipo de questões) há que ter em conta dois tipos: a democracia directa e a democracia representativa.

A democracia surgiu historicamente sob a forma de democracia directa: nas cidades-estado da Grécia antiga, os que podiam votar (o que excluía as mulheres, os escravos e outros habitantes considerados não cidadãos) discutiam e votavam cada assunto, em vez de elegerem representantes. As democracias directas apenas são exequíveis com um pequeno número de participantes ou quando as decisões a tomar são relativamente poucas – é extremamente difícil colocar um grande número de pessoas a votar sobre variadíssimos assuntos, apesar da evolução da comunicação electrónica vir um dia a permiti-lo, mas o que exigiria, ainda assim, tempo e uma educação política substancial. Actualmente, a democracia directa apenas sobrevive em três Cantões suíços de reduzida população – Appenzell, Glaris e Unterwald (3% da população suíça) – e nas constituições de alguns estados, que prevêem práticas que se ligam à democracia directa, como o referendo e o direito de iniciativa popular.

Por isso, as democracias actuais são representativas: há eleições, nas quais os eleitores escolhem os seus representantes, que participam depois no processo quotidiano de decisão, que pode estar, ele próprio, organizado de modo democrático. Por vezes, a eleição exige uma decisão maioritária; outras vezes, como por exemplo no caso da Grã-Bretanha, segue um processo que permite que os representantes sejam eleitos mesmo que a maioria não vote neles, desde que mais ninguém tenha mais votos do que eles.

Abraham Lincoln ficou conhecido pela sua lapidar definição de democracia: «a democracia é o governo do povo, pelo povo, para o povo.» De facto, as democracias representativas constituem, em certos aspectos, um governo do povo, mas noutros aspectos não: são um governo do povo, uma vez que os eleitos foram escolhidos pelo povo; mas uma vez eleitos, os representantes do povo nem sempre são obrigados a respeitar a vontade do povo em várias questões específicas da governação. As eleições frequentes são, contudo, uma garantia constitucional contra o abuso de poder – os representantes que não respeitarem os interesses do eleitorado têm poucas probabilidades de ser reeleitos.

Críticas à democracia

Mas a democracia não é isenta de críticas. A mais antiga e uma das mais contundentes (que foi primeiro formulada por Platão nos alvores da democracia grega) é uma crítica conservadora: as decisões políticas sólidas exigem um grau elevado de conhecimentos especializados, que os eleitores não têm. Assim, a democracia directa seria um regime muito pobre, pois o Estado estaria nas mãos de pessoas com fracos conhecimentos e competências – o capitão, e não os passageiros, deveria dirigir o barco (segundo a célebre analogia platónica).

Muitos outros pensadores fazem hoje uma crítica semelhante à democracia representativa: muitos eleitores não estão preparados para avaliar a aptidão de certos candidatos e como não estão preparados para avaliar as opções políticas (aquilo que deveria ser avaliado), escolhem os seus representantes com base em atributos irrelevantes (aspecto físico, simpatia, etc.) ou, então, o seu voto é determinado por preconceitos irreflectidos acerca de partidos políticos. Em resultado disso, muitos excelentes representantes potenciais não são escolhidos, elegendo-se muitos que são em muitos aspectos inadequados, apenas com base em qualidades inapropriadas que, por acaso, possuam.

É claro que em resposta a esta crítica pode contra-argumentar-se que esse não é, necessariamente, um argumento contra a democracia – o que mostra é apenas que é necessária uma educação dos cidadãos para a participação democrática. E mesmo que isto não seja de todo possível, pode sempre argumentar-se que, de entre as alternativas de regime político à nossa disposição, a democracia representativa seja aquela que tem mais probabilidades de promover os interesses do povo. (Como dizia Lord Acton – frase que se celebrizou nos discurso de Winston Churchill –, «a democracia é o menos mau dos maus sistemas»!)

Outra forte objecção à democracia é de inspiração marxista: a democracia dá apenas uma sensação ilusória de participação na decisão política. Muitos pensadores defendem que os processos eleitorais não garantem o governo do povo: alguns eleitores podem não compreender quem defende melhor os seus interesses; podem ser intrujados através de discursos hábeis; a variedade de candidatos oferecida na maior parte das eleições não dá aos eleitores uma escolha genuína (é difícil ver, defendem, porque este tipo de regime é tão elogiado, quando, normalmente, acaba por se escolher entre dois ou três candidatos com propostas políticas virtualmente impossíveis de distinguir!).

Os críticos de inspiração marxista objectam que a democracia representativa é uma “democracia burguesa”, que se limita a reflectir relações de poder já existentes, que são, por sua vez, o resultado de relações económicas. Enquanto estas relações de poder não forem alteradas, dar ao povo a hipótese de votar em eleições é uma perda de tempo e, portanto, uma ilusão.

É claro que a solução clássica, de inspiração marxista, para a organização política da sociedade tem ela própria os seus problemas: a ditadura do proletariado envolve, necessariamente, uma forte e talvez injustificada limitação da liberdade, colidindo, assim, com um valor central na organização justa da sociedade.

Outra forte objecção ao regime democrático é designada por paradoxo da democracia: enquanto partidários dos princípios democráticos, podemos acreditar que a decisão da maioria deve ser seguida, por exemplo no que toca à despenalização da I.V.G. (vulgo, aborto); enquanto indivíduos com fortes crenças contra a I.V.G., podemos acreditar que a sua despenalização nunca deveria ser permitida por escolha da mulher. Assim, parece que, neste caso, acreditamos simultaneamente que a I.V.G. deve ser despenalizada (em resultado da decisão da maioria) e que não deve ser despenalizada (por causa das razões pessoais). Mas estas duas crenças são incompatíveis. Como dizia Tocqueville, não sem um tom fatalmente crítico, a democracia é «a ditadura da maioria»!

Isto não enfraquece totalmente a noção de democracia, mas chama a atenção, em boa verdade, para a possibilidade de conflitos entre a consciência individual e a decisão da maioria, que pode, ela própria, estar equivocada – não é por uma decisão ter sido tomada pela maioria, que faz dela uma boa decisão; apenas a torna legítima no quadro dos princípios democráticos.

Não será agora difícil transpor estas análises para as situações concretas da nossa democracia!

Fontes:
- Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, trad. port. Desidério Murcho e Aires Almeida (Lisboa: Gradiva, 2007), 2.ª ed.
- Jonathan Wolff, Introdução à Filosofia Política, trad. port. Maria de Fátima St. Aubyn (Lisboa, Gradiva, 2004)
- António José Fernandes, Introdução à Ciência Política (Porto: Porto Editora, 2008).

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Partidos de quadros e partidos de massas

Numa classificação muito divulgada, embora não única, na Ciência Política, os partidos políticos podem ser classificados em partidos de quadros e partidos de massas:

1. Os partidos de quadros surgiram na época da alvorada do sufrágio universal – num ambiente liberal, portanto – e têm como fito reunir pessoas ilustres para preparar eleições; são essencialmente partidos de notáveis, de individualidades com certa identidade de opiniões, que se reúnem para preparar eleições; por isso são partidos flexíveis, sem disciplina rígida e pouco estruturados, em que predomina a preocupação com a qualidade dos seus membros efectivos em detrimento da quantidade.

Actualmente, os principais partidos norte-americanos, os partidos liberais europeus e os partidos conservadores ainda se aproximam deste esquema, uma vez que os parlamentares destes partidos gozam de uma independência pessoal razoável na sua acção, a máquina partidária é flexível e o número de pessoas que intervêm nas decisões não é elevado.

2. Por outro lado, os partidos de massas aparecem numa fase histórica de consolidação do sufrágio universal – à medida que o eleitorado se alarga e que os cidadãos mais passivos do regime liberal se tornam mais reivindicativos e participantes na vida pública, organizam-se partidos de massas, baseados em amplas camadas de aderentes e de militantes e com programas mais definidos e delineados. São, assim, partidos mais centralizados, disciplinados e que procuram recrutar e formar o máximo de militantes activos, vivendo das secções de base territorial (as tão “importantes” “bases”!).

Os partidos socialistas foram os primeiros a adquirir esta forma, que viria a ter uma maior sofisticação nos partidos comunistas e viria a ser copiada pelos partidos fascistas (principalmente o partido nacional-socialista alemão e o partido fascista italiano).

Tornar o PSD ou qualquer outro partido com aspirações governativas num partido estritamente de massas é mau, pelo menos, por duas ordens de razão:

1. Porque numa era em que a política se tornou, irremediavelmente, (pelo menos) mesclada de tecnocracia é incontornável a necessidade de atrair quadros técnicos profissionalmente competentes e com a sabedoria político-partidária acumulada suficiente para travar batalhas eleitorais e governar em contexto muito politicamente difícil e pragmaticamente exigente, como é o contexto das sociedades contemporâneas com os seus problemas económicos, ecológicos, sociais, com especial relevo para a complexidade específica da sociedade portuguesa, que é uma sociedade ainda em vias de desenvolvimento/modernização.

2. Porque seria (já o é, de certo modo!) também uma forma de tornar mais comum e eticamente pseudojustificado o clientelismo de quem vive grudado no oportunismo político-partidário do cargo fácil – com as consequentes falhas governativas daí decorrentes, que têm atrasado o país –, e de quem não tem a independência profissional e intelectual e, tantas vezes, nem sequer a competência política, para contribuir, isso sim, com o despojamento e desinteresse fundamental para alcançar o bem comum.

Numa fase de suposto esvaziamento intelectual, ideológico e, portanto, político da política e dos (alguns) partidos políticos, talvez não fosse má ideia reorganizar, clarificar e assumir algumas ideias básicas, principalmente quando se pretende assumir a responsabilidade do poder.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Dia Mundial do Livro

«Um livro é um objecto que tem coisas que nos podem vir a ser úteis.» (Agostinho da Silva)

Não vai ser fácil!



Não vai ser mesmo fácil convencer algumas (muitas?) pessoas de que a pseudo-clivagem entre "bases" e "notáveis" não passa de reles produto pseudopolítico, made in LFM & Ca., pronto a servir clientelismos de quem vive à espreita de uma oportunidade, que denota apenas o deserto de ideias e o ímpeto destruidor de quem parece não ser capaz de construir nada de bom para o partido e para o país.

Não resisto a citar aqui uma excelente e saborosa síntese do problema, escrita por um... notável militante e fecundo pensador do partido:

«Vai ser preciso muito esforço para remendar os rasgões que a demagogia das "bases" contra os "notáveis" fez e faz no PSD. Nem de um lado estão as "bases", mas sim um grupo de verdadeiros funcionários do partido, cuja actividade profissional é ou depende de serem dirigentes locais do PSD; nem do outro estão "notáveis", mas sim muitas pessoas que pela sua profissão, actividade, mérito, tem influência profissional, capacidade e credibilidade junto do país, que vai para além da sua qualidade de serem militantes do PSD. E têm independência, têm onde cair mortos. O problema é que num PSD cada vez mais encolhido, mais pequeno, com 26% nas sondagens, os profissionais partidários tem cada vez menos lugares para distribuir e como não tem na sociedade qualquer recuo, qualquer capacidade de manterem o estatuto, o carro, o telemóvel, o salário, precisam de varrer tudo à frente, mesmo se for preciso destruir o partido pelo caminho.»
José Pacheco Pereira, in Abrupto.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Finalmente... teremos PSD?!



Manuela Ferreira Leite terá anunciado ontem a sua candidatura à liderança do partido, com o apoio, designadamente e para já, de Marcelo Rebelo de Sousa e a desistência automática de Aguiar Branco, que revelou o sentido ético de despojamento do poder e a honrosa atitude contributiva necessária em momento crucial do partido.

O PSD volta, pouco a pouco, à revitalização que já tardava. O populismo do partido de massas, em que se estava a afundar com a (in)acção de Menezes, irá dar lugar a um partido que, para ser útil ao país, terá necessariamente que envolver e tornar-se atractivo para um conjunto de quadros, pessoas competentes política, profissional e intelectual e culturalmente. As bases compreenderão muito bem, como compreenderam sempre, que para governar bem -- coisa nada fácil --, exige-se confiar nos mais capazes e, à partida, melhor posicionados para travar difíceis batalhas, primeiro eleitorais, depois, governativas reformistas, em nome de todos aqueles que se revêem numa política verdadeiramente liberal com equilibradas preocupações sociais, como é a verdadeira política social-democrata.

À partida, parece-me Manuela Ferreira Leite a candidata que melhor se encaixa no perfil de líder necessário ao PSD e, principalmente, ao país: inteligente, competente, rigorosa q.b., coerente e capaz de unir em seu torno o conjunto de melhores e mais capazes para se apresentarem como uma alterativa séria ao governo de José Sócrates. O país só terá a ganhar com esta revitalização política de um dos mais carismáticos e importantes partidos políticos portugueses.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Encontro Internacional de Educação… para o Verão?!

Os Sindicatos promoveram um dia D, na passada semana, em todas as escolas, ao jeito de um dia de reflexão, mas com o intuito mais pragmático de se ratificar o memorando de entendimento com o ME. O que seria mais consonante com a situação actual da educação e do ensino em Portugal seria agora, após este pequeno e muito parcial entendimento, uma semana de reflexão aprofundada, sob a forma de um Encontro Internacional de Educação, que reunisse especialistas nacionais e internacionais das áreas da filosofia, da sociologia, da história, da psicologia e até das neurociências, para que se pudesse discutir e por a nu o que está veradeiramente em questão nesta prática fulcral que é a educação e o ensino.

É claro que que a riqueza de perspectivas deveria ser uma preocupação – convidem-se adeptos do eduquês (se ainda os houver!), mas convidem-se também, por ex., psicólogos americanos que baseiam as suas teorias em estudos experimentais e em observações científicas e não apenas em citações de citações! E tenha-se coragem para colocar em debate as filosofias da educação e filosofias políticas que lhes subjazem, sob pena de se adoptar, como é costume por estas bandas, uma fácil quão pobre atitude reducionista face às complexas problemáticas da educação.

Este é um tempo de dissensos e atritos, mas também de algum desnorte intelectual, científico e pedagógico, nesta área tão complexa que é a Educação e o Ensino. A finalidade deste congresso – onde se requeria, pois não seria um congresso estritamente académico, a presença de uma ampla quantidade de docentes (por que não 100.000?!) – seria discutir as problemáticas centrais da educação, algumas tão antigas como a própria, outras recentes e em rápida transmutação, para que o fenómeno político reformista a que assistimos pudesse ser iluminado com alguma lucidez científica e filosófica, que naturalmente o caracteriza/deveria caracterizar.

Naturalmente que as organizações sindicais talvez sejam as que estão em melhor posição para organizar tais encontros, mas poderiam ser perfeitamente ladeadas por muitas outras associações de professores e associações científicas. Quanto à disseminação da reflexão, tal seria facilmente resolvido com protocolos com empresas de difusão de sinal de televisão por satélite, descentralizando-se os encontros através de vídeo-conferência por, pelo menos, todas as capitais de distrito, envolvendo as próprias autarquias. E o timing… é sempre um problema, mas teria que ser lá mais para o Verão! (Início de Setembro?)

Profissionalmente, ganhar-se-ia um bom e abrangente ponto de situação. Politicamente, ganhar-se-ia a consciencialização de que as soluções apresentadas pelo governo não são únicas, ainda mesmo que as melhores possam eventualmente fazer parte do grupo-tipo das que se tentam impor.

Falta apenas a coragem política (sindical) e anímica (professores em geral) para percorrer este caminho de desbravar consciências e de (perigo!) nos confrontarmos com novos problemas e novas exigências!