Há 7 anos atrás, nesta precisa hora, ruía a segunda torre gémea do World Trade Center, em Nova Iorque, por força do brutal atentado terrorista. Aqui fica mais um simbólico minuto de silêncio em solidariedade com o povo americano, porque, afinal, como disse, de modo feliz, o Mayor de Nova Iorque, «hoje assinala-se o sétimo aniversário sobre o dia em que o nosso mundo ruiu»!quinta-feira, 11 de setembro de 2008
11 de Setembro
Há 7 anos atrás, nesta precisa hora, ruía a segunda torre gémea do World Trade Center, em Nova Iorque, por força do brutal atentado terrorista. Aqui fica mais um simbólico minuto de silêncio em solidariedade com o povo americano, porque, afinal, como disse, de modo feliz, o Mayor de Nova Iorque, «hoje assinala-se o sétimo aniversário sobre o dia em que o nosso mundo ruiu»!terça-feira, 9 de setembro de 2008
Grandes números, pequenas virtudes!
No entanto, o PM e a ME esquecem que:
1. É cada vez mais difícil reprovar um aluno, dado o peso burocrático completamente kafkiano que carregam os docentes, designadamente do ensino básico, se estiverem na eminência de o fazerem.
3. As diminutas percentagens de alunos que não transitaram de ano não mostra necessariamente que houve (por muito que, naturalmente, possa ter havido) um significativo acréscimo no envolvimento de professores, alunos e encarregados de educação nesse sentido: isto porque, por um lado, não é mensurável, nem objectivamente fácil de identificar como causa necessária, o empenhamento de professores, muito menos de alunos e encarregados de educação, no sentido de ter sido esse o factor determinante para a melhoria dos resultados (é claro que todos se esforçaram; mas como saber se o fizeram mais este ano do que em anos anteriores?! Pode dar-se o caso de se terem esforçado o mesmo ou ainda menos e terem obtido melhores resultados, desde que o nível de exigência na prestação de provas e ou o rigor na avaliação tenha diminuído!); por outro lado, o único instrumento fidedigno de avaliação efectiva de conhecimentos e competências, que é um exame nacional, tem vindo a ser utilizado (quando é utilizado!) pelo ME de forma pouco rigorosa e, designadamente neste ano transacto, foi utilizado, por vezes, de modo bastante facilitador dos resultados.
Não está em questão o valor da progressão generalizada dos alunos ao longo do seu percurso escolar. Quantos menos chumbarem, tanto melhor, obviamente! Como também não se questiona aqui a valência pedagógica do modelo (aliás, praticado um pouco por essa Europa fora) baseado no princípio da não-retenção do aluno ao longo da escolaridade obrigatória, fornecendo ao aluno que não adquiriu os conhecimentos e competências mínimas próprias de cada ano ou ciclo, uma ajuda suplementar no ano seguinte para recuperar dessas lacunas. Mas a questão não é essa. A questão é que:
1. Quanto ao modelo da não-retenção, há que fazer um efectivo investimento material, pedagógico e, sobretudo, ao nível das mentalidades (de pais, alunos e também professores) no sentido de empreender verdadeiramente – e não apenas para “inglês/burocrata/papalvo ver” – um conjunto de actividades de recuperação do aluno com essas necessidades; mas assumir também que, mais cedo ou mais tarde (como também acontece por essa Europa civilizada fora!), o aluno em questão vai ter que prestar provas daquilo que realmente aprendeu, bem como assumir que é necessário disponibilizar percursos pedagógicos verdadeiramente alternativos e ajustados às necessidades dos alunos e do mundo do trabalho em que, de qualquer modo, poderá vir a inserir-se de modo proveitoso.
2. E depois é preciso compreender que os efectivos critérios de avaliação de conhecimentos e competências (aqueles que se põem realmente em pratica) têm vindo a decair em termos de rigor e exigência ao longo dos últimos anos, instalando-se no sistema de ensino um ambiente de algum facilitismo (lamentado, por exemplo, por docentes do ensino superior!), em muito boa parte da responsabilidade da inabilidade política deste governo e da sua empobrecedora filosofia romântica para a educação. Em suma, ao invés de se ter criado uma dinâmica de incremento do esforço, empenhamento e esperança, passou-se a ideia (intencionalmente ou não) de que pouco mais há a fazer para melhorar, coisa que todos conseguirão com pouco esforço, já que os critérios da escola (dos mauzões dos professores!) é que estavam desajustados!
.
O que se joga na construção de uma barragem
.
.
.
.
.
(Publicado in Terra Quente, 15-08-2008)
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Aproxima-se um “JAMAIS!”?
O relatório de apuramento de causas do descarrilamento da passada sexta-feira na linha do Tua é… inconclusivo! Afinal, «na prática, as entidades envolvidas, limitaram-se a assegurar que estava tudo bem na parte que dizia respeito a cada uma delas». Quando há tantas cabeças responsabilizáveis por um acidente deste espectro vergonhoso é, paradoxalmente (já que a primeira função do Estado é zelar pela segurança de pessoas e bens!), bastante fácil fugir às responsabilidades. Principalmente quando, no fundo, isto não é um assunto de interesse nacional, nem prioritário e ainda é, pelo contrário, um daqueles temas incómodos que interessa esconder, protelar e fazer diluir no atoleiro do cadinho terceiro-mundista tão querido dos nossos competentes e corajosos governantes.De qualquer modo, algo se está a fazer, estejamos descansados: quatro acidentes com quatro vítimas mortais depois… agora sim, o Ministro da tutela considera que vale a pena recorrer a uma equipa especializada independente para proceder à averiguação do estado da linha, das condições de segurança e adequação do material circulante à famigerada linha do Tua! Até porque há por aí, com certeza, muita gente ansiosa pela reabertura da linha, para mais um excitante passeio ferroviário num verdadeiro ambiente de terceiro mundo!
Estará para breve um “JAMAIS!”?
“Lost in Madrid”
Assim se intitulam algumas faixas do álbum “music from Siesta” de Miles Davies/Marcus Miller (1987), que aqui serve para expressar a ideia de quão acolhedora e interessante é a capital espanhola, que, mesmo debaixo de um calor tórrido, em pleno Agosto, consegue cativar o visitante mais exigente e fazê-lo perder-se na sua imensa sumptuosidade.
(Museo Reina Sofia)
A Gran Via, com o seu comércio efervescente, a Puerta del Sol com as suas ruas apinhadas de gente, as sumptuosas esplanadas aspergidas por suaves gotículas de água direccionadas por ventoinhas, espalhadas um pouco por todo o lado, a monumentalidade do Palácio Real, a Ópera, a Plaza Cibeles ou Atocha, a belíssima Plaza Mayor, com a sua arquitectura plena de interesse e os seus bares típicos, ou então o Paseo del Prado com os museus Thyssen, Prado ou Reina Sofia… tudo isto é capaz de preencher as expectativas do mais exigente turista em busca de novos mundos. Só os sumptuosos Museo del Prado e Museo Reina Sofia são capazes de absorver, pelo menos, dois dias de intensa e rica fruição, de Rafael, Goya, Bosch (uma “delícia”!) ou Velázques no primeiro, à arte contemporânea com presença magnânima do surrealismo de Dali, Miró e Picasso no segundo (a contemplação de “Guérnica” é sempre, reiteradamente, avassaladora…). A arte obriga-nos a ver (e a pensar): o belo, o sublime, mas também o trágico.
(Paseo del Prado)
Cidade limpa, bem organizada (sem arrumadores?!), acolhedora, multicultural e aparentemente segura (com policiamento visível em locais e horas estratégicas), Madrid é uma metrópole rica e fascinante. A não perder.
(Gran Via)
(Gran Via)
(Plaza Cibelles)
(Puerta del Sol)
(Ópera)
(Palácio Real)
terça-feira, 26 de agosto de 2008
C’est la vie…! Ou a vergonha de um terceiro-mundismo persistente
Mirandela. Agosto de 2008, era moderna (!?). Um grupo de turistas, depois de se deleitar com a frugalidade dos espaços verdes, de lazer e desporto e do património arquitectónico da Princesa do Tua, de ter degostado os seus típicos fumeiro, queijaria e uma nova cozinha sustentada no melhor azeite virgem extra do mundo, resolve fruir os prazeres de uma serena viagem de comboio por uma das mais belas linhas férreas do mundo. Azar! Descarrilou!Num lapso de tempo de cerca de um ano e meio, mais um (o quarto!) descarrilamento de uma composição do metro de superfície de Mirandela ao serviço da CP na linha ferroviária do Tua. Mais uma vítima mortal. E mais displicência nas declarações oficiais, designadamente do director de comunicação da CP, que, no meio de profícua verborreia politicamente correcta, comunica a profunda ideia de que a vida é um risco constante e que este descarrilamento faz parte das coisas que podem acontecer numa linha férrea… da CP!
Em lugar de comunicar a ideia de que tudo se fará para apurar as causas e as responsabilidades de mais um misterioso acidente ferroviário numa linha em vias de extinção devido à construção da barragem do Tua, e, portanto, transmitindo aos utentes da CP a ideia de que esta empresa tudo fará para assegurar as condições de segurança necessárias à circulação ferroviária em “todas” as linhas do país, comunica, ao invés, a trágica ideia romântica de que é, naturalmente, arriscado viajar em composições ferroviárias da CP ou ao serviço da CP!
Descarrilou mais um comboio na pequena, remota e insignificante linha transmontana do Tua?! Bom… “c’est la vie!” Mas, bom, também é mais uma prova do terceiro-mundismo que teima em caracterizar a forma como o nosso estado (e a nossa sociedade) está (des)organizado. E, ao que tudo indica, é mais uma estranha coincidência na novela dos interesses obscuros em torno da construção compulsiva de uma barragem que, de forma demasiado simplista (para não dizer simplória!), inviabilizará uma linha ferroviária de enorme valia histórico-patrimonial e paisagística e, portanto, de valor acrescentado em termos turísticos para uma região em que o turismo é demasiado importante.
Mas talvez ainda venha a suar um “jamais!” da parte da tutela, relativamente a acidentes completamente injustificados numa linha que teve mais acidentes neste ano e meio que talvez em todo a sua história de mais de um século! Mas, por favor, que ninguém se demita, que isso é característico de países desenvolvidos!
Quem inteligente, com espírito crítico e cultura política (que os há por estas bandas!) fica a aguardar (sentado, claro, para se não cansar!) pelo resultado atempado de mais um inquérito de apuramento de factos e de responsabilidades (ainda faltam dois, dos três acidentes anteriores!). Ou ninguém – como nos países do terceiro mundo – é responsável pelo que aconteceu? Mas também pessoas com aquelas características definidoras de uma cidadania consciente de mundo (que os há muitos por esse Portugal fora), sempre poderão pensar (e agir nesse sentido!) que uma empresa ferroviária que permite mais um estranho descarrilamento ferroviário nesta linha e cujo director de comunicação é capaz de comunicar aquela ideia justificativa completamente medíocre, irresponsável e desrespeitadora dos seus destinatários, merecerá um boicote aos seus serviços por esse país fora… Tal acto não seria apenas uma questão de prudência; seria, sobretudo, uma afirmação de cidadania digna.
Seja crítico – não viaje na CP!
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
A justiça começa agora... em Guantânamo
Eis a primeira condenação de detidos da prisão de Guantânamo (também aqui), no caso, do cidadão do Yémen Salim Ahmed Hamdan, motorista de Bin Laden, cujos advogados recorrerão da decisão. O caso de Hamdan ficará conhecido, não pela sua relevância dentro da organização terrorista Al-Qaeda, mas como o que despoletou os acórdãos do Supremo Tribunal dos E.U.A., que vieram a considerar ilegais as comissões de julgamento militar instituídas em Guantânamo e, assim, a conceder plenos direitos aos detidos suspeitos de participação em actos terroristas, designadamente de recurso hierárquico e, em última análise, aos tribunais civis. É um início simbólico de um dos casos de justiça que talvez possa vigorar nos anais da história como um dos mais complexos e polémicos, por envolver o conflito dos direitos indivíduais frente à (em clara colisão com a) segurança do Estado americano e do mundo (reflicta-se nisto, com Pojman).quarta-feira, 30 de julho de 2008
quarta-feira, 16 de julho de 2008
Delícias III
Mais uma pequena delícia, que mostra como muitas instituições superiores de formação inicial de professores também se “adaptaram ao mercado” do romantismo e construtivismo ingénuo, tão caros ao ME português e, assim, deram o seu contributo para um verdadeiro estado de surrealismo pedagógico que tem assolado a Escola:«Uma professora da área de ciências do terceiro ciclo do Ensino Básico (Sintra, 2005) pede aos seus alunos para inventarem uma experiência em que ponham à prova o seu espírito científico. Uma aluna, naturalmente motivada por alguma coisa que ouviu sobre a velocidade da queda dos corpos, resolve fazer experiências para verificar se bolas de diferentes pesos caem de formas diferentes. Faz a experiência com bolas de ping-pong e bolas de ferro e conclui que as segundas caem mais rapidamente. A professora fica muito contente, diz à aluna para apresentar o trabalho num concurso de ciências para jovens e a rapariga apresenta em público os seus resultados. Ora, o que a estudante acabou de fazer foi regredir até Aristóteles (384-322 a.C.). A professora, evidentemente, não conhecia a polémica sobre a queda dos corpos nem a célebre lei da queda dos graves.
No século IV a. C., Aristóteles dizia que os corpos caem tanto mais rapidamente quanto mais pesados são. Quase dois milénios depois, numa série de experiências célebres, muito conhecidas, sobretudo, através do episódio, naturalmente romanceado, da torre inclinada de Pisa, Galileu Galilei (1564-1642) mostrou que os corpos em queda livre caem independentemente do seu peso, e explicou que a observada diferença de velocidades se deve ao atrito, à resistência do ar. [Ver, por exemplo, Stillman Drake, History of Free Fall: Aristotle to Galileo, Toronto, 1989.]
Estas experiências clássicas de Galileu desempenharam um papel na revolução científica que apenas tem paralelo nas conjecturas e observações astronómicas que originaram a revolução heliocêntrica. Evidentemente, a professora nada sabia deste assunto e ajudou a inculcar na aluna e nos seus colegas uma ideia errada que agora custará mais a apagar.
A experiência poderia ter dado resultados altamente positivos se a professora, ao invés de abandonar por completo a aluna, tivesse sabido guiá-la, sugerindo-lhe uma experiência que pudesse levar a conclusões pedagógicas úteis e, finalmente, soubesse criticar os resultados. O ensino experimental em que os jovens devem ser mergulhados deve estar adequado ao tempo, recursos e conhecimentos limitados de que os estudantes dispõem. As experiências pressupõem planeamento e conhecimentos, sobretudo por parte do professor, e não são sinónimo de espontaneidade nem devem ser uma promoção da falta de rigor. Por detrás de tudo isto, além de ignorância científica e pedagógica, está um desrespeito pela ciência e pelo saber e uma extraordinária arrogância. Acreditando, ou fingindo acreditar, que os jovens são capazes de desenvolver um espírito crítico e experimental que se inspira no vazio e não no conhecimento, o romantismo pedagógico quer fazer crer que um jovem, sem preparação de alguma espécie, é capaz de chegar a conclusões científicas que custaram à humanidade muitos anos e muito esforço a conquistar. Este salto de etapas pedagógicas é mais outra manifestação de uma atitude romântica anti-intelectual inspirada no naturalismo de Rousseau.»
In: Nuno Crato, O “Eduquês” em Discurso Directo – Uma crítica da pedagogia romântica e construtivista (Lisboa: Gradiva, 2006) 6ª edição, pp. 87-9.
Sem dúvida que um dos fins do ensino é o desenvolvimento, a um tempo, do espírito criativo e científico. Mas isto… talvez seja demais e, de qualquer modo, pouco contribua efectivamente (talvez, bem pelo contrário) para esse duplo fim!
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Mas o Estado é… ladrão?!
A taxa “Robin dos Bosques” sobre os lucros das petrolíferas é um péssimo acto político, pelo menos, pelas seguintes razões:1. Criando um imposto sobre os lucros das petrolíferas, o governo de José Sócrates dá mais um esquizofrénico passo no sentido de aumentar o intervencionismo do estado na economia – tanto actua como se se tratasse de um governo liberal (tanto na economia como nos costumes), como faz o contrário, espalhando os tentáculos do Estado pela actividade económica e social (vejam-se os tiques totalitários e, por exemplo, a lei da autonomia das escolas, que é completamente ilusória, quando o ME continua a controlar excessiva e desnecessariamente a direcção das escolas). Se o objectivo era (que não parece que seja) redistribuir riqueza para obviar à escalada dos preços dos combustíveis, não seria melhor deixar de arrecadar menos impostos, descendo o ISP (por pouco que fosse), e, assim, permitir um alívio directo sobre o consumidor e enviar um sinal positivo ao mercado, em vez de criar mais um imposto, que parece mais engordar o Estado, do que aliviar a mingua dos indivíduos?
2. Depois, ainda que a medida seja sustentável, do ponto de vista económico, foi maquilhada de um modo altamente reprovável, do ponto de vista ético-político – adornar mais este “pacote” de medidas supostamente salvíficas com a metáfora do “Robin dos Bosques” é transmitir, de modo (no mínimo) completamente irreflectido, a ideia de que o Estado é um ladrão bom(!), que surge como salvador dos pobres explorados pelos ladrões maus (petrolíferas, vulgo geral: “ricos”) que lhes retiram injustamente o pão da boca. Daqui decorrem duas perversas consequências:
2.1. José Sócrates está, não a tentar resolver os problemas reais de uma crise pior do que se possa querer admitir (o que é sumamente mais difícil de fazer, do que assobiar pelo “Robin dos Bosques”!), mas a produzir mais um forte golpe de propaganda eleitoralista, desta feita na tentativa de recolher votos daqueles que sustentam e sentem “na pele” preocupações sociais (a isto chama-se populismo!) e, mais especificamente, de se introduzir inteligentemente no imaginário da esquerda, “roubando” espaço ao PCP e ao BE.
2.2. Tal iniciativa, maquilhada desta forma, faz atolar, escancaradamente, o governo de Sócrates num dos grandes problemas da justiça distributiva, a saber, até que ponto a tributação (pelo menos excessiva) sobre o produto da actividade livre não é precisamente um roubo e, portanto, uma injustiça, como apontam os filósofos e economistas libertários (como Nozick ou Hayek).
2.3. E, at last but not least, está a alimentar irresponsável e despudoradamente a ideia de que o Estado – conjunto de instituições que substituem o estado de luta de todos contra todos (onde a liberdade desregulada geraria violência e, precisamente, actos de furto!) – pode simplesmente roubar a uns, ainda que com a capa da justiça, para dar a outros, quando o Estado é, justamente, pelo contrário, uma forma de organização da sociedade baseada na ordem, nas regras e na defesa das liberdades e garantias dos indivíduos, que actua e faz actuar com base em princípios éticos e não em actos violentos, próprios do indivíduo egoísta que procura satisfazer, por todos os meios, os seus interesses pessoais. Transmite-se, deste modo, a ideia perigosa de que o Estado é impotente para ordenar eticamente a sociedade, introduzindo dúvidas sobre a legitimidade dessa sua fundamental função (“se não vai a bem, vai a mal”!).
Quando um dos entraves ao desenvolvimento – não só económico, mas primeiramente ético e político – do país é a atitude crescente de actuar há margem da lei e da ética contra os outros e contra o Estado (que continuamos a não saber muito bem o que é!), era exigível e não apenas desejável, que o exemplo viesse de cima. Em vez disso, usa-se o “Robin dos Bosques” para ajudar – de modo completamente anacrónico e descontextualizado –, não o “povo”, mas o PS de Sócrates... a ganhar eleições!
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Delícias II
Quando, afinal, os resultados da prova de Matemática do 9.º ano, não foram assim tão bons quanto desejável, aqui fica mais uma “delícia” a propósito da matemática da pedagogia romântica e construtivista, que teima em insuflar a pedagogia do ME de Portugal, comentadas por Nuno Crato no seu pequeno, mas esclarecedor livro, O Eduquês em Discurso Directo, que vale sempre a pena revisitar para aclarar ideias:«”Piaget considera igualmente que os conceitos matemáticos se desenvolvem espontaneamente nas crianças, não havendo necessidade de serem ensinadas directamente pelos professores. No entanto, existe uma parte do conhecimento matemático que é do tipo convencional e terá de ser ensinada.” (Nota de pé de página da autora: “É o caso de todos os símbolos aritméticos […]”.) [Luísa Maria de Almeida Morgado, O Ensino da Aritmética: Perspectiva Construtivista, Coimbra, Almedina, 1993, p. 29.]
Para além do abuso intelectual que é reclamar esta ideia absurda para Piaget, sem qualquer referência aos seus escritos, destaque-se a conclusão deste parágrafo: para respeitar o desenvolvimento da criança, os professores nada lhe devem ensinar de conteúdo matemático. Apenas as convenções gráficas e outras. Pense-se um pouco. Dever-se-á deixá-la descobrir por si própria os números primos, as regras de proporcionalidade e o teorema de Pitágoras?»
In: Nuno Crato, O “Eduquês” em Discurso Directo – Uma crítica da pedagogia romântica e construtivista (Lisboa: Gradiva, 2006) 6ª edição, p. 110.
quinta-feira, 10 de julho de 2008

.
Hannah Arendt, Verdade e Política, trad. port. de Manuel Alberto (Lisboa: Relógio d’Agua Ed., 1995) p. 9.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Ministérios da Educação - Ministérios da Propaganda!
Anti-americanismo imprudente
O Ex-Presidente da República, Mário Soares, um anti-americano militante, afirmou – num encontro patrocinado pela Ordem dos Advogados, em que se encontrava presente uma representante da embaixada dos E.U.A. em Portugal – que a prisão Norte-Americana de Guantanamo apenas tem paralelo com os campos de concentração nazi.Para além do anti-americanismo quase (para não dizer mesmo) primário, revelado no exagero imprudente das declarações proferidas, e do facto de Mário Soares (como, em geral, toda a esquerda, incluindo a socialista, tem tendência para fazer) ter esquecido os massacres de Staline, revelam, sobretudo, um profundo desconhecimento da problemática filosófico-política envolvida nesta questão. (Curiosamente, deve conceder-se a Mário Soares, paradoxalmente, uma das mais bem esclarecidas mentes da política nacional!)
Recentemente, o Supremo Tribunal dos E.U.A. concedeu, e parece-me que bem, direitos iguais aos presos de Guantanamo – privados da sua liberdade com base em suspeitas de participação em actividades terroristas, mas muitos sem terem ainda sido formalmente acusados, e que seriam julgados por um tribunal militar – para poderem recorrer aos tribunais comuns. Esta decisão de reforço dos direitos e liberdades daqueles presos funda-se, em última análise, numa tradição do pensamento político ocidental muito influente nos sistemas políticos contemporâneos, que consiste em defender que a natureza, o âmbito e o objectivo da autoridade política deve ser entendido em relação com a prioridade atribuída à liberdade humana. Desde Maquiavel, Locke, Thomas Paine, J. S. Mill, até Rousseau, Hegel ou T. H. Green e mesmo aos anarquistas e marxistas, que a promoção da liberdade é considerada a finalidade da política. Claro que há diferenças de concepção: em alguns casos é vista como um bem em si mesma, noutros como condição necessária para a realização de outros valores relacionados com o bem-estar humano; alguns (como Rousseau, Hegel ou Green) consideram-na como atributo social, outros (como Locke ou J. S. Mill) concebem-na em termos individualistas.
É esta complexa tradição liberal que dá forma, em boa parte, ao modo como se concebe hoje, nas sociedades democráticas e liberais, o papel da política. É ela que deu origem aos Direitos Humanos, entre os quais se encontra o direito a não ser privado da sua liberdade sem acusação formada. É nela que se ancora a indignação de Mário Soares.
No entanto, o Ex-Presidente da República esquece, para além do facto do poderoso terrorismo, que ameaça justamente as nossas sociedades democráticas liberais, uma outra longa tradição do pensamento político ocidental, que, irremediavelmente, deve aqui ser invocada por ser um outro pilar fundacional do modo como se tem entendido a finalidade da política: a identificação e a manutenção de uma ordem apropriada sempre foram vistas como uma condição prévia necessária para que o Estado organize formas meritórias da existência humana. Com a excepção de marxistas e anarquistas, tem-se pensado que as capacidades coercivas e persuasivas do Estado eram essenciais para a criação da ordem. É claro que podemos vislumbrar concepções “negativas” de ordem: Agostinho, Lutero, Hobbes e os modernos proponentes do governo autoritário (Carlyle, Maurras ou Hitler) defenderam a ordem como meio de reprimir as más acções e ou compensar as deficiências morais e intelectuais de grande parte da população. Mas também podemos encontrar concepções “positivas” de ordem: autores como Platão, Aristóteles, Tomás de Aquino, Rousseau, Hegel e Green defenderam uma conjugação de formas de ordem particulares com a necessidade de estabelecer condições de cooperação, nas quais os seres humanos pudessem prosseguir outros valores fundamentais, designadamente o valor da liberdade!
Ora, no mundo globalizado de hoje a questão da ordem é novamente suscitada como nunca: a tendência para a globalização envolve formas de interacção, interdependência e direcção, que não só vão para além do Estado como ameaçam transcendê-lo. E a ameaça do terrorismo é grotescamente demasiado real para ser esquecida. É neste sentido, que o cosmopolitismo volta a ser encarado com profunda seriedade e pragmatismo, através, designadamente, da concepção teórica em curso de um governo mundial.
Não podemos, pois, esquecer que a defesa da liberdade de suspeitos de terrorismo pode colidir com a liberdade de indivíduos que, não só não são suspeitos de tal crime, como apenas podem viver se tal crime não for perpetrado (pense-se nisto!). Para tal, não podemos afastar-nos muito de uma forma “positiva” de encarar a ordem como meio do Estado poder proporcionar condições necessárias para poderem ser vividos pelos indivíduos outros valores, tais como a fundamental liberdade.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Delícias I
A propósito da polémica em torno dos “estranhos” exames de Matemática (e Português!) e da pedagogia construtivista ingénua que tem envolvido, nas últimas décadas, as (des)orientações do ME, não resisto a partilhar algumas análises críticas que Nuno Crato faz de textos supostamente científico-pedagógicos dos educadores de Portugal:«Vejamos extractos de um livro dedicado à preparação de professores do ensino básico e muito recomendado em Escolas Superiores de Educação. A autora apresenta-se desde o início como apoiante da perspectiva construtivista, que explicitamente reconhece inspirar os fundamentos do programa de matemática do 1.º ciclo (1990).
“O papel do professor não é pois o de transmitir ideias feitas aos alunos mas de os ajudar, através das tarefas apresentadas, a construir os seus próprios conhecimentos. (…) Sendo assim, o professor deverá respeitar sempre a opinião do aluno e, mesmo quando esta é incorrecta, evitará emitir sobre esta juízos de valor.” [Luísa Maria de Almeida Morgado, O Ensino da Aritmética: Perspectiva Construtivista, Coimbra, Almedina, 1993, p. 25.]
Curiosa esta designação para conhecimento: “ideias feitas”… Mais uma vez, parece sensato que o ensino não seja a transmissão de preconceitos. As não devem os professores transmitir aos alunos a “ideia feita” de que a República foi implantada em 1910, nem a “ideia feita” de que um triângulo tem três vértices? E devem “evitar emitir juízos de valor”? A classificação de certo ou errado não constitui um juízo de valor? Deve ser evitada pelo docente? É isso que quer dizer “respeitar sempre a opinião do aluno”? Pelos vistos, há quem o defenda e dê significado dogmático ao apelo ao “respeito”.»
In: Nuno Crato, O “Eduquês” em Discurso Directo – Uma crítica da pedagogia romântica e construtivista (Lisboa: Gradiva, 2006) 9ª edição, pp. 109-110.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
A verdade matemática!
As médias dos resultados obtidos pelos alunos portugueses nos exames nacionais de Matemática A (Cursos Científico-Tecnológicos) no final do 12.º ano de escolaridade, nos últimos cinco anos, foram as seguintes:2004 – 8,6 valores
2005 – 8,1 valores
2006 – 8,1 valores
2007 – 10,6 valores
2008 – 14,0 valores
O ME adiantou que tal evolução nos resultados se ficou a dever ao maior empenho dos alunos, que estudaram mais, dos professores, que ensinaram melhor, e ao facto de ter sido concedido mais tempo para realizar os exames.
A questão que se coloca é a de saber se a melhoria dos resultados se deve, efectivamente, ao facto dos alunos terem, de um ano para o outro (de 2006 para 2007 e, sobretudo, de 2007 para 2008), estudado e aprendido mais e ao facto dos professores terem passado, de um ano para o outro, a ensinar mais e melhor. Ou seja, mais precisamente: poderemos servir-nos destes exames realizados ao longo destes anos, para saber se os alunos sabem realmente mais Matemática?
O argumento que tem sido verbalizado pelo Matemático Nuno Crato, Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), é o de que, com base nestes dados, não podemos saber realmente isso, uma vez que: tem variado a estrutura dos exames ao longo dos anos; tem variado o tipo de questões formuladas; tem variado (tendencialmente, desde o ano passado, decrescido, principalmente este ano) o grau de dificuldade; têm variado os critérios de correcção das provas; tem variado o tempo de duração das provas (este ano acresceu mais 30 minutos!). Com todas estas variações, não mantendo um padrão mais ou menos coerente na forma como se testam e avaliam conhecimentos e competências, não é de todo possível extrair qualquer conclusão cientificamente fidedigna ou objectiva, a partir destes instrumentos mal elaborados, sobre a evolução das aprendizagens dos alunos na disciplina de Matemática.
É claro que toda a gente(?!) gostaria que os resultados nas provas da disciplina-rainha do sistema das ciências da era moderna, que os alunos das escolas portuguesas obtivessem, fossem, efectivamente, um espelho mais real das suas aprendizagens e, portanto, um verdadeiro auxílio inestimável para as suas vidas futuras. É claro também que a SPM e outros críticos, como a Associação de Professores de Matemática (APM) assumem, com algum natural regozijo, que tem havido uma preocupação do ME em alterar o ainda “mau estado” do desempenho matemático dos nossos alunos, designadamente através do Plano de Acção para a Matemática. Mas, de facto, este plano, como alertou hoje a APM, não abrangeu estes alunos do 12.º ano (iniciou-se para os alunos do 9.º ano em 2006/2007), pelo que não poderia ser um factor responsável por estes resultados. E depois não podemos fazer uma correlação directa entre os resultados nestes exames, com todas as variações descritas, e o que eles deveriam, pelo menos em parte (tanto quanto é possível), avaliar, que eram os conhecimentos e competências que os alunos efectivamente dispõem no final de um ciclo crucial de aprendizagens.
Além do mais, sabe-se que as reformas introduzidas num qualquer sistema de ensino demoram a ter resultados fiáveis. O único estudo credível, que compara os desempenhos matemáticos de alunos de vários países em todo o mundo (o PISA, da OCDE), mostra que, de 2003 para 2006 (últimos dois estudos efectuados), o desempenho dos alunos portugueses teve uma oscilação muitíssimo menor do que aquela que o ME quer atribuir com base nestes exames nacionais, com as deficiências científico-pedagógicas apontadas.
Portanto, fazer crer que estes resultados nestes exames espelham conhecimentos e competências matemáticas efectivamente adquiridas pelos alunos e que isso é o resultado das imperfectíveis políticas educativas de suposto sucesso implementadas pelo ME, conduzido por Maria de Lurdes Rodrigues, é demasiado falso para parecer ser verdade.
A “verdade matemática” é evidente. As consequências políticas não o são menos.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Quando a Escola deixar de ser Escola
Maria Filomena Mónica escreve mais um texto imperdível, a propósito dos exames de Português, na elaboração do qual teve a oportunidade de se deleitar (e connosco partilhar) com algumas das monumentais (des)construções pseudo-científico-pedagógicas que brotam dos doutos autores de programas, exames e critérios de correcção dos mesmos, que têm vivido extraordinários anos de fecunda emoção intelectual no Mi(ni)stério da Educação de Portugal. Sim, é verdade: a doença do romantismo rousseauniano e do construtivismo ingénuo (vulgo "eduquês") ainda vai (des)orientando o ensino em Portugal. (Não é por acaso que as fontes bibliográficas de que suas exas. se munem para fabricar excelsas obras programáticas, muitas delas compostas de citações de citações, são maioritariamente em língua gaulesa, e bem menos em língua inglesa! É que os autores anglo-saxónicos ainda contaminados por este tique de pseudo-cientificidade pedagógica, são bem menos, estando o grosso da inteligência, sobretudo em terras do Tio Sam, a fazer arreigar, já há muito, o estudo da pedagogia em psicologia experimental e não na bela citação de citação, que tantos doctor mirabilis tem diplomado por essas universidades fora!).quarta-feira, 2 de julho de 2008
As tropelias dos meninos de ouro
Na passada semana, quando Margarida Moreira, Directora Regional de Educação do Norte, terá dito que «talvez fosse útil excluir de correctores aqueles professores que têm repetidamente classificações muito distantes da média», «os alunos têm direito a ter sucesso» e o que «honra o trabalho do professor é o sucesso dos alunos» estava simplesmente a dar cumprimento a uma política, explícita ou implicitamente dimanada de Lisboa, de facilitação de obtenção de resultados em provas de aferição e exames nacionais.segunda-feira, 30 de junho de 2008
Parabéns aos nuestros hermanos!
Afinal, ganhou o futebol espectáculo espanhól, pleno de técnica e emoção, que proporciona algum prazer para quem assiste, de uma equipa verdadeiramente empenhada em jogar como tal e competir com a camisola do seu país. Perdeu o calculismo pragmatista e frio de uma equipa alemã que joga (quando lho consentem e o consegue) em busca do erro do adversário, mas que, apesar de ser sempre uma grande equipa do futebol mundial e de ter chegado à final deste Euro 2008, não proporciona, de facto, espectáculo nada agradável para quem deseja deleitar-se um pouco com o desporto rei.quinta-feira, 26 de junho de 2008
Mais falácias, senhora Ministra!
A ME, Maria de Lurdes Rodrigues, reagiu às críticas aos exames, designadamente de Matemática, negando que haja facilitismo, alegando que as críticas são meros alarmismos e oportunismos políticos e - no seu habitual tom acusatório completamente despropositado - que os professores sempre gostaram muito de polémicas acerca de exames (veja-se, por ex., edição em papel, de ontem, do JN, p. 8)! Quando não há razões objectivas e, portanto, válidas para contra-argumentar é mais fácil acusar os críticos... de serem críticos! Ora, isto é aquilo que em lógica informal se chama um argumento ad hominem: em vez de se "atacarem" as ideias, atacam-se as próprias pessoas, nalgum suposto defeito que possam, alegadamente, possuir, mas, de qualquer modo, irrelevante para apreciar as suas ideias - o que constitui um argumento falacioso (i.e., inválido, embora apresentado de modo a parecer válido).terça-feira, 24 de junho de 2008
Afinal, a Matemática… é fácil!!
Os alunos do 12.º ano realizaram ontem o exame nacional de Matemática. Ao que parece, foi fácil, tal como o exame do 9.º ano, demasiado fácil! Os resultados dos exames à disciplina-rainha do mundo do saber científico e tecnológico, em geral muito baixos no nosso país, têm melhorado nos últimos três anos. A questão é saber se por força de uma melhoria efectiva nas aprendizagens de conhecimentos e competências da Matemática ou se por um abaixamento do nível de exigência dos exames nacionais que os deveriam testar. A questão é levantada pela SPM (Sociedade Portuguesa de Matemática; veja-se aqui a análise que a SPM faz do exame de Matemática do 12.º ano), que invoca, na argumentação de Nuno Crato, o estudo da OCDE (o mais credível a nível mundial) para avaliar conhecimentos e competências – o PISA –, o qual mostra que Portugal não só não está efectivamente a evoluir, como está ainda aquém de resultados satisfatórios para um país que se deseja em desenvolvimento (veja-se aqui).Mas, para que serve, afinal, um exame de conhecimentos e competências? Serve para três coisas:
1. Serve para, no final de um percurso de aprendizagem, avaliar os conhecimentos e competências obtidos;
2. Serve para incrementar o esforço, a dedicação e responsabilidade, ao longo do processo de aprendizagem de quem quer apreender um conjunto de conhecimentos e competências;
Assim, o professor deve seguir uma lei programática que dita as competências e os conhecimentos que o aluno, no final de determinado ano ou ciclo de ensino, deve atingir. Quando, no final de um processo de ensino-aprendizagem, o exame nacional de avaliação de conhecimentos e competências, produzido, supostamente, pela mesma pena que produziu o programa, não se funda na exigência ou pressuposto dos mesmos conhecimentos e competências, então é um exame mal elaborado, não cumprindo minimamente a sua função essencial. Essa discrepância constitui, pois, uma falha técnica na elaboração do mesmo, que existe quer se o exame exigir mais do que estava programado, quer se exigir menos do que estava programado. Portanto, o exame de Matemática em análise acaba por não conseguir escapar a esta crítica.
Por outro lado, apresentar, no final de um ano naturalmente exigente (e cuja cultura escolar já tinha consagrado, muito natural e consensualmente, como tal), um exame de conhecimentos e competências injustificadamente fácil é colocar em causa todo um trabalho de rigor e exigência no processo de ensino-aprendizagem e sua avaliação, desenvolvido, ao longo de três anos, por professores empenhados na árdua tarefa de ensinar e fazer aprender Matemática. Se tomarmos em conta os resultados dos exames de Matemática dos últimos três anos, isso quer dizer que o trabalho, em geral, dos professores de Matemática tem sido eficaz no modo como têm feito os alunos aprenderem Matemática ou terão sido antes os resultados naturalmente melhorados pelo decaimento do nível de exigência na testagem de efectivos conhecimentos e competências matemáticas por via do exame nacional? E se os processos de avaliação de conhecimentos utilizados pelos professores forem, em geral, mais rigorosos que o próprio exame nacional – com aquelas falhas técnicas apontadas –, isso significa que são esses processos que estão errados ou será antes o exame que se encontra desajustado face à sua função?
Mas o problema não se fica pela falha técnica, nem pelo desrespeito pelo trabalho de muitos professores (embora não por todos, naturalmente) ou pelo completo falhanço do exame enquanto instrumento de avaliação externa. O problema é que o ME, ao criar exames demasiado facilitadores – não das aprendizagens, mas da obtenção de resultados (que é bem diferente) –, acaba por ser o primeiro responsável pela difusão, já hoje bem notória e generalizada para quem vive o seu quotidiano numa escola, de uma atitude altamente permissivista e facilitista, que é, obviamente, muito negativa para a formação das pessoas dos alunos, bem como para a difícil fase de desenvolvimento do país.
Quando se deveria exigir qualidade, facilita-se; quando se deveria exigir verdade, mascara-se; quando difícil é mudar realmente, altera-se artificialmente. Mas nem todos compreenderão estas análises críticas e, por isso, é muito natural que a estratégia política deste governo – em ante-vésperas de eleições e agora com oposição que se começa a fortalecer – convença muitos incautos, eles próprios já contaminados por esta cultura política demagógica e altamente propagandística da facilidade das leituras de curto prazo, com estatísticas embriagadoras a ajudar.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
A incompetência por cá continua
O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) fez, recentemente, um périplo por escolas do país, no intuito de realizar acções de sensibilização da população estudantil a propósito do flagelo do tráfico de seres humanos.À partida, uma iniciativa naturalmente notável. No entanto, numa sessão a que pude assistir com alunos, encontrei dois indivíduos a procurar cumprir uma missão para a qual não se mostraram nada preparados, nem empenhados: um, sentado, com o cotovelo cravado numa mesa a segurar a cabeça, com ar de profundo enfado; o outro, a decifrar a custo uma apresentação em PowerPoint, naturalmente não concebida por ele, a partir da qual lá foi, a espaços, balbuciando algumas explicações do fenómeno e acções preventivas a empreender.
A cereja sobre o bolo veio com a distribuição de um pequeno livrinho em banda desenhada (numa tradução portuguesa), cuja contracapa vinha ornamentada com uma surpreendente errata auto-colada:
“Na página 01, onde se lê Concelho deve ler-se Conselho.”
A sra. Inspectora Superior do CIF/SEF, Luísa Maia Gonçalves, que surge como coordenadora do projecto, deveria ter tido outro cuidado, para além de permitir uma simples apostagem de uma errata, diante de erro ortográfico completamente inadmissível, numa era em que os correctores electrónicos até já substituem a gramática da língua de quem não a possui!
Numa altura em que já se vai percebendo, de modo mais alargado (embora não tão generalizado quanto seria de desejar!), que o empenhamento, a dedicação, a competência e a exigência de qualidade no desempenho profissional são condições necessárias para o adequado desenvolvimento do país, seria de esperar que tais prerrogativas também (ou sobretudo) atingissem organismos do Estado.
É claro que aquelas pessoas não detinham as qualificações e competências adequadas para fazer aquele trabalho de exigência pedagógica. Mas não podemos continuar a cumprir calendário/horário apenas para um povo supostamente ignorante ver. Quando o assunto for sério (como era o caso) e se pretender fazer um trabalho de divulgação, que envolve preparação científico-técnica e qualidades comunicacionais, numa escola, talvez fosse boa ideia ir começando a pensar que, mesmo nas escolas portuguesas, lá se vai encontrar massa crítica, competência comunicacional e cultura de cidadania suficientes para exigir uma outra preparação por parte de quem protagonizar semelhantes acções. Não será melhor avaliar também o desempenho de outros agentes públicos?!






