quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Não basta ser; é preciso também parecer!

O prestigiado administrativista e histórica figura política de proa, Diogo Freitas do Amaral, vem a terreiro afirmar que, do ponto de vista do direito administrativo, não há qualquer ilegalidade nos apressados despachos de licenciamento do então Ministro do Ambiente, José Sócrates, e, portanto, todo este diabólico processo de suspeitas de uso de roupagem invernosa em cálidas mãos é tudo fruto de um primário e simples sentimento de raiva e desespero dos seus adversários.
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Ora, o Senhor Professor Doutor Freitas do Amaral, como simples mortal, também pode cometer erros de raciocínio, como foi o caso, pois não convence com o argumento falacioso de que, a haver "luvas", então também teria que ter havido para o PR Jorge Sampaio e para o PM Durão Barroso... Este erro de raciocínio é conhecido pelo "argumento da derrapagem": vendo bem, cada uma das condicionais evocadas é ligeiramente improvável e, exagerando um pouco, talvez no final da cadeia houvesse, digamos, centenas de individualidades a receber "luvas", o que nos situaria num ponto muito para além da mais elementar razoabilidade e sensata aceitabilidade.
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E não sendo também, tanto quanto se saiba, Diogo Freitas do Amaral um especialista em Psicologia Humana, mesmo apesar da sua veia literária, talvez não suponha ele que tal sentimento de raiva possa alicerçar-se num habitual raciocínio, que, inevitavel e legitimamente, todos fazemos, nas mais variadas situações do nosso dia-a-dia: se há indícios e se já aconteceu no passado, é bem provável que também possa ter acontecido desta vez! Independentemente da verdade dos factos, que deve, naturalmente, ser apurada, o que é certo é que os "raivosos" dos portugueses não contraíram, certamente, qualquer doença com tais sintomas. A explicação racional mais plausível talvez seja a de que estarão já a perder a paciência de tanto esperar por políticos verdadeiramente impolutos, sérios, incorruptíveis e que, verdadeiramente, pareçam servir os interesses do país. Como disse o insuspeito ex-Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio, ainda no exercício das suas funções (e vá-se lá saber porquê ou por quem!), «há coisas em que não basta ser; é preciso também parecer»!