segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Prémios para professores

Portuguesa é professora do ano na... Austrália Ocidental! Rosinda Seabra, professora de História e Geografia há 20 anos na Austrália, desvenda o segredo (conhecido, diga-se): «Eu envolvo-me com os alunos. Quero que façam o melhor que possam. Quem quer ser alguém, eu faço tudo para que alcance os seus sonhos». Duas notas.
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1. É claro que é de envolvimento que se trata, quando se trata de bons profissionais, em qualquer lado e em qualquer profissão. Em Portugal é preciso mais envolvimento, mas não só de alguns professores, como também de governantes, pais e encarregados de educação e sociedade em geral. Mas já querer que os alunos façam o seu melhor e fazer tudo para que quem quer ser alguém alcance os seus louváveis objectivos, isso é, entre nós, outra coisa! Em Portugal, fazer com que os alunos dêem o seu melhor é ainda mal visto e pior compreendido -- coitadinhos dos meninos (que podem ter um esgotamento), obrigam-nos a fazer cada coisa e depois não ficariam com tempo para mais nada...! E, sacrilégio dos sacrilégios, nem pensar em dedicarmo-nos àqueles cuja vontade os impele para o melhor, já que a função do professor (reza a cartilha do nosso ME) é ensinar tudo a todos... principalmente aos que não querem aprender... nem que isso seja, não só impossível, como, pior, inviabilize, tantas vezes, a aprendizagem dos que querem aprender (repare-se que não nos referimos aqui a capacidades, mas a vontade!). Mas quem é que quer ser como os australianos?! Estamos tão bem, na nossa "santa ignorância"!
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2. Premiar o desempenho docente não tem, em si mesmo, qualquer mal e até pode ser bom, excepto se aparecer como uma medida desgarrada, descontextualizada, inoportuna e, portanto, que apenas se pode compreender como propaganda política. Em Portugal, diferentemente de outros países desenvolvidos, há ainda muito a fazer pela educação (e pelos professores), antes de começar a premiar os protagonistas.

Assim, ao contrário, por exemplo da Austrália (e de outros países desenvolvidos), em Portugal não há um ensino de verdade, mas de ilusão; não há uma valorização da escola, porque não há uma valorização do saber, sendo a escola cada vez mais encarada como um quase-depósito de crianças e jovens, para professor educar (subversão completa de uma das mais importantes instituições da humanidade, cuja função é ensinar!); não há uma cultura de verdadeira avaliação de conhecimentos e competências aprendidas, mas apenas o fardo de uma ideologia ministerial da "criança selvagem", que, a par de alguma inoperância e atitudes incoerentes de muitos encarregados de educação, tem vindo a arredar do ensino o valor do esforço, da dedicação e do empenho do aluno em aprender, tão necessários ao seu desenvolvimento como ser humano carente de cultura.

Com uma carreira docente justa e adequada às necessidades do múnus de ensinar (e não, simplista e irresponsavelmente, pensada apenas para poupar dinheiro ao Estado; é que há mais onde poupar!), com uma avaliação de desempenho docente séria e justa, com uma avaliação das aprendizagens dos alunos naturalmente consequente, com condições infra-estruturais básicas nas escolas, com um modelo de gestão escolar verdadeiramente autónomo e corresponsabilizador e com um verdadeiro espírito nacional pela educação (conseguido através de uma reiterada campanha nacional de verdadeiro empenho de todos na edificação de cada criança e jovem em adulto verdadeiramente preparado para o mundo real povoado de pessoas), então, sim, faz sentido premiar os melhores.
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(P.S.: Curiosa é a notável importância que a profissão de professor está a ter, de repente, nos nossos órgãos de comunicação social. Assim atinja a consciência colectiva de um povo à espera de ser maior!)